Mural de homenagem a Lionel Messi, em Rosario, a cidade-natal da lenda argentina
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Messi foi uma anomalia. E nós temos de lhe agradecer

'Direto ao assunto' é um espaço de opinião quinzenal de Francisco Vaz de Miranda, editor-executivo

27 de junho de 2016. Horas antes, em Lens, Portugal tinha acabado de ultrapassar a Croácia nos oitavos de final do Europeu para, dali a duas semanas, chegar ao céu com golo de Éder. A milhares de quilómetros de distância, em New Jersey, Lionel Messi acabava de perder a quarta final consecutiva pela Argentina e, cansado, fechava de vez a porta à albiceleste. «Para mim, acabou a seleção. Tentei tudo, dói-me não ganhar um título com a Argentina. No balneário pensei que acabou, não dá mais», dizia, devastado, depois de falhar um dos penáltis na derrota frente ao Chile, na final da Copa América Centenário. Antes, mais duas derrotas nas finais da prova sul-americana (2007 e 2015) e a prata no Mundial-2014.

Era demais para o melhor jogador do planeta, acusado de não cantar o hino, de jogar o triplo no Barcelona e não ter arcaboiço para ser lenda como Maradona. A decisão a quente durou, felizmente, pouco. Voltaria à seleção mês e meio depois, para colar um país futebolístico em cacos e apurá-lo para o Mundial-2018. Era estranho o contraste entre a glória em Barcelona e as derrotas dramáticas que colecionava na seleção.

Prestes a completar 30 anos, podia ter desistido de vez e preferido o conforto da família e de verões com férias prolongadas, mas não o fez. E ainda bem, porque o melhor estava por vir. Com Scaloni a história virou, ao ponto de, com 39 anos, ter sido o melhor jogador do último Mundial, mesmo que, por ter perdido a final, o prémio tenha ido para Rodri.

Os números absurdos de Messi e os recordes sem fim ajudam a explicar a carreira mas não chegam para ter noção da dimensão de um legado que perdurará séculos e séculos. Daqui a 500, 600, 700 anos, o nome do meia-leca que teve de tomar hormonas porque não crescia como os da sua idade estará lá, gravado na pedra, como um dos melhores, se não o melhor, futebolistas de todos os tempos. Messi foi uma anomalia perfeita no tempo em que os jogadores são máquinas pensadas ao milímetro, pesam à grama tudo o que comem e têm dados físicos controlados ao segundo.

«De que planeta vieste, pulguita cómisca? O futebol, quando jogado por Messi, converte-se noutra coisa. É arte, é peça de museu, é espetáculo puro. Gritem comigo: eu vi jogar Messi! Eu vi jogar Messi!», cantou, em 2015, Lluís Flaquer, na Cadena SER, segundos depois de testemunhar um golo milenar do 10 na final da Taça do Rei, quando fez tombar meia equipa do Athletic Bilbao. Nós vimos jogar Messi! E que bom que foi.

O planeta de onde aterrou há mais de 20 anos veio, agora, buscá-lo de volta. Messi soube sair como os grandes, em ombros, venerado por um país socioeconicamente fraturado e que, com ele, tanto pôde sonhar.

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