Era um jogo de amigos para matar saudades, cinco anos depois já ganham na elite
A Netflix que não sonhe com esta história!
Sabe aqueles planos feitos numa conversa de amigos e que nunca saem dos guardanapos amarrotados que no fim ficam em cima da mesa?
Esta história dá esperança a todos esses projetos adiados. Porque a intenção era ambiciosa, o plano arrojado, e não havia assim tanto tempo para o colocar em prática.
Mas resultou em pleno. Tanto que o esboço foi feito por aqueles miúdos de 21 anos no verão de 2021 e hoje o sucesso está à vista de todos.
Daquela partilha de ideias e ambições nasceu um clube de andebol, que meses depois estava a competir. Nos três últimos anos sagrou-se campeão da 3.ª divisão, depois da 2.ª divisão e, no ano passado, da divisão de Honra, alcançando a subida ao principal escalão do andebol nacional.
E se lhe parece que o argumento soa demasiado a filme, temos mais uma novidade: aquele grupo de amigos continua a ser a base da equipa que, cinco anos depois alcançou a primeira vitória da história do clube na Liga Betclic. À sétima jornada da época de estreia.
Razão mais do que suficiente para ir conhecer a história da Associação Desportiva dos Carvalhos, clube que nasceu da amizade de antigos atletas do Colégio dos Carvalhos e do amor ao andebol que os uniu em crianças e nunca os deixou separar.
Amigos que se tornaram clube
«A ideia inicial era fazer um reencontro e um jogo para recordar os bons velhos tempos. Alguns de nós tínhamos deixado de jogar e queríamos matar saudades. No final do treino ficámos a conversar e surgiu a questão: por que não nos juntamos para fazer uma coisa bonita e começamos um clube do zero?», relata João Machado, um dos quatro jogadores que se mantém desde o primeiro minuto de vida da ideia que viria a ser a AD Carvalhos.
Para poder competir enquanto séniores, uma vez que era impossível criar todos os escalões de formação em poucas semanas, foi preciso fazer um protocolo com um clube com formação. E era óbvia a opção pelo Colégio dos Carvalhos, que era o ponto que os unia a todos.
«Começámos pela última divisão e durante dois anos estivemos a assentar, com várias pessoas a entrar para o clube para criar estrutura. Na primeira temporada ficámos nos primeiros lugares, mas não conseguimos subir. No segundo, fomos à fase final e no ano seguinte, totalmente estruturados, vencemos o campeonato nacional da 3.ª divisão», relata Machado.
Desde então, a ascensão foi fulminante. Tricampeões em divisões distintas num percurso inédito na modalidade em Portugal. Um sucesso movido a talento, sim, mas sobretudo a amizade.
«No fundo, somos um grupo de amigos que se tornou um clube. O que nos move é gostarmos de estar juntos a fazer o desporto que adoramos», resume, não deixando margem para dúvidas quanto ao segredo de tantos êxitos.
«A nossa principal característica é o ambiente entre nós. E falo de todos, jogadores, treinadores e administração. Somos todos amigos. E só assim é que conseguimos estas três subidas», acredita o central que é também analista de investimentos.
«Esperei 20 anos por isto»
Apesar de fazer parte do projeto desde o primeiro treino oficial, Nuno Almeida é o único elemento da primeira equipa da AD Carvalhos que não passou pela formação do histórico Colégio que está na raiz do novo clube, e que foi embrião de nomes maiores do andebol português como os manos Martim e Kiko Costa, ou Diogo Rêma, além de Ricardo Costa, que iniciou ali o percurso de treinador.
«Eu não estive naquele primeiro convívio. E depois, todos exceto eu já tinham jogado no Colégio dos Carvalhos, enquanto a minha formação tinha sido no Académico do Porto e FC Porto. Uma das perguntas que fiz foi por que razão me chamaram. Mas rapidamente percebi que apesar de não ter passado por lá, a essência era a mesma. A ideia de jogo e mentalidade eram semelhantes», contextualiza.
Nuno é um dos exemplos de jogadores que tinham deixado o andebol. Depois de fazer os quatro últimos anos de formação no FC Porto, em 2019 terminou a ligação com os dragões e seguiram-se dois anos sem jogar até que surgiu o convite para o tal primeiro treino da AD Carvalhos, feito pelo amigo João Machado com quem iniciara o percurso na modalidade no Académico.
Em boa hora o fez. Além do sucesso desportivo, sente-se parte importante do clube… como todos os que o integram, descreve o advogado de 26 anos. «De certa forma, o clube é de todos nós e isso é o que o torna especial», defende, ainda mal refeito do triunfo histórico frente ao Avanca, no sábado passado.
«Vínhamos de seis derrotas seguidas e a verdade é que desde que o clube nasceu, não estamos habituados a não estar a ganhar. Mas agora, depois de vinte anos de dedicação ao andebol, posso dizer que já ganhei um jogo na primeira divisão», orgulha-se.
Um dos principais responsáveis pelo feito, aponta Nuno Almeida é Pedro Leça, um dos fundadores, primeiro presidente e ainda capitão da AD Carvalhos.
«Eu olho para o clube e vejo a cara dele. É a resina do projeto, aquele que liga tudo. No início, como jogador, levava um bocado a equipa às costas. E um dia disse-nos que o objetivo dele era não ter espaço sequer para ser convocado, porque seria bom sinal, e podia passar apenas a gerir o clube. E diria que o objetivo está a ser conseguido, ele é o nosso capitão, mas já não fez todos os jogos esta época», refere.
«Outros clubes não acreditaram em nós»
Apesar de já não ser o presidente do clube, Leça mantém-se como membro da direção, é o responsável financeiro e assume um papel importante em termos operacionais. Isto, claro, além do contributo como central da equipa.
O contabilista, também de 26 anos, foi um dos principais impulsionadores da criação do clube e é um dos «três ou quatro» que já tinham tido alguma experiência de 1.ª divisão, no caso ao serviço do FC Gaia, que era então treinada por Ricardo Costa.
Agora, apesar do arranque complicado entre os maiores do andebol nacional, Pedro Leça acredita que o primeiro triunfo vai dar o embalo que faltava para a equipa se afirmar.
«Não tem sido fácil porque estamos a ter um período de adaptação. As equipas são muito mais fortes e competitivas. Mas acreditamos plenamente nas nossas valências», refere, explicando aquilo que o faz ter tanta certeza do que diz.
«Aqui não há segredos, o único trunfo é o nosso trabalho. Nenhum jogador é profissional de andebol, todos têm os seus empregos, mas o treino é encarado com muita seriedade», assegura.
Afinal, o plantel, com média de idades ligeiramente superior a 24 anos, é composto por jovens que tinham o sonho do andebol e que o estão a conseguir viver ao lado de amigos, depois de outros não lhes terem reconhecido valor para tal.
À semelhança do que aconteceu em todos os anos anteriores, Pedro Leça revela que o orçamento da AD Carvalhos é dos mais baixos do campeonato, mas tal como antes, isso nunca foi visto como um problema.
«Temos jogadores que mereciam estar a jogar em clubes superiores, mas não estão porque esses clubes ainda não acreditaram neles. No início, fomos buscar jogadores que tinham sido iludidos e não tinham tido uma verdadeira oportunidade nesta divisão. Alguns estavam meio perdidos, mas conseguimos que eles acreditassem e agora estão por mérito próprio na 1.ª divisão».
«Ninguém aqui joga pelo que recebe. O valor que cada atleta recebe é desajustado ao que merecem, e eu já lhes disse isso, mas esta é a realidade do clube. E não é isso que nos define. Por isso é que a dedicação é total de todos os que o representam», reforça.
De resto, o orçamento nunca será desculpa para nada. E a ambição destes amigos que já fizeram história ainda não se esgotou.
«A visão era muito clara desde o início: o sonho era subir até à 1.ª divisão. Só não antecipámos subir tão rápido, excedemos as expectativas. «O principal foco continua a ser construir um projeto sustentável, não queremos mudar a identidade por estar na 1.ª divisão, mas o objetivo deste ano é manter neste escalão. Porque acreditamos mesmo que é aqui que pertencemos», remata.
E alguém se atreve a duvidar do poder destas amizades?
A Netflix não escreveria melhor argumento.
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