Agostinho Bento ofereceu um quadro a Carlos Carvalhal, após o jogo entre o Paredes e o Famalicão — Foto: Paredes
Agostinho Bento ofereceu um quadro a Carlos Carvalhal, após o jogo entre o Paredes e o Famalicão — Foto: Paredes

E esta de um tomba-gigantes da Taça? «Era o treinador a quem gostaria menos de ganhar»

Agostinho Bento fala da «alegria imensa» pelo 'seu' Paredes ter eliminado o Famalicão, ainda que diante de «um grande amigo». O pós-enfarte com Carvalhal à sua frente. Gratidão a quem chama de «mentor»

O dia 18 de outubro de 2026 ficará eternamente na história do União Sport Clube Paredes. É certo que o clube já viveu outros registos gloriosos, nomeadamente na Taça de Portugal — como por exemplo o triunfo (2-0) sobre o Vitória de Setúbal, na época 1978/79, quando os sadinos viviam um período de franco mediatismo, ou a vitória (2-1) diante do Moreirense, em 2023/24, e tudo isto sem esquecer a chegada aos quartos de final, caíndo aos pés do Benfica (0-3), na temporada 1984/85 —, mas a referida data proporcionou ao emblema nortenho, atualmente a competir na Liga 3, um registo superlativo, com a eliminação do primodivisionário Famalicão (1-0).

A festa foi rija nas Laranjeiras, naturalmente, e não houve quem ficasse indiferente ao feito alcançado pelo Paredes. Por entre tanta (e justa) exposição mediática, A BOLA detalha agora um dado que tem tanto de curioso como de… humano: Agostinho Bento, o treinador, viveu uma «alegria imensa», mas também diz, de coração aberto, que lhe custou... «vencer um amigo».

«Claro que fiquei muito feliz por ter ganho, mas o treinador a quem eu gostaria menos de ganhar era o Carvalhal. Somos muito amigos, tal como, de resto, as nossas famílias», começou por dizer Agostinho Bento, em declarações exclusivas ao nosso jornal.

Agostinho Bento tem feito um excelente trabalho no comando técnico do Paredes — Foto: Hugo Delgado/LUSA

Na conversa que mantivemos com o técnico do Paredes, foi também aflorado um episódio que se passou há cerca de 10 anos e que teve que ver com questões de saúde. Entretanto e felizmente ultrapassadas, mas com uma memória que jamais se apagará: «Tive um enfarte em 2016, quando subi com o Fafe à Liga 2, e estive vários dias nos cuidados intensivos. Na altura, as visitas eram, claro está, muito restritas, devido ao meu estado de saúde, e lembro-me perfeitamente que no dia em que acordei as duas primeiras pessoas foram a minha esposa e o Carlos Carvalhal. Isso diz bem da ligação que sempre tivemos. Nunca me esquecerei disso, obviamente.»

MENTOR E COLEGA DE QUARTO

Agostinho Bento nasceu a 3 de fevereiro de 1970, pelo que tem atualmente 56 anos de idade. Carlos Carvalhal veio ao mundo a 4 de dezembro de 1965, e é, como tal, ligeiramente mais velho: conta 60 voltas ao sol. Mas a ligação entre ambos vem dos tempos de… jogadores. E foi em Trás-os-Montes que o destino os juntou. Bento tinha feito carreira no Fafe e rumou ao Chaves na época 1993/94, Carvalhal jogara no SC Braga, no FC Porto, no Beira-Mar e no Tirsense e regressara aos flavienses, que já tinha representado em 1985/86. Juntos nos transmontanos começaram, então, a desenvolver uma relação que viria a tornar-se profunda. E que teve, inclusivamente, contornos de… mentoria. Pelo que o triunfo de ontem, ainda que muito saboroso, não deixou de ter um ligeiro travo… amargo: foi frente a um antigo colega de quarto.

Carvalhal, nos tempos em que jogava no Chaves, aqui numa disputa de bola com Caniggia, argentino que representava o Benfica — Foto: A BOLA

«Jogámos juntos no Chaves, durante três anos, e as viagens eram longas. Íamos muitas vezes na véspera, para estágio, e éramos sempre colegas de quarto. Estávamos quase sempre juntos. Depois disso mantivemos sempre contacto. Claro que as vidas e as carreiras acabaram por se separar, ele esteve muitos anos no estrangeiro, mas continuámos sempre a comunicar. Andei com os filhos dele ao colo, somos mesmo muito próximos. Ele foi o meu mentor no Chaves, era mais experiente e acolheu-me muito bem. Ele era central e eu médio-defensivo, mas éramos polivalentes e jogámos várias vezes em dupla. Foi uma vitória altamente saborosa, só com o lamento de ter sido contra o Carlos Carvalhal», relatou, com emoções à flor da pele.

Não foi, de resto, por mero acaso que Agostinho Bento presentou, no final do jogo, o amigo Carlos Carvalhal com um quadro em que aparece a fotografia de ambos e a Taça de Portugal por trás, numa clara alusão ao duelo que ambos disputaram na noite de ontem. Porque independentemente do resultado dessa partida, foi apenas mais um jogo de futebol. E o futebol, como sabemos, é só a coisa mais importante das menos importantes. O jogo da vida, esse, é eterno. E se e quando vivido lado a lado, entre amigos, tem ainda mais sabor. E todos são vencedores.

DE OLHO (E SONHO) NA PROVA RAINHA

A FPF ainda não divulgou a data para o sorteio da próxima eliminatória da Taça de Portugal, mas em Paredes há uma certeza: se der para manter o sonho de continuar na prova rainha, tanto melhor. O Olhanense é a única equipa dos distritais ainda em competição e não é de estranhar que seja um adversário desejado por muitos.

Agostinho Bento não esconde que era mais simpático defrontar os algarvios do que qualquer outro oponente teoricamente mais forte, mas a frontalidade que demonstra para assumir essa ideia não é inferior ao respeito que denota pelo histórico emblema de Olhão. «Sendo o mais sincero possível e não me querendo julgar superior a ninguém, não desvalorizando qualquer adversário, preferia jogar com o Olhanense do que, por exemplo, com FC Porto, Sporting ou Benfica. Não quero ser mal interpretado, longe de mim estar a dizer algo que deslustre o Olhanense e as suas gentes. Até porque, também admito com toda a educação, tenho o mesmo respeito pelo Olhanense que tenho por qualquer outro adversário. Mas também não posso mentir e dizer outra coisa. Se puder perder daqui a duas ou três eliminatórias não vou querer perder já na próxima», assumiu.

Facto indesmentível é que o Paredes está (muito) bem e recomenda-se. É que além do brilharete na prova rainha, não pode ser, de todo, esquecido o percurso que o emblema nortenho tem feito no seu campeonato: 1.º lugar na tabela classificativa da Série A da Liga 3, com quatro vitórias, um empate e uma derrota nos seis encontros já disputados. O sonho da (desejada) subida à Liga 2 está bem vivo…

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