Futebol tornou Cristiano Ronaldo uma referência mundial — Foto: MIGUEL NUNES
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Cristiano Ronaldo: o luto da identidade desportiva

Este texto não pretende analisar a situação de Cristiano Ronaldo, mas sim utilizar aquilo a que todos assistimos para refletir sobre uma das fases mais complexas da vida de qualquer atleta, o fim de carreira e reconstruir a resposta à pergunta 'quem sou eu?'. Desportiva_MENTE é o espaço de opinião de Liliana Pitacho, Psicóloga e docente no Instituto Politécnico de Setúbal

Reconhecer que já não se tem as capacidades que nos colocaram no topo do mundo é difícil. Reconhecer e compreender que o tempo está a terminar pode ser doloroso. Não porque não haja nada depois disso, não porque não se possa continuar no topo em outras áreas, mas porque é necessário fazer o luto da única identidade que se teve até então.

Visto de fora, parece simples: reconhecer que o tempo passou, aceitar um papel diferente e escolher o momento de sair. Mas como se abandona aquilo que nos tornou quem somos? Como se deixa uma profissão quando essa profissão ocupa quase toda a resposta à pergunta 'quem sou eu?'

A teoria da identidade, desenvolvida por Sheldon Stryker e aprofundada por outros investigadores, ajuda a compreender esta dificuldade. Os papéis que desempenhamos integram a forma como nos definimos. Quando um deles se torna dominante, a sua perda pode afetar o sentido global de quem somos. No desporto, esta perspetiva permite compreender por que razão deixar de competir pode exigir uma reconstrução pessoal que ultrapassa largamente uma mudança de profissão.

Um atleta pode ter família, interesses e projetos fora do desporto e, ainda assim, organizar a sua vida em torno da competição. Os horários, o corpo, as relações, os objetivos e o reconhecimento convergem para esse papel. Durante décadas, é ali que encontra pertença, competência e propósito. Quando esse lugar se altera, pode sentir que perde uma parte da estrutura que o sustentava, existindo espaço para um vazio que será sempre difícil de explicar.

É neste sentido que se fala de luto da identidade desportiva. Um luto pela versão de si que o atleta conheceu, pelo corpo em que confiava, pelo protagonismo que ocupava e pelos sonhos que sempre foram os seus. Esse processo pode começar enquanto ainda compete, à medida que confronta mudanças nas suas capacidades, oportunidades ou funções. Não acontece da mesma forma em todos os atletas, nem segue necessariamente etapas fixas.

Cristiano Ronaldo permite pensar nesta questão com particular intensidade. O futebol tornou-o uma referência mundial e ocupa um lugar central na história que construiu e na forma como é reconhecido. Aceitar que o seu papel pode mudar significa confrontar uma realidade que ultrapassa os minutos de jogo. Como continuar a reconhecer-se quando o lugar que sempre ocupou deixa de estar garantido?

Ronaldo construiu também um império de investimentos. Tem negócios, património e possibilidades de futuro que poucos atletas conseguem reunir. Contudo, possuir alternativas económicas não equivale a encontrar uma identidade com o mesmo significado. Ser proprietário de empresas não reproduz necessariamente a experiência de entrar em campo, decidir um jogo ou sentir que o próprio corpo continua a responder ao desafio. Não podemos saber quanto esses projetos o preenchem, mas a existência desse império não permite concluir que o espaço deixado pelo futebol esteja resolvido. Uma carreira pode estar financeiramente assegurada e a sua transição continuar emocionalmente por preparar.

A teoria da discrepância do self, proposta por E. Tory Higgins, acrescenta uma segunda chave de leitura. Distingue a imagem que temos de quem somos, a imagem de quem gostaríamos de ser e a imagem de quem sentimos que deveríamos ser. A distância entre estas representações pode produzir sofrimento: desilusão e tristeza quando nos afastamos do ideal; tensão e inquietação quando sentimos que não correspondemos às obrigações e expectativas que interiorizámos.

No desporto, esta perspetiva permite pensar na distância entre o atleta que uma pessoa reconhece em si no presente e aquele que continua a desejar ser. Acrescem as expectativas que sente ter de cumprir: continuar decisivo, liderar, ganhar e corresponder à imagem que construiu. Quando essas referências deixam de coincidir, aceitar a mudança pode tornar-se emocionalmente difícil. Esta é uma possibilidade de interpretação, não uma conclusão sobre o que Ronaldo sente.

Há ainda um paradoxo. A persistência que ajuda um atleta a chegar ao topo pode dificultar a aceitação de uma nova realidade. Durante anos, aprende a responder às limitações com mais trabalho, a contrariar dúvidas e a provar que consegue. Perante a aproximação do fim, pode continuar a procurar resolver através do esforço uma mudança que também exige reorganizar expectativas. Como se pede a alguém que aceite um limite depois de uma vida inteira a ser premiado por o ultrapassar?

Quando esta transição encontra uma identidade demasiado exclusiva e poucos recursos para lidar com a mudança, os riscos merecem atenção. O desaparecimento das rotinas, dos objetivos e do sentimento de pertença pode alimentar vazio, isolamento e perda de propósito, contribuindo para sofrimento psicológico e dificuldades de adaptação. Não é um destino inevitável, mas também não deve ser desvalorizado por existir dinheiro, reconhecimento ou uma carreira extraordinária.

O sucesso acumulado não substitui a preparação psicológica para viver depois dele, muitas vezes pelo contrário. É necessário que a disciplina, a capacidade de aprender, a liderança e a persistência encontrem novas formas de expressão. Mas essa continuidade precisa de ser descoberta e vivida pelo próprio atleta.

Este texto não pretende analisar a situação de Cristiano Ronaldo, mas sim utilizar aquilo a que todos assistimos para refletir sobre uma das fases mais complexas da vida de qualquer atleta, o fim de carreira e reconstruir a resposta à pergunta 'quem sou eu?'

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