Cristiano Ronaldo (Real Madrid) - 2016 Foto - IMAGO
Cristiano Ronaldo (Real Madrid) - 2016 (a Bola de Ouro fica, de novo, em exclusivo com a France Football) Foto - IMAGO - Foto: IMAGO
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Bola de Ouro: antigo diretor recorda quando Ronaldo o fez passar por mentiroso

Pascal Ferré recorda luta com Messi e alguns dos telefonemas mais marcantes que fez

Pascal Ferré integrou a redação da revista France Football em 1986 e assumiu a liderança como diretor a partir de 1996 até 2023, e por consequência da atribuição da Bola de Ouro. Está, por isso, por dentro das polémicas da cerimónia, desde o taco a taco entre Cristiano Ronaldo e Messi.

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Ao falar da hegemonia de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo entre 2008 e 2017, o antigo diretor explicou, em entrevista ao jornal Marca, a razão do domínio partilhado: «Monopolizaram o prémio porque eram os melhores do mundo. Eram dois extraterrestres.»

O antigo responsável comentou ainda o desentendimento público com Cristiano Ronaldo, motivado por declarações suas à imprensa. «Dei uma entrevista ao The New York Times onde disse que o sonho de Cristiano era ter mais Bolas de Ouro do que Messi. Posso não ter sido muito feliz, mas não era segredo que ele é supercompetitivo. Ele respondeu-me nas redes sociais e acabei por passar por mentiroso perante milhões de seguidores, mas não foi nada de grave», relatou.

Quanto à influência exercida em torno dos prémios, Ferré sublinhou a postura dos merengues. «É verdade que no mundo de Cristiano e sobretudo do Real Madrid sabiam o que tinham de fazer, dentro das regras do jogo. São instituições que fazem sentir o seu peso no futebol e neste troféu, porque o Real Madrid agarrou-se à Bola de Ouro desde o início, com Di Stéfano, depois Kopa, ao passo que com o Barcelona foi preciso esperar até 1960 por Luis Suárez, pelo que existe uma relação especial com os clubes espanhóis», referiu.

Como diretor, Ferré era responsável por ligar aos vencedores — então era feita também uma entrevista para sair a par do prémio, agora só se sabe na noite da cerimónia — e destacou dois contactos telefónicos marcantes. O primeiro ocorreu em 2018 com Luka Modric: «Liguei ao Luka Modric, mas ele não atendeu. Minutos depois devolveu a chamada e dei-lhe a notícia. Fez-se silêncio e depois começou a chorar, dizendo que era formidável. Quando o visitei para a entrevista, confessou-me que não tinha atendido à primeira porque estava tão emocionado que não conseguia falar.»

Modric com a Bola de Ouro que conquistou (IMAGO)

Por outro lado, a reação de Karim Benzema foi curiosa: «Esteve muito frio, como se não se importasse. Dias mais tarde pediu-me desculpa e explicou-me: estava na marquesa a receber uma massagem e queria gritar, mas não podia porque estava perto dos companheiros e tinha de guardar segredo.»

Ferré falou sobre o episódio recente em que o Real Madrid e Vinícius Júnior faltaram à gala, por saberem que não iam ganhar, e contextualizou a nova política de sigilo: «Foi a primeira vez em que o vencedor só seria conhecido na cerimónia. Pelo que sei, esse segredo não foi mantido, o Real Madrid descobriu e ficou bastante chateado, mas é difícil falar sobre o assunto porque já lá não estava. A ideia dos organizadores garante emoção e suspense para a cerimónia, embora não seja prática para clubes e jogadores. Ainda assim, fortalece a magia da Bola de Ouro.»

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A corrida pela Bola de Ouro continua a gerar debate, com as atenções centradas nas campanhas em torno de nomes como Kylian Mbappé e Lamine Yamal. No entanto, a ausência de títulos coletivos surge como o principal entrave às aspirações do internacional francês na luta pelo galardão que será entregue a 26 de outubro.

«Sinceramente, penso que a campanha de Kylian é gigantesca relativamente à de Lamine. Para mim, uma Bola de Ouro não se reivindica, merece-se. E, por ter falado com alguns jurados com quem ainda mantenho contacto, estas coisas não têm qualquer influência. São pessoas totalmente independentes, com experiência e não precisam de saber por que razão votar num ou noutro. Sinceramente, creio que a campanha de Kylian não serviu de muito. Mas veremos a 26 de outubro, na noite dos resultados», vincou.

No entanto, Ferré duvida que penda para o lado do jogador do Real Madrid. «É um grande jogador, obviamente, mas não tenho a certeza de que o ouro vá para alguém que não conquistou nenhum troféu coletivo, tanto no seu país como no Campeonato do Mundo. O futebol continua a ser um desporto de expressão coletiva e o facto de não se chegar a ganhar significa que não fomos suficientemente fortes. É a minha reflexão», concluiu Ferré, que está a lancar o livro La face cachée du Ballon d'or (A face oculta da Bola de Ouro).

Tempo ainda para recordar aquela vez em que... um empresário lhe deixou um envelope: «Sim, é verdade. Um agente quis encontrar-se comigo. O jogador que representava estava nomeado e depois de me apresentar os méritos dele, pediu-me se podia «vender» a candidatura dele junto do júri. Eu, logicamente, disse-lhe que não. Depois, tive de me levantar da mesa para atender uma chamada e, quando voltei, ele já não estava lá, mas havia um envelope. Peguei nele e deixei-o na receção. Não sei o que estava lá dentro. A verdade é que já me cruzei novamente algumas vezes com esse agente e ele nunca me falou do envelope, nem me disse o que estava lá dentro....»

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