As «balas no ataque», «novela» CR7 e o relvado dos Barreiros: tudo o que disse Farioli
Após quase três semanas de paragem, o FC Porto defronta no sábado o Marítimo, nos Barreiros, e Francesco Farioli alterou para os perigos que jogar no Funchal encerra. Em conferência de Imprensa, o técnico campeão nacional abordou a situação de Samu, do reforço Smalling, dos jovens Mec e Souza e não escapou ao tema do momento: o caso entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo na Seleção.
— É sempre difícil jogar nos Barreiros e o relvado tem gerado alguma apreensão. O que espera deste jogo com o Marítimo?
— É uma equipa que historicamente gerou sempre bastantes problemas ao FC Porto. As estatísticas dizem que este é o quarto campo onde é mais difícil o nosso clube conseguir resultados. É uma estatística que tem de estar na nossa cabeça. É uma equipa que tem estado bem desde que voltou, graças ao trabalho do treinador e ao que são capazes de colocar em campo. Uma equipa que nunca desiste. Conseguiram recuperar três resultados nos últimos minutos. Por isso, vai ser um jogo desafiante por várias coisas diferentes. O relvado tem sido um tema que tem sido abordado várias vezes. Esperemos que, durante esta pausa internacional, tenham feito tudo o que podiam para apresentar o relvado da melhor forma possível, porque também sei que, do lado deles, adorariam ter um relvado em condições para jogar a época inteira. Por isso, desejamos e acreditamos que amanhã o campo estará nas condições certas. Se não estiver, sem desculpas: temos de encontrar ferramentas diferentes para ultrapassar isso e é o que vamos tentar fazer.
— Que balanço faz desta longa paragem competitiva?
— Terminámos a primeira fase da época com sensações muito boas. E esta pausa internacional, de certa forma, parou esta dinâmica em termos de resultados, mas não em termos do desejo de trabalhar e de melhorar. O jogo de preparação com o Deportivo ajudou-nos a manter um certo ritmo e também a tentar coisas diferentes para evoluir coletivamente, bem como para tentar estar no topo em muitas pequenas coisas individuais. Os jogadores trabalharam muito bem. Desde ontem que a equipa está totalmente de volta, à exceção do Santi [Gimenez], que chegará para a sessão de hoje. E é um desafio, porque normalmente eram cerca de duas semanas, agora estivemos mais de 20 dias com os jogadores espalhados pelo mundo. E agora, em dois dias, têm de esquecer um pouco as exigências das seleções nacionais e reconectarem-se com as nossas dinâmicas, os nossos princípios. Espero que amanhã sejam capazes de replicar a sessão de ontem, porque foi para mim uma das nossas melhores sessões de sempre. Falo sempre muito bem de como os jogadores estão a trabalhar e ontem tive de parar a sessão, mas honestamente adoraria ter continuado, porque eles fizeram um treino fantástico. Por isso, nesta parte, acho que há a vontade e mentalidade certas, assim como o desejo de abordar este novo bloco com a atitude certa para enfrentar um bloco oito jogos oficiais, nove com o jogo de preparação que vamos colocar pelo meio para dar a todos os jogadores o tempo de jogo adequado. São três competições diferentes, por isso há muito para jogar, começando, claro, pelo jogo de amanhã, que na minha cabeça é o mais importante.
— O principal desafio para este jogo é manter a identidade após a longa paragem?
— Há um desafio adicional, que é o facto de estarmos aqui com muito poucos jogadores e muitos deles estarem espalhados pelo mundo. Tivemos o dia de ontem, temos o de hoje e o de amanhã, através de algumas reuniões e do aquecimento para realmente ter toda a gente de volta. Nesta parte, o que me deu muita fé e confiança é o facto de termos um grupo de jogadores muito maduro, jogadores comprometidos. Quando nos encontrámos com todos os jogadores na gala, viu-se e sentiu-se o prazer dos jogadores por estarem de regresso, o quão felizes estavam por ver os companheiros para trabalharem juntos. E a sessão de ontem foi de certa forma como um grupo de amigos que reencontrou o caminho e o desejo de dizer: «Vamos para o campo, vamos suar juntos, vamos empurrar juntos e, a partir daí, seguir em frente.» Por isso, desejo e acredito mesmo que a energia que vi ontem estará presente hoje e, especialmente, ainda mais no jogo de amanhã. Mas, claro, o desafio está lá. Vai ser um desafio importante. Na época passada, após as pausas internacionais, tivemos alguns jogos difíceis onde passámos por mais dificuldades do que o habitual. Por isso, há alguns pontos claros dos quais temos de estar conscientes. Mas a essência do grupo está lá e, nesse aspeto, não haverá qualquer tipo de problema. Claro que o desafio que vamos ter é grande, porque a equipa que vamos defrontar é muito bem organizada, uma equipa que nunca desiste. Portanto, é um jogo que precisa de ser jogado mesmo bola a bola, em cada minuto, uma abordagem forte. E, na última parte do jogo, seja qual for o resultado, estar realmente alerta, porque não estará terminado até ao fim.
— O Samu está de volta. Como vai gerir os três pontas de lança?
— É um bom problema para um treinador ter três avançados prontos para jogar. Claro que, neste momento, aquele que temos à disposição é o jogador mais fiável [André Silva], pelo facto de ter feito a pré-época completa, estar num momento realmente bom física e mentalmente. E depois temos o Samu, tão enérgico, com o desejo de voltar. Ele vem de uma lesão muito, muito longa. Trabalhou imenso para recuperar e para antecipar também certas etapas. Foi fantástico ter a oportunidade de usá-lo, mesmo que por apenas alguns minutos, no clássico e jogar 45 minutos no outro dia, contra o Deportivo. Ainda estamos numa fase muito inicial da recuperação dele. É um momento em que o entusiasmo por tê-lo de volta e de o ver a treinar não deve superar a etapa da recuperação. Por isso, tentaremos usá-lo o máximo possível, mas também ter em mente as limitações em termos do tipo de sobrecarga que lhe podemos dar. E temos o Santi que, como sabem, chegou muito tarde depois de um verão complicado para ele. Agora esteve com a seleção dele, jogou alguns minutos, provavelmente mais minutos do que aqueles que teríamos conseguido dar-lhe aqui, por isso também diria que foi bastante positivo o facto de ele ter ido lá jogar. Claro que perdeu algumas sessões de treino, mas agora terá tempo para estar de volta, trabalhar devidamente e ajudar-nos assim que precisarmos dele, a começar por amanhã. É um jogador importante, que precisa de reencontrar o nível certo de confiança. Em termos de qualidade, acho que não há nada a descobrir, mas, especialmente para o avançado, estar no momento certo de confiança, em paz com tudo o que se passa em redor, é realmente importante. E, claro, sentimos a pressão da comunicação social, especialmente da América do Sul, o quanto eles estão a falar, e agora acredito que é um momento em que é importante colocá-lo na bolha adequada, ficar aqui com os companheiros de equipa, com a equipa técnica, trabalhar com o apoio de todos os adeptos, porque, repito, a época vai ser longa. Neste momento, parece que no ataque temos balas a mais, mas, com a experiência da época passada, acho que temos a quantidade certa e é isto que precisamos de manter para ter todos os jogadores prontos para jogar e para eu tomar a melhor decisão possível.
— Que jogadores do boletim clínico estão prontos para amanhã?
— Esta pausa foi realmente benéfica também desse ponto de vista, para recuperar a maioria dos jogadores. Ainda temos um par de jogadores que estão um pouco no limite, pelo que precisamos de ver na sessão de hoje o que serão capazes de fazer, como se vão sentir. E, como sabem, normalmente temos a conferência de imprensa depois do treino. Hoje temos de esperar pela sessão e depois, quando virem a convocatória para o jogo, terão os jogadores que vão estar lá. Mas eu diria que foi um processo muito positivo, mais uma vez graças ao trabalho do departamento médico e de performance. Após muito tempo, estamos quase com a equipa completa e pronta para passar por este período desafiante.
— Que comentário tece ao resultado negativo do relatório e contas e à renovação de William Gomes?
— Eu tenho a minha licenciatura em Filosofia, porque em Matemática, infelizmente, não era assim tão bom. O clube está definitivamente num lugar melhor do que estava quando o presidente e a direção assumiram a liderança. Estamos num processo em que muitas coisas precisam de ser reajustadas. No verão passado foi feito um investimento bastante forte para aumentar a qualidade da equipa com muitos jogadores jovens que estão a criar e a gerar um valor enorme para o clube. Mencionou a renovação do William, que é um destes jogadores, um rapaz que nos seis meses que fez logo antes de eu chegar levou o seu tempo, naturalmente, para se ajustar, compreender. Na época passada, connosco, foi um jogador onde se consegue reconhecer e entender a qualidade que tem. Ajudou-nos em muitos jogos, mas faltava-lhe um pouco de consistência. E agora estamos a falar de um jogador diferente, um jogador que manteve esta qualidade, que se tornou muito mais maduro, não apenas na forma de competir, mas na forma de se preparar para competir. Um jogador que está constantemente ligado a todas as dinâmicas, que se está a tornar cada dia mais exigente consigo próprio, na forma como se preocupa com a nutrição, no processo para se preparar para competir. Estamos realmente felizes. Claro que não é algo que construímos sozinhos, mas a abertura dele para ouvir os conselhos de todas as pessoas que lhe são próximas, ajudou-o a acelerar a evolução. É uma renovação que era mesmo necessária. Os novos números na cláusula [100 milhões de euros] deixam-me um pouco mais confortável. Claro que é um número grande e desejo mesmo que, se alguém vier para levá-lo, que pague até ao último euro para levá-lo. Desejo que esse dia não chegue, para que pelo menos possamos ter o nosso jogador por mais alguns meses, porque ele desempenha definitivamente um papel fundamental na equipa. Não é o único, mas é um desses jogadores fundamentais.
— Como explica a contratação de Smalling?
— Foi uma discussão que tivemos depois da lesão do Nehuén. Foi significativa, ainda que ele tenha conseguido recuperar mais rápido do que era esperado. O Nehuén pode estar no banco amanhã, depende da resposta dele hoje. Sentimos que era importante, de certa forma, ter um jogador com certas caraterísticas, ajudar a equipa a manter-se forte numa época longa. A chegada do Chris é para dar mais profundidade ao plantel e mais qualidade. Mais caraterísticas parecidas com as do Bednarek. O nosso pacote de centrais fica mais completo, estamos a reforçar a parte central. Voltou em boa forma, depois de um treino jogou 60 minutos contra o Deportivo, como aconteceu com o Thiago [Silva]. Sinto que vai ser importante para nós.
— Com a chegada de Smalling e a recuperação de Nehuén Pérez, em que ponto fica Prpic?
— Se colocar todos os nomes no mapa, há um momento em que se pode ver ou sentir, diria eu, trânsito em diferentes posições. O Nehuén está a voltar de um ano parado, por isso é normal que precise de um pouco de tempo e condições para voltar novamente. Ele fez toda a pré-época sem problema nenhum e, depois do jogo contra o Manchester City, teve este problema que, graças a Deus, está praticamente recuperado, mas a época é longa. E o Nehuén é um jogador bastante híbrido, que pode jogar a central ou a lateral-direito, onde temos o Alberto e o Martim que, durante a época, estão expostos a muita intensidade. Olhando para o mapa, sinto-me bastante seguro em relação ao nível de profundidade da equipa. Claro que, se todos estiverem bem, temos de gerir um pouco, mas na realidade não vejo isso como um problema. Acredito que isto ajudará novamente a elevar o nível das sessões de treino, porque tendo mais um ou dois jogadores do que tínhamos na época passada, não é apenas para se desafiarem a jogar ou a entrar no jogo, mas é também um desafio para estar totalmente no treino. Por isso, acho que é algo que pode aumentar o nível de competitividade, o nível de exigência, e acredito que todos os jogadores estão prontos para assumir isso da melhor forma possível.
— Que comentário faz ao caso que envolveu Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional?
— A novela que tem estado em todo o lado... Como se pode imaginar, mesmo quando não se quer ver, estava em todo o lado, era impossível não ver. É muito difícil, de longe, ter algum tipo de posição. Estamos num mundo em que todos gostam de julgar e não é algo que vou fazer, sobretudo porque não tenho informação suficiente, não é o meu trabalho e estamos a falar de duas lendas do futebol português. De um lado, um dos principais jogadores da história do futebol e o outro é um treinador que admiro, enfrentei-o quando estava na Turquia e estudei-o de perto. Admiro a forma como ele trabalha, tira sempre o melhor das equipas por onde passa e acho que fará o mesmo na Seleção Nacional.
— Quão importante foi esta paragem para o Gabriel Mec e o Souza em específico?
— Ontem tivemos aqui alguns membros da CBF que vieram falar sobre a nossa colónia brasileira que temos aqui no Olival, por isso foi um momento também para partilhar muita informação, perspetivas sobre eles. Sobre o Gabriel, é um jogador super talentoso, muito habilidoso. Foi a nossa maior movimentação neste mercado porque foi uma oportunidade única e o clube sentiu que era o momento certo para dar este passo. Ele vai adicionar com certeza qualidade e alternativas, de acordo com o tipo de jogo e, especialmente, de acordo com a sua capacidade de se adaptar às nossas exigências. E acredito que o jogo da Corunha já nos deu algumas informações interessantes sobre as qualidades técnicas dele. Tudo já era bastante claro pelos vídeos e também pelos relatórios que recebi e pelos jogos que vi, mas o que me surpreendeu foi a personalidade dele, o caráter extrovertido, muito aberto a todos, fácil de criar relações. Deixe-me dizer que o papel do Pepê, especialmente, a agir como um pai, e do William como um irmão mais velho, ajudaram-no a entrar nas dinâmicas do grupo. E o que vi, e o que deixou toda a gente bastante impressionada, foi a ética de trabalho que ele mostrou no jogo da Corunha com duas corridas de recuperação de 50 ou 60 metros que, como sabem, para nós são uma exigência inegociável. E o facto de, após apenas algumas semanas, já estar neste nível de compreensão do lugar onde está, deu-me a sensação de que ele terá um papel a desempenhar na equipa, mais cedo ou mais tarde. Sobre o Souza, é um jogador que vem de um grande clube da Premier League, com um enorme potencial, tecnicamente dotado e com muito boa leitura de jogo. A prioridade com ele foi tentar colocá-lo nas condições certas para jogar no nível de exigência que estamos a pedir aos nossos laterais, que estão expostos a um grande desgaste físico, para cima e para baixo durante 90 minutos, espaços curtos, espaços maiores... E é isto que tentámos fazer e fizemos. Está a ficar cada dia mais perto do nível exigido. O Souza também será um jogador que terá uma contribuição importante na nossa época.