Ana Cabecinha denuncia perda de patrocínios na gravidez e apela a proteção legal
A antiga marchadora Ana Cabecinha revelou ter sido abandonada por marcas patrocinadoras durante as suas gravidezes, lamentando o cenário atual em Portugal, onde as mulheres continuam a ser forçadas a escolher entre o percurso desportivo e a maternidade. Sensibilizada com o caso de Cátia Azevedo no Sporting após ser mãe, a atleta olímpica partilhou a sua própria experiência.
A cinco vezes internacional olímpica e três vezes diplomada recordou que o afastamento dos patrocinadores ocorreu por duas ocasiões. A primeira deu-se em 2021, numa gestação que terminou na perda do bebé ao fim de três meses.
«Assim que soube que estava grávida, comuniquei, e claro que houve patrocinadores que disseram que, sabendo desta situação, não me iriam apoiar, porque eu iria estar parada e não iria dar visibilidade às marcas. E afastaram-se», relatou a ex-atleta em declarações à agência Lusa.
Após a perda gestacional, as marcas tentaram reatar a ligação, tendo Cabecinha aceitado por motivos de subsistência na modalidade, apesar da discordância do marido e do treinador.
O episódio repetiu-se em 2024. Após anunciar tardiamente a nova gestação, voltou a ver os contratos retirados. No entanto, o cenário mudou quando foi designada porta-estandarte de Portugal na Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024.
«Mandam-me um e-mail a dizer que teriam todo o gosto em que eu continuasse nos Jogos com a marca. E eu, por acaso, nem disse que sim, nem que não. Eles mandaram o material, mas eu não fiz a prova com ele. Nesse ano em que estava grávida, em que treinei o ano inteiro para poder estar nos Jogos, eles abandonaram-me», sublinhou.
Em sentido inverso, a antiga marchadora destacou a postura do clube, o cumprimento integral do contrato por parte do município de Olhão e o suporte constante da Federação Portuguesa de Atletismo e do Comité Olímpico de Portugal, realçando o papel do então presidente José Manuel Constantino.
Sublinhando a dificuldade de competir sem estabilidade financeira, Cabecinha apontou para a urgência de um enquadramento jurídico específico no País: «Tinha de haver uma lei para nos salvaguardar, a nós, mulheres atletas, de todos os desportos. Porque, se não, continuamos a ter que abdicar, e continuamos a ter que adiar o nosso sonho da maternidade para cada vez mais tarde, quando não devia ser permitido. Estamos a impedir que a mulher tenha o sonho de ser mãe mais cedo, para poder continuar, porque pesa muito em manter a carreira», defendeu.