A cantiga de Farioli
O FC Porto, o clube que, nas últimas décadas, mais tem honrado a bandeira de Portugal na Liga dos Campeões, está a fazer fraca figura na mais prestigiada competição europeia. A fase de liga ainda nem vai a meio e há um ano o Benfica apurou-se com o milagre de Trubin depois de ter perdido as primeiras quatro jornadas, mas Betis e PSV deixaram a ferida do dragão aberta. Se em Sevilha o FC Porto, apesar de ter sido inferior, discutiu o jogo, anteontem o amasso neerlandês foi demasiado evidente para ser ignorado.
Não pensará assim Francesco Farioli, que, num discurso que não convence 99,9% dos portistas, se escudou no insucesso do antecessor, escolhido pelo mesmo presidente que o contratou, para desdramatizar o caso. Indiferente ao ruído depois de uma época horrível no ano zero na presidência, André Villas-Boas preparava-se para segurar Martín Anselmi para 2025/26, mas a fraca prestação no Mundial de Clubes fê-lo mudar de ideias. Por isso, é caso para dizer que, se não tivessem sido os tais jogos com o Al Ahly e Inter Miami de que o treinador falou, muito provavelmente ao italiano nem tinha sido oferecida a possibilidade de conquistar os primeiros títulos da carreira —e com todo o mérito, atenção — no FC Porto.
Há que ter memória para tudo e o FC Porto europeu não nasceu há dois dias. Sérgio Conceição, por exemplo, fez autênticos milagres na Champions e com plantéis constantemente arrasados pela necessidade de reequilibrar contas.
No ano de estreia, a sede de recuperar o título e colocar travão na hegemonia verde e branca era, grande e sobrepunha-se a tudo. Por isso, a Liga Europa foi, desde início, vista quase como um fardo. É certo que não é fácil gerir plantéis com jogos à quinta-feira e domingo/segunda-feira, sobretudo quando a quantidade de opções não abunda, como era o caso do da época passada, mas sair de cena às portas das meias-finais diante de uma equipa que lutava pela manutenção na Premier League foi poucochinho.
Quando chegou, Farioli apresentou um futebol enérgico, vistoso e com pendor ofensivo. Nada disso se tem visto desde há muito tempo. Falta capacidade e imprevisibilidade em ataque continuado e ser encostado às cordas por um PSV que tinha perdido quatro dos últimos cinco jogos foi suficiente para a tampa dos adeptos saltar e chegaram os primeiros recados para dentro dos líderes. Diogo Costa disse que os adversários já conhecem a ideia de jogo de ginjeira, Bednarek apontou à falta de energia e proatividade. Há tempo para corrigir, mas , conhecendo o Dragão, não assim tanto quanto Farioli julgará.