Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus na Arábia Saudita, quando a relação era perfeita - Foto: Imago
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25 anos de futebol e uma novela que ninguém pediu

'Tribunal d'A BOLA' é o espaço de opinião em A BOLA de Gonçalo Almeida, Advogado e Juiz do Tribunal de Futebol da FIFA

Sendo esta a minha primeira crónica em A BOLA, devo ao leitor uma apresentação: sou advogado, sócio fundador da Sociedade de Advogados Almeida & Associados, tendo o futebol sido, desde sempre, o fio condutor da minha vida profissional.

Em 2000/2001, fiz o mestrado do CIES em Sociologia, Gestão e Direito Internacional do Desporto, a que se seguiram praticamente cinco anos enquanto advogado da FIFA, em Zurique.

Desde 2023, integro, na qualidade de juiz, a Câmara de Agentes do Tribunal do Futebol da FIFA. A título pessoal, sendo um adepto de Desporto, sou igualmente sócio do Sport Lisboa e Benfica, cumprindo 50 anos de associado no próximo ano. A iniciativa não foi minha. Foi o meu Pai, a quem muito agradeço, que me proporcionou essa honra e me levou pela mão, por inúmeras vezes, ao antigo Estádio da Luz. Hoje, sou eu quem o leva, a ele e à minha filha, a viver essa paixão.

Mas esse clubismo não afeta a forma como analiso o futebol e muito menos me tolda o raciocínio ou a capacidade crítica. São praticamente 25 anos a trabalhar nesta indústria, debruçando-me permanentemente sobre litígios de diversas naturezas, envolvendo, entre outros, clubes, jogadores, treinadores ou agentes, de todo o mundo, e sem que a cor das camisolas tivesse algum tipo de interferência. Aliás, defendi, em algumas ocasiões, o azul e branco de um certo adversário histórico, funções que desempenhei com a mesma dedicação e o profissionalismo de sempre.

Como se costuma dizer, trabalho e conhaque não se confundem. É, portanto, com total independência que aqui escreverei numa base quinzenal. O leitor merece essa honestidade, e eu não saberia ser de outra forma.

Apresentação feita, permitam-me abordar o assunto do momento com a franqueza que exige. A saída de Cristiano Ronaldo do estágio da Seleção, na véspera do jogo com a Dinamarca, transformou-se numa autêntica novela nacional. Seguiram-se publicações nas redes sociais, promessas de verdades a revelar, notas validadas, versões cruzadas, e até outdoors. Salvo melhor opinião, tudo isto roça o ridículo, sendo altamente desprestigiante para os protagonistas, Seleção e para o próprio país, transmitindo, a muitos de nós, uma incómoda sensação de vergonha alheia.

Mais, julgo ser pacífico constatar que atendendo aos méritos profissionais/desportivos sobejamente reconhecidos tanto a Cristiano, como a Jesus, nenhum deles merece mais episódios deste enredo mexicano, e muito menos merecem os portugueses continuar a ser torturados com este assunto, cada vez que pretendem aceder às notícias.

É certo que existe uma componente financeira extremamente relevante acoplada a este incidente, não estivéssemos a falar do enorme impacto que a marca CR7 possui a nível mundial e que se reflete em inúmeras esferas de negócios, não escapando a isso os cofres da FPF.

Contudo, importa colocar as coisas no seu devido lugar. O país tem questões bem mais prementes à espera de soluções: a saúde, a educação, a segurança, a imigração ou tão simplesmente o preço dos combustíveis. Esses, sim, assuntos que devem merecer a nossa atenção. Estivéssemos na Roma antiga, seria caso para dizer que, por muito que o povo precise de se distrair, já chega de circo.

Assim, num contexto em que o futebol deve ser fator de coesão e valorização do país, impõe-se que as partes resolvam o diferendo pelos canais próprios, com a devida reserva e o respeito mútuo que se exige, acautelando o superior interesse da Seleção, devolvendo, finalmente, a atenção pública às matérias que verdadeiramente a justificam.

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