Marcelo e a Olímpica Mediocridade (artigo de Gustavo Pires, 57)

Olimpismo 06-03-2017 19:28
Por Gustavo Pires
Pierre de Coubertin, ao contrário dos seus compatriotas, acreditava que os ingleses começaram a ganhar a batalha de Waterloo (1815-06-18) precisamente nos campos de jogos das Escolas Públicas que já funcionavam antes de Thomas Arnold ter assumido as funções de diretor da célebre Escola Pública de Rugby. Na realidade, em Inglaterra, foram as Escolas Públicas que abriram uma educação de qualidade às classes médias que haviam de assegurar os recursos humanos que colocaram o país na situação de ser a maior potência mundial de finais do século XIX princípios do século XX. Em 1920 o Império Britânico dominava cerca de 458 milhões de pessoas, quer dizer, um quarto da população mundial.

Contudo, J. E. C. Weldon que, entre 1881 e 1895, foi diretor da Escola de Pública Harrow, entendia que os ingleses não eram superiores aos franceses ou aos alemães em inteligência, em capacidade industrial, em ciência ou em aparato bélico. Para ele, a superioridade dos ingleses residia na saúde, no temperamento, na coragem, na energia, na perseverança, no autocontrolo, na disciplina, na cooperação, no espírito de corpo desenvolvidos na prática do cricket e do rugby nas Escolas Públicas. E Weldon concluía que os britânicos tinham conseguido a sua soberania imperial devido aos desportos enquanto geradores de força física e espiritual no sentido do dever e da solidariedade.

Era nesta perspetiva que a generalidade dos diretores das Escolas Públicas inglesas viam a prática desportiva. E, até entendiam que tal filosofia de ação tinha de ser extensiva às raparigas que deviam estar fisicamente preparadas para “aguentarem”, “ombro a ombro”, com os seus futuros maridos, os postos avançados do Império Britânico a fim de demonstrarem a sua superioridade e defenderem os interesses dos ingleses. De acordo com esta filosofia, até os concursos para o exercício de funções de administração nos diversos postos administrativos do Império tinham em consideração os currículos desportivos dos candidatos.

Em consequência, o imperialismo inglês foi desenvolvido a partir de uma elite desportiva que, administrou mais de 35 500 000 km2, quer dizer, quase 24% da área total da Terra. Ao tempo, dizia-se que “o sol nunca atingia o ocaso no Império Britânico". Hoje, o seu legado político, cultural, desportivo e linguístico é incomensurável e o desporto tem nisso uma significativa responsabilidade ao ter promovido na juventude inglesa, desde inícios do século XIX, uma cultura de competição que, na lógica do “fair play” era justa, leal e nobre.

Entre nós, Marcelo, na sua hiperatividade pela conquista de protagonismo num regime que, cada vez mais, parece ser presidencialista, resolveu associar-se à tomada de posse dos membros do Comité Olímpico de Portugal. Infelizmente, o que decorre da referida cerimónia, onde, para além de Marcelo e do presidente da Assembleia da República, estiveram ainda presentes o Ministro da Educação, bem como o Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, é imagem da entronização de um dirigente que, depois de concluir um mandato de quatro anos com um alto nível de mediocridade encimada com a pior participação portuguesa de sempre desde os Jogos Olímpicos de Barcelona (1992), se apresentou a eleições numa acérrima competição contra si próprio na medida em que os Estatutos do Comité Olímpico de Portugal, depois de uma aturada revisão “aprovada de cruz” em finais de 2016, continuam completamente blindados ao surgimento de qualquer candidatura alternativa. É evidente que com esta cultura de mediocridade o desporto e País, com mais ou menos Marcelo, para além das festas e festarolas, vai continuar a ocupar os últimos lugares da generalidade dos "rankings" sociais e económicos internacionais.

Entretanto, esta situação só se alterará algum dia quando a coragem, a energia, a perseverança, o autocontrolo, a disciplina, a cooperação e o espírito de corpo desenvolvidos no confronto das ideias de verdadeiros projetos ao serviço da sociedade, passarem a fazer parte da cultura de competição justa, nobre e leal dos nossos tristes dirigentes. Até lá, o Movimento Olímpico prosseguirá na mais “apagada e vil tristeza”.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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