«Zé, não me dês pancada que estou a negociar com o Barcelona»
FC Porto e PSV Eindhoven encontraram-se duas vezes na edição 1992/93 da Champions League. Os dragões venceram (1-0) nos Países Baixos e, nas Antas, houve empate (2-2), com um nome improvável em destaque nos dois jogos: José Carlos. O antigo defesa-central brasileiro marcou nas duas ocasiões e, em vésperas de novo embate entre os dois emblemas, recorda, em A BOLA, o duelo particular com o temível Baixinho. Entre muitas outras histórias...
— O José Carlos marcou nos dois jogos que fez contra o PSV, em 1992/93. Para lá dos golos, o que lhe ficou gravado na memória?
— O Romário era o atacante do PSV naquela época. Eu sou amigo dele desde os tempos em que estávamos os dois no Rio de Janeiro. Éramos adversários aqui, conhecíamo-nos... No segundo jogo, em Eindhoven, ele chegou-se à minha beira e disse: «Zé Carlos, não me dês pancada, porque já estou a negociar com o Barcelona.» Eu fiquei atarantado… Como assim, a negociar com o Barcelona? E ele continua: «Fica tranquilo, joga tranquilo que eu vou ficar aqui numa boa, sem problema nenhum.» Pensei: «Este cara deve estar a gozar para depois vir para cima de mim.» Mas a verdade é que, durante o jogo todo, ele esteve muito tranquilo, só a jogar para trás, a fazer aqueles passes simples... Jogou a partida toda sem grande esforço, para não se magoar ou lesionar. Ganhámos 1-0, fiz um golo de grande penalidade. Jogámos bastante bem nesse dia, lembro-me disso. E isto foi curioso porque, nas Antas, tinha sido o oposto. A meio do jogo, ele sai-se com esta: «Zé Carlos, hoje vou jogar, está bem?» Não deu outra… Marcou dois golos! Até hoje, quando nos encontramos, lembramos essa história. Foi o episódio que mais me marcou desses jogos que fizemos contra o PSV Eindhoven.
— Um dos golos, o de Eindhoven, foi de penálti, já disse. E o outro, ainda se lembra como foi?
— Confesso que não me estou a recordar bem, mas creio que foi num pontapé de falta. Eu era forte nesse tipo de lances.
— Falou, e bem, do Romário, mas o PSV tinha outros grandes jogadores. O guarda-redes Van Breukelen, Erwin Koeman…
— É verdade, jogámos contra uma bela equipa. Mas a nossa também estava bem forte, naquela altura. Tínhamos o Kostadinov em grande forma, o Jaime Magalhães, que estava num excelente momento, e outros jogadores incríveis, como o João Pinto, o Aloísio, Domingos Paciência... Se nomear todos, fica complicado! [risos] Mas acho que foi um encontro entre duas equipas que, naquele tempo, eram bem fortes. A Champions era muito diferente naquela altura, com dois grupos. Ficámos atrás do Milan nesse ano.
— O FC Porto tinha, de facto, nomes de peso no plantel. Como era estar dentro daquele balneário, com personalidades tão vincadas e jogadores tão marcantes?
— Era um grande plantel. Todas as pessoas que chegavam eram bem recebidas. O João Pinto e o André estavam totalmente dentro do espírito do clube, também porque já lá estavam há mais tempo. Ensinavam muito a todos nós. É a tal mística, não é? Eu tenho uma ideia muito clara em relação ao FC Porto: depois de ter passado por lá, nenhum clube foi igual. Nem antes, nem depois. E eu joguei no Flamengo antes de ir para Portugal… O presidente [Pinto da Costa] deixava-nos bem fortes e garantia sempre que o plantel ficava bem fechado. Isso era muito bom. Ter jogado no FC Porto foi uma aprendizagem para toda a vida.