VAR profissionalizou a polémica
Desde que comecei a ver futebol, na fascinante década de 80, mudaram os jogadores, os treinadores, os presidentes e outros dirigentes dos mais variados clubes e órgãos, os estádios, os relvados, a preparação física, a alimentação, a análise de dados, a forma de treinar, os equipamentos, as competições, as regras e até a maneira de ver os jogos transmitidos com detalhe que nos transporta para o interior das quatro linhas sem sairmos do sofá, além do VAR, o maior avanço civilizacional — digo eu — da história do desporto-rei.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas algo permanece imutável no futebol português — a conversa sobre o trabalho dos árbitros. É preciso melhorar a arbitragem, é preciso formar melhor os juízes, é preciso protegê-los, é preciso responsabilizá-los, é preciso dar-lhes melhores condições, é preciso acabar com a cultura de pressão. E, sobretudo, é preciso falar menos de arbitragem.
Esta última frase repetida vezes sem conta é a mais curiosa. Todos decretam que se fala demasiado de arbitragem, protagonistas em campo e comentadores fora dele. E qual é a solução para resolver o problema de se falar em excesso de arbitragem? Ora… falar ainda mais de arbitragem. Uma tradição, um tema sempre em cima da mesa.
Se pegarmos num jornal de há 40, 30, 20, 10 ou mesmo um ano, bastaria trocarmos as fotografias dos queixosos, contextualizar os reparos e os textos estariam prontos a publicar. «É preciso credibilizar a arbitragem», «é urgente reformar o setor», «os árbitros estão sob demasiada pressão», «não se pode continuar a viver num clima de suspeição», «lá fora nada disto acontece», blá, blá, blá… Tudo isto nos soa familiar.
Antes, discutíamos se o árbitro tinha visto bem. Agora, analisamos se o VAR esteve atento. Depois, se devia ter chamado o árbitro, a seguir se devia ter ido ao monitor, enquanto esmiuçamos a imagem frame a frame. Finalmente, ainda poderá haver espaço para duvidarmos se a linha que alguém desenhou sobre a imagem é a correta. O VAR não matou a polémica, apenas a profissionalizou.
Ironia das ironias, a tecnologia surgiu para reduzir o erro, esse objetivo foi largamente alcançado — é só lembrar o número de erros corrigidos com recurso à videoarbitragem que noutros tempos seriam recordados por décadas — mas qualquer deslize é agora um acontecimento nacional. Eu ainda sou do tempo em que um lance era visto uma vez no estádio e à noite com uma ou duas repetições no Domingo Desportivo, antes de morrer nos dias seguintes num café perto de nós com um jornal a servir de prova desde que validasse a nossa opinião.
Hoje, essas jogadas controversas podem ser vistas em inúmeros ângulos, alta definição, câmara lenta, prato gourmet pronto a servir à apreciação de antigos árbitros, jogadores, treinadores, comentadores e, também, especialistas que operam no lodo das redes sociais.
É possível que, entretanto, tenhamos inteligência artificial a arbitrar os jogos, sensores nas chuteiras, câmaras em cada metro quadrado do estádio e um computador capaz de determinar, ao milímetro, tudo e mais alguma coisa.
E alguém há de dizer: «É tudo muito bonito, mas é preciso melhorar a arbitragem.»