Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus na conferência de imprensa de antevisão ao Portugal-País de Gales, da Liga das Nações — Foto: IMAGO
Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus na conferência de imprensa de antevisão ao Portugal-País de Gales, da Liga das Nações — Foto: IMAGO
Adicione A BOLA às suas preferências do Google

Tudo isto é triste. Tudo isto é fado

A solução demanda uma conversa reservada, frontal e sem guiões entre Proença, Jesus e Ronaldo. O selecionador deve preservar intacta a autoridade técnica, o jogador aceitar que passará a disputar menos minutos pelo interesse coletivo e o presidente impedir terceiros de se imiscuírem em assuntos internos. 'A Bola é redonda. O Verde é futuro' é o espaço de opinião de Pedro Ângelo, CEO da NAV e sócio do Sporting Clube de Portugal

A Seleção Nacional venceu os quatro primeiros jogos com Jorge Jesus, garantindo antecipadamente a presença nos quartos de final da Liga das Nações e demonstrando sinais de uma identidade de jogo que há muito se reivindicava para a equipa das quinas.

Sucede que, em vez de se discutir a evolução da equipa e a notória melhoria do seu processo, o debate foi tomado por uma novela de reality show, com reuniões noite dentro na antevéspera de um jogo, reuniões em pleno estágio na presença de figuras estranhas à Seleção Nacional e reuniões entre o triunvirato da Federação Portuguesa de Futebol: presidente, selecionador e capitão.

Comecemos pelo essencial. Jorge Jesus, enquanto treinador e líder da equipa de todos nós, tinha inteira legitimidade para não utilizar Cristiano Ronaldo diante da Noruega, como continuará a ter em futuras ocasiões e relativamente a qualquer jogador que entenda convocar. Mesmo admitindo como boa e verdadeira a versão do nosso capitão, segundo a qual lhe teria sido transmitido durante o almoço da concentração que jogaria aproximadamente trinta minutos, nenhuma substituição pode converter-se numa obrigação contratual, muito menos quando as circunstâncias do jogo aconselham o treinador a decidir de modo diferente.

Um selecionador pode antecipar uma intenção, não pode hipotecar a sua decisão sem a relacionar com as incidências do jogo. No banco, a única promessa válida é a de escolher aquilo que, em cada momento, melhor serve a equipa, sem ficar prisioneiro de um planeamento traçado antes do jogo começar. Aliás, essa era uma das críticas recorrentes ao seu antecessor, a dificuldade em intervir sobre o curso dos acontecimentos, como se as substituições obedecessem a um guião previamente estabelecido, indiferente àquilo que o jogo entretanto exigia.

Ser fã e respeitar Cristiano Ronaldo não significa conceder-lhe um direito divino de decisão sobre as opções do selecionador, nem converter a gratidão, por tudo aquilo que deu a Portugal, numa imunidade superlativa perante os erros que possa ou venha a cometer, como foi o caso. Cristiano Ronaldo tinha o direito de ficar desiludido, de procurar explicações e até de considerar que Jorge Jesus gerira mal a sua situação. Não tinha o direito de abandonar o estágio antes de um jogo oficial da Seleção Nacional.

Ser quem é confere-lhe uma responsabilidade acrescida para perceber que, em circunstância alguma, pode abandonar o grupo que capitaneia, por se ofender pela forma desabrida e pouco filtrada com que Jorge Jesus tantas vezes se exprime nas conferências de imprensa de antevisão ou de rescaldo dos jogos.

É verdade que Jorge Jesus, embora seja o único responsável das decisões sobre o escalonamento da equipa, cometeu um erro de desatenção, como já teve a humildade de o reconhecer. Colocar Cristiano a aquecer durante tanto tempo, sem o lançar no jogo, constituiu uma distração evitável, mormente pelo estatuto e pela carreira do jogador. Porém, quem conhece a intensidade com que Jorge Jesus vive cada lance, sabe como fica absorvido pela leitura tática e pelos pormenores do jogo.

Cabia, assim, no plano operacional, aos adjuntos alertá-lo para o tempo de aquecimento a que sujeitara Cristiano Ronaldo, funcionando como mecanismo de alerta para a sensibilidade da situação.

Pedro Proença revelou igualmente uma negligente inércia. Competia ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol enquadrar o conflito e impedir que uma divergência entre o capitão e o selecionador fosse arbitrada por agentes externos à estrutura federativa. Simão Coutinho e Tiago Craveiro podem aconselhar Cristiano no âmbito do papel que, respetivamente, desempenham, mas não lhes cabe governar as relações internas da Seleção Nacional.

A entrada de ambos na concentração do estágio, aparentemente, um de forma presencial, e outro por vias telemáticas, demonstra que a instituição chegou tarde e deixou por ocupar o lugar que lhe pertencia. Tal como sucede na física, também o poder não tolera vazios: ao não exercer a autoridade no momento próprio, Pedro Proença permitiu que terceiros ocupassem o espaço que institucionalmente lhe pertencia.

O documento de oito pontos gizado por Tiago Craveiro e entregue a Jorge Jesus ultrapassou todos os limites do aceitável. Poderá dizer-se que não continha a palavra «desculpa», mas a substância vale mais do que o expediente semântico: pretendia-se que o selecionador confirmasse a versão do jogador, enaltecesse a sua conduta e reconhecesse os seus pretensos erros, seguindo um guião escrito pela outra parte. Era, na prática, um convite para Jorge Jesus se ajoelhar em público e nenhum selecionador pode aceitar semelhante ato de contrição, sem comprometer a autoridade perante o balneário.

Como habitualmente sucede no nosso futebol, a polémica encontrou nas televisões quem a alimentasse quando o bom senso recomendava contenção. Pedro Sousa foi o exemplo mais vocal, falando com uma certeza de fiel testamentário sobre as intenções de Cristiano e sentenciando que nunca voltaria a jogar pela Seleção enquanto Jorge Jesus fosse selecionador.

Ronaldo não carece de cortesãos, nem de figurantes aduladores, que convertam cada contrariedade numa afronta histórica, mas de pessoas capazes de lhe dizer que também ele pode errar, que começar no banco não diminui a sua grandeza e que preservar o lugar ímpar que conquistou na história exige compreender o tempo que vive e adaptar-se ao papel que a ordem natural da idade lhe reserva.

Portugal dispõe hoje de um selecionador de indubitável qualidade, provavelmente o treinador de campo, de treino e de processos de jogo mais qualificado que alguma vez orientou a equipa nacional. Quatro partidas não chegam para consagrar a obra, mas já permitiram reconhecer a impressão digital de Jorge Jesus: uma equipa mais vertical, intensa na pressão, com maior presença na área, um futebol atrativo e de vertigem na procura do golo, sem adornos ou lateralizações estéreis, como aquele a que assistíramos no passado recente.

Cristiano Ronaldo é o maior símbolo do futebol português, uma bandeira do País no mundo e um jogador cujo lugar na nossa história será sempre singular. Todavia, a grandeza meritoriamente conquistada no passado não confere, por si só, semelhante protagonismo no presente. Compete-lhe por ora revelar-nos a humildade própria dos grandes, aceitando a possibilidade de começar ou terminar jogos no banco. Pode continuar a ser decisivo como finalizador e a ser uma referência competitiva, sem condicionar o coletivo à sua individualidade.

Respeitá-lo implica também preparar dignamente esta transição de uma carreira irrepetível. A Federação deve convertê-lo em embaixador plenipotenciário do futebol nacional, autorizado a representar Portugal, projetar a imagem do País no mundo e a inspirar as novas gerações. Será a extensão natural de um legado que há muito ultrapassou os limites do relvado.

A solução demanda uma conversa reservada, frontal e sem guiões entre Proença, Jesus e Ronaldo. O selecionador deve preservar intacta a autoridade técnica, o jogador aceitar que passará a disputar menos minutos pelo interesse coletivo e o presidente impedir terceiros de se imiscuírem em assuntos internos. A humilhação de uma das partes não resolveria o conflito, apenas transformaria uma aparente vitória individual numa derrota coletiva.

Tudo isto foi triste. Mas nem tudo isto tem de ser fado.

A iniciar sessão com Google...