Toni celebrou o 80.º aniversário a 14 de outubro último - Foto: MIGUEL NUNES
Toni celebrou o 80.º aniversário a 14 de outubro último - Foto: MIGUEL NUNES

Um treinador ganha o campeonato e na época seguinte aceita ficar no mesmo clube para ser adjunto de outro treinador. Sven-Goran Eriksson regressava à Luz. Toni ficava. Mudava de lugar no banco, mantinha-se no clube por exigência do sueco à direção encarnada. Parece ficção, mas só está ao alcance dos grandes de espírito. Daqueles que sabem olhar para a estrada e ver que recuar não é despromoção, mas uma oportunidade para fazer o caminho com maior solidez.

E não foi por falta de resultados: Toni tinha levado o Benfica à final da Taça dos Campeões Europeus no ano anterior. Estugarda, PSV, penáltis, o azar de Veloso. Quem viveu essa noite sabe quanto tempo pode durar uma bola a caminho da baliza. Toni conhecera a distância entre chegar à final e ganhar a final. Uma distância de poucos metros que se carrega durante uma vida.

Em 1989, conquistou o campeonato. Podia reclamar estatuto, entender o regresso de Eriksson como uma afronta. Nada disso. Ficou.

A humildade tornou-se uma palavra barata. Aparece nas apresentações dos jogadores, nos discursos dos dirigentes, nas entrevistas de quem acaba de ganhar. Toda a gente é humilde diante de um microfone. Mas depois chegam as escolhas. Quem manda. Quem aparece. Quem fica com o mérito. Quem aceita ajudar quando deixa de ser o primeiro nome. Aí, a palavra passa a ter um preço. Toni pagou-o. E é por isso que esse episódio conta mais sobre ele do que muitos elogios que possamos escrever no seu aniversário.

Fez 80 anos esta semana. Nasceu em Mogofores, jogou no Anadia, seguiu para a Académica, clube que ocupou o seu coração antes do Benfica, e chegou à Luz em 1968. Foi colega de homens que já tinham conquistado a Europa, ganhando oito campeonatos e quatro Taças de Portugal como jogador.

No longo percurso de treinador, ganhou mais dois campeonatos portugueses e uma Taça.

Pelo meio de tudo isto, e voltando ao início da história, regressou à final europeia em 1990, como adjunto de Eriksson, diante do Milan em que as águias são derrotadas com um golo de Rijkaard. Em qualquer função, há matéria suficiente para uma homenagem feita de resultados. Mas seria uma homenagem incompleta.

Porque Toni é uma das poucas figuras do Benfica de quem um sportinguista ou um portista pode falar com carinho sem sentir necessidade de se justificar. Isto parece pouco até olharmos à volta. Até ouvir as conversas, ler os comentários e perceber a facilidade com que a discordância se transforma numa acusação.

Há quem passe o dia a exigir respeito pelo seu clube e não consiga pronunciar o nome de um rival sem lhe acrescentar um insulto. Até que aparece Toni e pessoas que não concordam em quase nada encontram alguém que respeitam.

Não precisou de disfarçar o seu benfiquismo para ser uma das figuras mais acarinhadas do futebol português. Nunca houve grande dúvida sobre o clube que o fazia sofrer, sobre a vitória que desejava, sobre o lado em que estava. O respeito dos adversários foi conquistado com essa ligação à vista. É isso que o torna significativo.

O adepto do Sporting ou do FC Porto não precisa de esquecer o Benfica para reconhecer o homem. Consegue ver as duas coisas. O rival e a pessoa. Durante muito tempo, julgámos que esta distinção era elementar. Hoje parece uma qualidade extraordinária.

Toni também lhes ganhou. E ganhou jogos que ficaram a doer. Estava no banco nos 6-3 do Benfica em Alvalade, em 1994, a caminho de outro campeonato. O respeito não nasceu, portanto, da falta de confronto. Nasceu apesar dele.

Um adversário pode levar uma tarde, um título, uma noite de sono. Não tem de levar a capacidade de o tratar com decência. Toni ajudou a preservar essa possibilidade num futebol que tantas vezes parece empenhado em destruí-la. Quis ganhar. Soube continuar a conviver.

Vale a pena pensar no que entregamos às gerações que começam agora a sentir o jogo. Ensinamos os nomes dos jogadores, explicamos as regras, oferecemos a primeira camisola. E depois? Que ideia de adversário lhes deixamos? A de alguém que permite que haja jogo ou a de alguém cuja existência nos ofende?

A forma como falamos de futebol também educa. Educa à mesa, no carro, na bancada. Toni tem sido, ao longo de décadas, uma referência para quem quer amar um clube sem passar a odiar pessoas.

Não foi um homem à margem do futebol, protegido das suas contradições. Foi jogador, capitão, adjunto, treinador principal, dirigente. Esteve dentro. Conheceu o poder, a derrota, o despedimento, o aplauso. A sua maneira de estar tem esse peso: foi posta à prova. É fácil recomendar serenidade quando nada nos acontece. Mais difícil é conservá-la depois de uma vida inteira sujeita ao resultado do próximo jogo.

Toni chegou aos 80 anos com histórias para contar e gente de clubes diferentes disposta a ouvi-las. Esse reconhecimento levou muitos anos a construir.

Chamam-lhe o Toni do Benfica. Com razão. Há nesse nome uma vida de dedicação que ninguém precisa de diminuir para a tornar universal. Mas os seus 80 anos são de mais gente. São de todos aqueles (cada vez menos) que ainda sabem reconhecer no futebol um lugar onde se pode competir, perder a cabeça por um golo e, no fim, apertar a mão de quem nos venceu. Toni pertence ao Benfica. O respeito por Toni atravessa os clubes.

Num tempo em que tantos parecem dedicar a vida a polarizar, Toni é um ponto de união. E essa é a sua maior vitória. Merece, por isso, que todos parem por um instante. E que fiquem do mesmo lado. Para lhe dar os parabéns. Não apenas pelo aniversário, mas por nunca ter permitido que o amor a clube o levasse a ser intolerante com os outros. Parece fácil. Devia ser.

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