Suaréz descobriu a mina e Doumbia disse ‘c ‘est fini’ (crónica)
LENS — A vitória do Sporting em casa do Lens representa mais do que três pontos na 2.ª jornada da fase de liga da Champions. Este triunfo quebrou um jejum de 16 anos sem vitórias em solo francês e serviu como uma demonstração clara de maturidade tática e pragmatismo competitivo sob o comando de Rui Borges.
Frente a um adversário tradicionalmente intenso e empurrado por um ambiente fantástico que os adeptos criam nas bancadas do Estádio Bollaert-Delelis, o Sporting soube sofrer, adaptar-se e ferir o adversário nos momentos certos. O Lens entrou fiel à sua identidade, em 3x4x3, procurando sufocar a saída de bola do Sporting através de uma pressão alta exercida pelo trio ofensivo.
É certo que nos primeiros 15 minutos a equipa francesa conseguiu expor alguma instabilidade na primeira fase de construção leonina, criando duas oportunidades claras por Florian Thauvin, mas Kaique, a grande surpresa no onze leonino, a dar conta do recado. Mas, a grande nuance do jogo esteve na resposta de Rui Borges ao desenhar o Sporting num 4x3x3 estruturado, abdicando da tradicional vertigem posicional para privilegiar a densidade defensiva e o controlo do ritmo.
João Simões (nem pareceu que esteve quase meio ano sem competir) e Doumbia a ladearem Altimira (verdadeiro patrão no miolo) conferiram ao meio-campo capacidade física essencial para estancar a progressão dos adversários. Quando o Lens estendia as suas linhas e projetava os alas, o Sporting fechava-se num bloco baixo que alternava entre o 4x5x1 e o 5x4x1. E se o Lens dominava a posse de bola no início, o Sporting controlava o espaço.
A estratégia leonina assentou na paciência defensiva para atrair o bloco francês e, de seguida, explorar as costas da defesa em transições rápidas. O golo inaugural, aos 22 minutos, foi o exemplo perfeito desta execução académica: recuperação em bloco médio, passe vertical fulgurante de Irankunda a explorar o espaço entre o central e o ala esquerdo do Lens, e uma finalização de classe Luis Suárez.
O golo funcionou como um tranquilizante para os verdes e brancos e um catalisador de ansiedade para os mineiros. Com o passar dos minutos, a linha de três centrais do Lens viu-se exposta à velocidade de Irankunda e à inteligência posicional de Suárez, que constantemente baixava para arrastar os defesas e criar espaço para diagonais.
Substituições na ‘mouche’
Se a primeira metade foi pautada pelo pragmatismo e pelo golo cirúrgico do colombiano - o maior goleador da história do Sporting na Champions, com oito tentos - a segunda parte transformou-se num tratado de gestão estratégica de ritmos, ajuste posicional e aproveitamento do desgaste físico adversário por parte de Rui Borges.
O Lens reentrou em campo obrigado a assumir riscos e a injetar agressividade, percebendo que o seu 3x4x3 inicial estava bloqueado pelo bloco defensivo leonino (irrepreensível, diga-se), Yannick Cahuzac viu-se obrigado a abdicar do Baidoo para lançar o lateral Rubén Aguilar e trocou Ivanovic (aos 10' esteve em boa posição para marcar, mas a bola passou-lhe por baixo dos pés, após passe tenso de Thauvin, de resto foi anulado por Altimira) pela capacidade de choque de Odsonne Édouard, abdicando de coberturas defensivas para se fixar num 3x3x4, projetando linhas na tentativa de arrastar a defesa leonina para perto da baliza de Kaique que, repita-se, se agigantou na estreia de leão ao peito.
Rui Borges geriu o banco com precisão, refrescando o meio-campo e as alas e a aposta não podia ter sido melhor. Numa jogada rendilhada, com excelente trabalho de Jesse Derry na esquerda, junto à linha, que tocou para Silas Andersen (os dois recém entrados no jogo), que aproveitou espaço no miolo para isolar Doumbia, que marcou de trivela, sentenciando o jogo.
Foi assim que o Sporting mostrou que tem uma versão de equipa fria, rigorosa e cirúrgica, provando que está preparada para competir e vencer em palcos mais exigentes, como são os da Liga dos Campeões.
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