«Recebia 5 mil ameaças por dia e andava armado com duas pistolas»
O presidente e proprietário da Lazio, Claudio Lotito, está no centro de um processo judicial conduzido pelo Ministério Público de Roma que investiga alegadas pressões para o afastar do comando do clube da capital italiana. O inquérito, que começou focado nas claques, aponta agora para um alegado esquema mediático-financeiro, com ramificações políticas, destinado a forçar a alienação da sociedade desportiva.
Lotito, presidente desde 2004 e senador pelo Forza Italia, foi ouvido em Roma na qualidade de testemunha e entregou um relatório da comissão antimáfia e vários documentos, sustentando a existência de um plano criminoso contra a sua continuidade na liderança.
Em causa está uma investigação por suspeita de manipulação de mercado que visa os banqueiros Mauro Masi e Francesco Maiolini, presidente e CEO do Banca del Fucino, e o jornalista Luigi Bisignani. De acordo com a acusação, terão sido difundidas informações falsas para desvalorizar as ações da Lazio na Bolsa de Milão e pressionar o dirigente a ceder a gestão do clube. Em setembro, a polícia italiana realizou uma operação de busca e apreensão em propriedades ligadas à alta cúpula do Banca del Fucino.
Em declarações prestadas aos magistrados, publicadas pelo jornal La Repubblica, Claudio Lotito rejeitou uma eventual venda a investidores ou fundos estrangeiros. «Nunca recebi ofertas, mas uma coisa é certa: tive de apresentar denúncias e comunicados à Consob [órgão responsável pela supervisão do mercado financeiro italiano], dizendo que nunca recebi ofertas», asseverou, garantindo que não tenciona abandonar o emblema romano.
O dirigente recordou, num outro testemunho em março e agora divulgado, o histórico de grande tensão vivido com setores radicais dos adeptos, revelando as medidas extremas a que já esteve sujeito. Perante a comissão parlamentar antimáfia, realizada em parte à porta fechada a pedido do próprio senador, deu conta do perigo iminente que sentiu. «Durante muito tempo, andei armado com duas pistolas, uma à frente e outra atrás, uma automática e uma Smith & Wesson. Uma vez, uma delas até foi útil, salvou-me.» Segundo o dirigente, o porte de arma foi uma medida sugerida e imposta pelas próprias forças de segurança.
Os documentos oficiais não detalham o ano nem o período exato em que o presidente da Lazio circulou armado, mas sublinham um conjunto continuado de episódios hostis que motivaram a atribuição de uma escolta policial de nível dois.
O presidente da Lazio deu mais exemplos do clima de perseguição e ameaças. «Recebo cinco mil chamadas com ameaças por dia, não estou a brincar. Na vida, sou combatente, nunca veterano. Sou contra os abusos», atirou, deixando ainda um recado irónico aos adeptos que lamentam a ausência de grandes sonhos: «Tomem um sonífero, se precisam de sonhar.»
Ao Ministério Público, o líder biancoceleste reivindicou ter resgatado o clube da falência mediante um aumento de capital e um plano de pagamento faseado das dívidas ao fisco, cujas últimas prestações terminam em novembro de 2027. Destacou que o centro desportivo de Formello está atualmente avaliado em 235 milhões de euros, que a academia de formação é um projeto lucrativo e que optou por investir no clube em vez de encaixar 30 milhões de euros.
O poder das claques
O testemunho incidiu também sobre o poder das claques e o impacto financeiro da rutura com a direção. Lotito explicou ao Ministério Público que, quando assumiu a presidência, a estrutura do clube entregava avultadas quantias aos adeptos organizados para coreografias e bilhética. O dirigente confirmou ter cortado esse financiamento, retirado a gestão dos ingressos e do negócio do merchandising.
Atualmente, o presidente sustenta que esses setores continuam a comercializar material através de uma marca, a «Maledetti Laziali» e definiu a claque como «uma organização piramidal controlada por 80 a 90 indivíduos capazes de coordenar milhares de pessoas», apontando como exemplo a colagem noturna de mais de dez mil cartazes hostis por toda a capital e província.
A par de garantir que sempre respeitou críticas legítimas, o dirigente recordou o trabalho de «saneamento» para erradicar fações antissemitas das bancadas, em cooperação com a Digos - Divisão de Investigações Gerais e Operações Especiais, responsável por investigações relacionadas, nomeadamente, com terrorismo, extremismo e segurança pública e em recintos desportivos. Por fim, apontou o dedo ao setor mediático, queixando-se de ataques diários em diversas rádios e de artigos assinados por Luigi Bisignani no jornal Il Tempo. Bisignani também testemunhou e afirmou ser adepto da Lazio desde os dez anos e garantiu que os artigos surgiram após insistência dos filhos.