Quando o dinheiro compra mais do que jogadores
Uma comissão independente considerou provadas todas as 114 acusações de violação das regras financeiras que a Premier League apresentou contra o Manchester City; a única que não ficou provada foi a de não colaboração com a justiça! O clube, controlado por um membro da família reinante de Abu Dhabi, foi considerado responsável por infrações financeiras entre 2009 e 2018. Títulos conquistados no período abrangido poderão vir a ser questionados, embora não esteja decidida a sua retirada.
Segundo a comissão, o City terá disfarçado financiamento dos proprietários, cerca de 900 milhões, como receitas de patrocínios e ocultado parte das remunerações de colaboradores, aumentando as receitas declaradas e reduzindo os custos apresentados. Tudo isto para poder investir mais dinheiro em jogadores, treinadores e equipamento, de forma a vencer títulos. O City arrisca elevadas multas, deduções de pontos e outras sanções desportivas, além de eventuais compensações aos clubes lesados. A decisão não é definitiva: o City já recorreu e continua a negar as infrações.
Estas regras de fair play financeiro procuram proteger a sustentabilidade dos clubes e limitar vantagens competitivas obtidas através de financiamento exterior. Percebe-se o objetivo de equilibrar as possibilidades de cada clube, relacionando a capacidade de despesa com as receitas do negócio do futebol. Porém, a Premier League desenvolveu-se, cresceu e tornou-se no campeonato de futebol mais bem-sucedido do mundo também graças ao dinheiro dos seus proprietários: Abramovich tornou o Chelsea numa potência e o dinheiro do xeque tornou o City noutra. A esse investimento somaram-se os direitos televisivos, a organização e a projeção internacional da competição.
É verdade que são investidores diferentes: alguns procuram sobretudo ganhar dinheiro, enquanto outros parecem privilegiar as vitórias e a influência. Mas limitar o investimento às receitas existentes pode proteger os clubes já ricos e dificultar a ascensão dos restantes. Podemos discutir se estas regras são acertadas. Mas, enquanto vigorarem, devem ser cumpridas por todos: investir num clube e disfarçar esse investimento de receitas comerciais são coisas diferentes.
O facto de o proprietário ser não uma pessoa ou uma empresa, mas um Estado, altera as coisas? Creio que sim, que os Estados não devem ser donos de clubes noutros países. Pertencer a um membro de uma família reinante não basta, por si só, para demonstrar propriedade estatal, mas é um forte indício! Importa também distinguir titularidade, financiamento e controlo efetivo. A comparação com setores estratégicos, como a defesa e a tecnologia, onde o investimento estrangeiro pode ser restringido, merece reflexão. Os clubes têm provavelmente um peso social e político demasiado grande para serem controlados por Estados estrangeiros. As ligações do City a Abu Dhabi e do PSG ao Qatar levantam questões que ultrapassam o negócio e o desporto. Por cá o fundo do Qatar tem uma participação -minoritária- no Sporting de Braga…
O futebol precisa de investimento. Mas precisa também de transparência e de limites à influência de Estados estrangeiros sobre clubes que são parte da identidade das suas comunidades. E que têm enorme peso político. E o processo tem mais uma componente política, o primeiro-ministro inglÊs, ex mayor de Manchester, já falou em defesa do investimento do Abu Dhabi: será o clube grande demais para falhar?
Esta semana o Direito ao Golo vai para a Seleção Portuguesa de Futebol de Praia que venceu o Mundialito. Para Madalena Costa e João Cruz, medalhas de ouro nos campeonatos do mundo de patinagem artística; para o Bernardo Pereira, campeão do Mundo Sub-23 na canoagem de mar. E ainda para o Francisco Cabral que, nos pares de Ténis, venceu o ATP em Hang Zhou.