O rugby ensina e revela o melhor da natureza humana
Durante muitos anos, achei que o rugby seria nefasto para a educação do meu filho.
Via nele um desporto de privilegiados, fechado sobre si próprio e pouco disponível para integrar quem vinha de fora. Esse preconceito era resultado da minha ignorância.
O rugby ensina que o coletivo está acima do individual, que o adversário não é um inimigo e que as diferenças nos fortalecem.
Numa sociedade que precisa de redescobrir a solidariedade, o respeito, o esforço e a responsabilidade individual, os valores do rugby são cada vez mais importantes.
A primeira surpresa foi descobrir uma modalidade verdadeiramente inclusiva. O jogo é tão complexo que precisa de altos e baixos, magros e gordos, rápidos e fortes. Todos são indispensáveis e têm um papel a desempenhar.
É a combinação das diferenças que determina a qualidade da equipa.
Neste dia, há 54 anos, na sexta-feira, 13 de outubro de 1972, um avião que transportava uma jovem equipa de rugby uruguaia despenhou-se nos Andes.
Dos 45 ocupantes, 16 sobreviveram, depois de 72 dias isolados numa montanha, ao frio e à fome.
Era sexta-feira 13. Mas daquela tragédia nasceu uma extraordinária história de resistência e solidariedade.
Isolados do mundo, numa montanha gelada, o dinheiro não comprava comida e os apelidos não protegiam do frio.
Cada um fez a sua parte. Uns contribuíram com a coragem, outros com o engenho, a serenidade ou a capacidade de ajudar os amigos.
Depois do acidente, esperaram pelo socorro, até perceberem, através de um rádio, que as buscas tinham sido suspensas.
Concentraram-se em sobreviver e, sem qualquer alimento na montanha, tiveram de se alimentar dos corpos dos que morriam.
Até que, mais de dois meses depois do acidente, dois deles atravessaram os Andes, na esperança de encontrar alguém. Conseguiram.
A notícia de que havia sobreviventes, mais de dois meses depois do acidente, surpreendeu e emocionou o mundo.
Recomendo a leitura do livro de Pablo Vierci, ou o filme, 'A Sociedade da Neve', para conhecer esta história extraordinária.
Foi a capacidade de ajudarem e de aceitarem ajuda que lhes permitiu resistir. A experiência de pertencerem a uma equipa de rugby foi decisiva.
Não foi apenas nos Andes que a modalidade revelou a sua capacidade de unir pessoas e superar divisões.
Na África do Sul, contribuiu para a reconciliação nacional depois de décadas de Apartheid. Nelson Mandela vestiu a camisola dos Springboks, até então associada à minoria branca, e transformou a vitória no Mundial de 1995 num símbolo de união entre sul-africanos.
Em 2007, a Irlanda recebeu a Inglaterra no Estádio Croke Park, onde, em 1920, forças britânicas tinham matado 14 pessoas durante um jogo de futebol gaélico, no Bloody Sunday.
Símbolo da identidade irlandesa, o estádio estivera durante mais de 80 anos fechado a modalidades como o rugby e o futebol, precisamente pela sua origem britânica.
Perante mais de 80 mil pessoas, antes do início do jogo, o hino inglês foi ouvido com respeito, em silêncio. Respeitar o adversário não significava esquecer a História.
Na Nova Zelândia, o haka dos All Blacks projeta pelo mundo uma expressão da cultura Maori, povo indígena do país, transformada num símbolo de identidade nacional.
Nos Andes, o rugby ajudou a resistir. Na África do Sul, a reconciliar. Na Irlanda, a respeitar. Na Nova Zelândia, a celebrar uma identidade.
O meu filho, hoje com 17 anos, começou a jogar aos dez, depois de a mãe e as duas irmãs mais velhas terem vencido a minha resistência. Antes, jogara futebol, ténis e basquetebol.
Sem conhecermos nada da modalidade, foi jogar para o Direito. Os conhecedores do rugby estarão agora desconfiados: sem percebermos nada, foi para o melhor clube português? Não foi sorte nem conhecimento. Era o clube onde jogavam mais amigos das irmãs.
No Grupo Desportivo Direito, em Monsanto, acolhem-se miúdos de diferentes condições sociais, incluindo jovens com necessidades especiais.
No início desta época, testemunhei um miúdo de 17 anos a telefonar ao seu concorrente direto, que ainda não tinha regressado aos treinos, para o convencer a não desistir. Não queria perder o amigo.
Como escreveu num bilhete o último dos jovens uruguaios a morrer na montanha: «Não há amor maior do que dar a vida pelos amigos.»
Há também uma ética de trabalho excecional. Jogadores não profissionais, muitos sem remuneração, treinam duas vezes por dia, antes da universidade ou do emprego e novamente à noite.
E há treinadores da formação e diretores de equipa que dedicam várias noites por semana a acompanhar e educar os filhos dos outros.
No último sábado, 10 de outubro, foram ao Porto jogar com o CDUP. Saíram às oito da manhã e regressaram às dez da noite.
É por conhecer hoje esta realidade que me custa compreender a perda de espaço do rugby no Estádio Universitário de Lisboa, onde a modalidade e o CDUL construíram grande parte da sua história.
Cerca de sete hectares estão afetos ao golfe, com uma utilização que merece ser avaliada.
Porque não transformar aquela área numa Cidade do Rugby, com o estádio nacional de que a modalidade ainda carece, campos de formação e instalações para o CDUL, escolas e outros clubes?
E porque não desafiar André Villas-Boas a criar uma secção de rugby no FC Porto, em colaboração com os clubes que já praticam a modalidade no Norte?
Sobretudo, porque não integrar o touch rugby, variante sem placagens, no desporto escolar?
Popularizar o rugby não seria apenas formar mais atletas. Seria contribuir para formar melhores cidadãos e um Portugal melhor.
Hoje, 13 de outubro, passam 54 anos sobre a tragédia dos Andes. É também o dia em que completo 54 anos. Foi o dia em que começou a vida que me deu a mulher e os filhos que tenho.
O meu filho ganhou amigos para toda a vida. Eu perdi um preconceito.