Os adeptos não vivem o futebol através de folhas de cálculo - Foto: Imago
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O capital compra clubes. Mas quem constrói o futuro?

'Pensar o futebol' é o espaço de opinião em A BOLA de Carlos Carneiro, dirigente desportivo

Durante décadas, os clubes de futebol foram construídos à volta de uma cidade, de uma comunidade e de uma identidade. Hoje, muitos começam a integrar estruturas internacionais onde o futebol é pensado à escala global. O capital atravessa fronteiras, os jogadores circulam entre continentes e algumas decisões estratégicas são tomadas a milhares de quilómetros dos estádios. Mas há uma pergunta que o futebol português não pode deixar de fazer: quando um investidor compra um clube, está a adquirir uma oportunidade de negócio ou a assumir a responsabilidade de construir o seu futuro?

A resposta não tem de ser uma escolha entre as duas coisas. Um clube pode ser economicamente atrativo e, ao mesmo tempo, desportivamente ambicioso. Aliás, os melhores projetos são precisamente aqueles que conseguem conciliar estas duas dimensões. O problema começa quando uma delas existe sem a outra.

Portugal tem razões para olhar para o investimento internacional com abertura. Temos conhecimento, treinadores qualificados, capacidade de formação, uma cultura futebolística reconhecida e uma posição privilegiada na ligação entre diferentes mercados. Mas também temos clubes com dificuldades financeiras, infraestruturas insuficientes e uma dependência excessiva das transferências de jogadores. Recusar capital por princípio seria ignorar uma oportunidade. Aceitá-lo sem critérios seria cometer outro erro.

O crescimento dos grupos multiclube não é apenas uma mudança na propriedade. É uma mudança na forma de organizar o futebol. Um grupo pode partilhar metodologias, departamentos de análise, informação sobre mercados, competências médicas, tecnologia e processos de recrutamento. Pode criar percursos de desenvolvimento para jogadores e profissionais. Pode permitir que um clube de menor dimensão tenha acesso a ferramentas que, isoladamente, dificilmente conseguiria financiar.

Pensemos no scouting. Durante muito tempo, identificar talento dependia sobretudo de observadores experientes, contactos e capacidade de antecipação. Tudo isso continua a ser decisivo. Mas a escala mudou. Hoje, os dados ajudam a filtrar milhares de jogadores, a observação contextualiza o desempenho e a articulação entre clubes permite planear percursos competitivos. Uma rede internacional bem construída pode transformar o recrutamento numa vantagem estratégica. Desde que não confunda quantidade de informação com qualidade de decisão.

Porque o scouting não se resume a encontrar jogadores baratos para vender mais caro. É conhecer as necessidades de cada equipa, antecipar a evolução do plantel, identificar perfis adequados ao modelo de jogo e perceber o momento certo para contratar, desenvolver ou transferir. O talento só se transforma em valor quando encontra um contexto que o faz crescer.

É aqui que surge a primeira grande exigência: cada clube de um grupo deve ter um projeto desportivo próprio. Integrar uma rede internacional não pode significar abdicar de objetivos, identidade ou ambição. Um clube português não deve aceitar tornar-se apenas uma estação de passagem, onde os resultados são secundários e o calendário de valorização dos ativos determina todas as decisões.

Os adeptos não vivem o futebol através de folhas de cálculo. Vivem-no através de vitórias, derrotas, rivalidades, memórias e pertença. A sustentabilidade financeira é indispensável, mas não substitui a competitividade. Um investidor que não compreenda esta realidade pode adquirir uma sociedade desportiva sem conquistar a confiança de quem lhe dá sentido.

Também não devemos romantizar o passado. A história do futebol português mostra que a identidade de um clube não é protegida por uma determinada nacionalidade do acionista. É protegida por decisões responsáveis, por lideranças que prestam contas e por uma estratégia que respeita a sua comunidade. Há maus projetos com capital nacional e podem existir excelentes projetos com capital estrangeiro. O critério deve ser a qualidade da gestão, não o passaporte do investidor.

A segunda exigência é a autonomia operacional. Um grupo pode definir princípios comuns, mas precisa de dirigentes locais com competência e margem real para decidir. Conhecer a competição, os adversários, o mercado e a cultura do clube é tão importante como dominar ferramentas internacionais. Centralizar tudo pode parecer eficiente no papel, mas o futebol continua a ser profundamente contextual. Uma decisão acertada num país pode ser desastrosa noutro.

A terceira exigência é a transparência. Quem investe deve explicar o que pretende: qual é o horizonte temporal, quanto será aplicado em infraestruturas, que papel terá a formação, quais são os objetivos competitivos e como serão tomadas as decisões sobre jogadores. Os clubes não precisam de promessas grandiosas. Precisam de compromissos verificáveis. E os reguladores devem assegurar que a multipropriedade não compromete a integridade das competições.

Há ainda uma oportunidade que Portugal não pode desperdiçar: utilizar estas parcerias para desenvolver pessoas, e não apenas transferir atletas. Um grupo internacional pode abrir portas a treinadores, analistas, fisioterapeutas, responsáveis de formação e diretores desportivos. A circulação de conhecimento deve funcionar nos dois sentidos. Se exportarmos apenas jogadores e importarmos todas as decisões, estaremos a abdicar de uma parte essencial do nosso potencial.

Defendo, por isso, que a avaliação de um investimento não se esgote no montante anunciado. Devemos perguntar quantos recursos ficam no clube, que competências são criadas, que instalações melhoram, como evolui a formação e se a equipa principal se torna mais competitiva. A verdadeira medida do sucesso não pode ser apenas a rentabilidade de uma transferência ou a valorização de uma participação.

O futebol português precisa de deixar de discutir o investimento como se houvesse apenas duas posições: abrir a porta sem reservas ou fechá-la por receio de perder identidade. Existe um caminho mais exigente e mais inteligente. Atrair capital, estabelecer regras claras, profissionalizar estruturas e preservar a capacidade de cada clube construir o seu destino.

A dimensão do nosso país não deve ser vista como uma condenação à dependência. Pode ser uma vantagem. Temos proximidade entre mercados, tradição formadora e capacidade de adaptação. Com visão, podemos tornar-nos parceiros relevantes em redes internacionais sem deixar de ser protagonistas do nosso próprio futebol.

No fim, a pergunta decisiva não será quantos clubes portugueses passaram a integrar grupos internacionais. Será quantos ficaram melhores depois disso: mais organizados, mais competitivos, mais sustentáveis e mais ligados às suas comunidades.

Porque comprar um clube é uma operação financeira. Construir o seu futuro é uma responsabilidade desportiva. E é nessa diferença que se distingue um investidor de um verdadeiro projeto.

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