Lucas Russo vestiu a capa de herói do Fátima na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal
(Foto Paulo Cunha/LUSA)
Lucas Russo vestiu a capa de herói do Fátima na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal (Foto Paulo Cunha/LUSA)

Milagre de Fátima? Se Lucas foi herói no Dia de São Lucas, dá para desconfiar...

Eliminação do Ac. Viseu da Taça teve também explicação terrena; menino da casa marcou o golo de uma vida, clube luta pela manutenção e foi tomba-gigantes com 14 jogadores da formação

No futebol há milagres? Claro que sim. Por vezes podem confundir-se com misticismo, com azar ou sorte, no fundo, com as crenças de cada um, mas, aplicados ao que se passa dentro das quatro linhas, também costumam ter explicação terrena. E o que o Fátima conseguiu este domingo frente ao Académico de Viseu, na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal, é mais um exemplo que os milagres no futebol acontecem.

Afinal, como se explica que uma equipa de baixíssimo orçamento, com clara aposta na formação por questão de custos, e que não pode almejar mais na Série 3 do Campeonato de Portugal do que lutar pela sobrevivência, tenha conseguido tombar uma formação da elite do futebol português, a fazer história depois de quatro vitórias consecutivas no principal escalão? 

«Milagre de Fátima, e muito trabalho!», atira a A BOLA o padre António Pereira, do alto da sabedoria dos 82 anos, presidente do Centro Desportivo de Fátima há mais tempo do que se quer lembrar.

«Fiquei surpreendido, não estava à espera. O Académico estava muito bem, creio que é 6.º na Liga, e nós tínhamos perdido o último jogo diante do último classificado (0-3 frente ao Nazarenos)», confessa.

Não conseguiu estar no jogo, porque o futebol é o futebol e a vida é a vida. O funeral de dois jovens cujas almas foram ceifadas num acidente de mota impediu-o de ir ao estádio. Mas esteve sempre ligado ao jogo.

«Fui acompanhando pelo telemóvel e estava com ele na mão quando de repente apareceu 1-0. Claro, pensei que isto era autêntico milagre. Mas quem viu o jogo contou-me que dentro de campo não houve grandes diferenças entre as duas equipas, foi o que disseram», conta.

Padre António Pereira continua a liderar os destinos do CD Fátima aos 82 anos

«Já não estava a fazer contas a mais uma receita. Se vier um pequeno, temos pernas para continuar a sonhar, se vier um grande, pelo menos não se perde tudo, para termos mais algumas verbas», vinca. O tempo não é de investir, mas há reforços a chegar.

«Serão três, virão de África, e darão mais equilíbrio à equipa, para lutar pela manutenção. A subida não entra nas nossas contas», assegura.

A vitória na Taça de Portugal foi, aliás, a confirmação de que mesmo os caminhos mais sinuosos podem conduzir a grandes destinos. Porque, no golo da vitória, a capa de herói foi vestida, precisamente, por um dos meninos da formação do Fátima. Lucas  Jacinto Oliveira, conhecido por Russo, ponta de lança luso de 21 anos, natural de… Fátima e já com… 16 anos de casa! Começou nos sub-7 e foi escalando a montanha na terra dos peregrinos. 

Por falar de novo em milagres… o que pensar depois de se saber que Lucas foi herói em Fátima no dia 18 de outubro… Sabe que dia é no calendário religioso?  Dia de… São Lucas Evangelista, autor do Evangelho de São Lucas e dos Atos dos Apóstolos. «Foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando soube que o golo foi do Lucas, que é de Fátima, ainda por cima», atesta o padre António Pereira. Há com cada coincidência, não é...?

Nuno Laranjeiro é o diretor desportivo do Fátima há cerca de quatro anos
«Nem dormi depois do Nazarenos… depois foi magia na Taça»

A direção desportiva do CD Fátima está nas mãos de Nuno Laranjeiro vai para quatro anos. O antigo defesa lateral/central que foi formado na UD Leiria e com carreira sénior que passou por lá, mas também por Leixões, Chaves ou o próprio CD Fátima, agora com 43 anos, não viu qualquer intervenção divina no que se passou na eliminatória. «Isto não foi milagre, foi mérito e muito trabalho, quem viu o jogo, viu um jogo equilibrado, tanto podia dar para um lado como para o outro. Tivemos situações claras de golo, o nosso guarda-redes também faz boas defesas e cinco minutos antes do golo o Russo ainda teve uma oportunidade mais clara do que a que deu o golo. Depois, faltavam cinco ou seis minutos de descontos ainda e o Académico não mais foi à nossa baliza», relata. «Não sentimos grande empolgamento do Académico, eles com mais bola, nós com bloco médio/baixo, ganhando bolas e saindo em transições com dois/três toques. Isto só foi possível porque esta malta é jovem mas tem qualidade. O Russo é da nossa formação e na ficha de jogo eram 14 jogadores da formação, isto quer dizer muito. Ter capacidade para os aguentar, apostar neles…», vinca. «Também é questão de mentalidade, no jogo anterior levámos três em casa do último o Nazarenos, nem dormi, e no domingo fazemos um jogo destes, nem parecia a mesma equipa e são os mesmos jogadores. É a magia da Taça, esta envolvência mexe com os miúdos e a questão mental joga muito», junta. Agora «é desfrutar, pensar no Campeonato de Portugal, e, quando vier o sorteio, «logo se vê». Mas há certeza: «Os miúdos mereciam uma equipa grande para desfrutarem do jogo e terem essa experiência.»

A culpa foi de futuro engenheiro mecânico

Quando A BOLA falou com Lucas Russo, autor do golo da vitória sobre o Académico de Viseu, este pediu mais algum tempo, para poder acabar o horário de trabalho. Além de jogar no Fátima, estuda engenharia mecânica em Coimbra e ganha dinheiro a trabalhar num armazém de materiais de construção, porque o futebol ainda não dá e até pode nem vir a dar.

Festa imensa com o golo que carimbou o passaporte para a 4.ª eliminatória da prova rainha

«Estávamos todos no balneário a falar uns com os outros, nem sabíamos bem o que tínhamos feito, festejámos muito, claro, mas não tínhamos ainda noção do feito. Hoje a ficha caiu mais e a palavra que sinto é orgulho. É o meu clube, a minha segunda casa, é orgulho e é gratificante marcar golo tão importante, mas a equipa em primeiro lugar, ganhámos e passámos, estou feliz pelo golo, ainda por cima contra a equpa que era…», relata.

Chegou ao Fátima com cinco anos e nunca mais de lá saiu. A alcunha Russo vem de família, do avô, que também teve ligação ao Fátima, depois do pai, conhecido como Jorge Russo. Três gerações de Russos em Fátima...

Lucas Russo, 21 anos, foi o herói da Taça de Portugal. É de Fátima e joga no clube desde... os cinco anos

«Já tive convites de clubes aqui à volta, mas sempre recusei e deixei de os receber, porque já sabem que gosto é de estar aqui. Próximo sorteio? Não sei, por acaso, como estou em Coimbra, gostava que calhasse a Académica, tenho lá amigos a estudar e era muto fixe, até já me disseram lá que tinham medo de apanhar o Fátima. Era bom, um grande também seria, a visibilidade é outra, mas queremos é jogar em casa, unir os adeptos e a equipa,  Mostrámos que estamos preparados para qualquer desafio», assentou.

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