Joaquim Letria faleceu esta sexta-feira, 16 de outubro - Foto: D. R.
Joaquim Letria faleceu esta sexta-feira, 16 de outubro - Foto: D. R.

Acabei de aterrar em Madrid. Tinha pensado escrever sobre o futebol espanhol, a atractividade da sua liga profissional. Fica para a próxima semana. Porque faleceu o Joaquim Letria.

Quem me conhece, sabe que não sou necrológico, nem das páginas de jornais, nem nas redes sociais. Mas Letria não é um qualquer jornalista. Aliás, ele foi o primeiro, na minha carreira, a demonstrar que era muito mais do que um escriba ou um bem falante.

Relembrar agora Letria é, sobretudo, olhar para um período único da comunicação social portuguesa, em momentos social e politicamente conturbados.

Escrevo aos mais jovens, aos jornalistas cuja memória será menos abrangente e o olhar mais absorvido pela espuma dos dias, pela emergência do falar, mais do que dizer, do contar, mais do que esclarecer.

Porque o jornalismo está, de facto, a atravessar períodos muito complexos. E não se trata, apenas, da emergência da atualidade, da rapidez, das redes, do agora ou nunca. É uma questão ética, deontológica, e que se refere, no essencial, à preparação do jornalista, à sua capacidade de entendimento do real, ao seu momento de definição do que é verdadeiramente importante, e da distinção em relação a tudo o resto.

Em todos estes aspetos, Joaquim Letria era Mestre. Na perceção do essencial, na derivação em relação ao acessório, na confrontação com Cadilhe ou Mário Soares.

Ele (Letria) contou-o em livro: quando o antigo Presidente da República lhe solicitou, antes de uma entrevista de fundo, que não lhe fizesse determinada pergunta… pois foi justamente por essa questão que a entrevista começou.

Entrevistou Cadilhe para uma cadeira vazia. Lançou, tal e qual o jornalismo deve ser defendido, o 'Tal & Qual'. Foi sempre equidistante e independente, mesmo quando foi a França encontrar-se com um dos gurus da comunicação política gaulesa, a propósito do convite para ser porta-voz de Ramalho Eanes.

Os mais jovens devem cultivar a memória de uma História do jornalismo português que não se faz nas secretárias, que não se motiva nos likes, que não se resume aos soundebites, que não resulta, definitivamente, se só pensarmos nas escolhas efémeras.

Esta ideia de um Joaquim Letria que marcou gerações permanece, no sentido ético da profissão. O essencial distinguido do acessório, a capacidade de mostrar um país real, longe da evolução propagada e forçada pelas narrativas políticas, de dar voz aos cidadãos, de com essa voz legitimar a condição mais pura, simples, efetiva e marcante do ser jornalista, é o elemento diferenciador de uma carreira profissional.

Letria sempre o foi. Polémico, distintivo, marcante, desafiante.

E é interessante verificar e testemunhar a evolução do jornalismo português, nos últimos anos, muito por força de dois fatores: a formação académica, na minha opinião deficitária e não efetivamente preparatória dos futuros licenciados para o exercício da profissão, e a não demarcação do jornalismo em relação à emergência das redes, à sua verificação sistemática e à condição de aproveitamento que muitos media e imensos profissionais delas fazem, quantas vezes ao arrepio das mais básicas e elementares bases da profissão.

Tenho — confesso — muitas dificuldades em compreender a adesão de respeitáveis órgãos de comunicação social aos modismos digitais, travestindo notícias, priorizando clickbites em detrimento da seriedade e da verificação prévia das fontes, em duplicado ou em cruzamento triplicado.

Do mesmo modo, não suporto o sensacionalismo para o qual parecem formatados tantos e tantos recém-licenciados, ávidos de ganhar lugares a todo o custo, e incapazes de perceber o que está em causa e como o defender: a credibilidade do jornalismo.

E, neste aspetos, conviria conhecer Joaquim Letria, uma das referências essenciais para se compreender a História e a Memória do jornalismo em Portugal. Sobretudo, no que diz respeito à dignidade, à independência e à equidistância. Valores únicos e sempre suportados pela elementar capacidade de ouvir e escutar, de olhar e ver, de tocar e sentir, de conhecer e perceber.

Hoje, quando soube do passamento físico do Joaquim, percebi que tudo o que escrevesse nesta página teria, forçosamente, a ver com ele, com a sua carreira, com o seu legado.

Faleceu como viveu: discretamente. Tentando inovar, tentando diferenciar, tentando democratizar, tentando humanizar. E é nessa múltipla dimensão, da memória e da consciência, que todos, mas sobretudo todos os jornalistas, o merecemos recordar.

Se o fizermos, estaremos mais próximos de ser melhores, mais justos, mais equilibrados, mais credíveis. Acima disso: mais humanos.

CARTÃO BRANCO

Gosto muito de Roma. Da cidade, da sua história, do modo como convive com o Vaticano. Das suas gentes, da forma como me sinto em casa em qualquer momento e em qualquer recanto da Cidade Eterna. Não me espanta o amor imenso que os tiffosi da AS Roma têm por José Mourinho. Mas o que fizeram, na curva sud do Olímpico, na receção ao Real Madrid, ultrapassa o normal e roça o celestial. Mourinho conseguiu criar, com os adeptos da Roma, uma relação talvez inimaginável à partida. É muito mais do que momentos partilhados entre treinador e adeptos. É umbilical, pessoal e intransmissível. De levar às lágrimas, a homenagem dos tiffosi ao treinador português demonstra que o futebol é muito mais do que um jogo. É a vida. Ela própria, vivida e sentida ao limite.

CARTÃO AMARELO

Sou do tempo em que o hóquei em patins era uma da modalidades mais queridas dos portugueses. Estive no Mundial de San Juan, na Argentina, em 1989, e no de Wuppertal, na Alemanha, em 1997. Conheci os principais protagonistas, heróis, extraordinários praticantes. É constrangedor ver o que se passa com o Mundial no Paraguai. Bancadas vazias, entusiasmo nulo, reflexo direto na dimensão mundial da modalidade, cada vez menor abrangência de algo que, em tempos áureos, enchia pavilhões e mobilizava multidões. É urgente repensar o hóquei em patins, as suas regras, o seu modelo competitivo, sob pena de, dentro de muito pouco tempo, acabar por ser um desporto residual…

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