Já com as mãos no Puskás, coração ficou despedaçado (crónica)
Começamos esta crónica com um excerto de uma carta aberta dirigida aos excelentíssimos senhores da FIFA. «Evitam ter mais trabalho na recolha de dados tendo em vista a atribuição do golo do ano. Vimos por este meio certificar que assistimos ao vivo a um autêntico monumento assinado por Volnei Feltes e cuja beleza (e importância, já agora...) não deixa margem para quaisquer dúvidas: está encontrado o vencedor do prémio Puskás desta temporada.»
Minuto 37: o defesa-central do Torreense arrancou em alta velocidade — como se estivesse a fugir de alguém (e, na verdade, estava) —, acreditou na qualidade técnica que possui, invadiu o último terço ofensivo, desenvencilhou-se (com categoria) da marcação de Jules Ahoka e... aqui vai disto. Um tiro fulminante que só parou no fundo das redes da baliza à guarda de Robin Roefs, com a bola a entrar junto ao ângulo superior esquerdo. Como de diz na gíria futebolística, foi onde dormia a coruja.
Estimado leitor, não tínhamos outra forma de começar esta crónica do que com a descrição (possível, porque a melhor sugestão que, humildemente, podemos dar é a de ver o lance com os seus próprios olhos) da obra de arte assinada por Volnei. Porque, acredite, o monumento edificado pelo brasileiro em Leiria é digno de ser destacado em qualquer galeria de arte à escala planetária.
E não foi por acaso que, em cima, falámos da importância do golo. Afinal, naquela altura, o Torreense agigantava-se e colocava-se em vantagem diante de um clube que compete, tão só, na Premier League. Claro que o Sunderland não é um tubarão, mas joga no principal escalão do futebol inglês. E o emblema do Oeste, com todo o respeito, tem na Liga 2 a sua realidade. É, portanto, um autêntico underdog nesta Liga Europa.
Até ao (acreditamos) momento mais alto da carreira de Volnei, houve, claro, mais Sunderland. Aliás, muito mais Sunderland. Mas também houve mérito do Torreense. Aliás, muito mérito. Porque ao domínio dos britânicos responderam sempre os lusos com uma organização defensiva de nota bastante elevada. Os forasteiros tentavam atrair dentro para esticar nos flancos e colocar bolas na grande área, mas o último reduto dos azuis-grená nunca vacilou.
Mas o conto de fadas da formação de Torres Vedras deixou de o ser na etapa complementar. Com muita crueldade à mistura, diga-se em abono da verdade. O Sunderland fez (muito) por ser feliz, é verdade, mas perder um jogo desta magnitude na compensação é dose para um simples underdog...
A pressão inglesa intensificou-se (e de que maneira) e Jules Ahoka teve cabeça para empatar (68'). O pior, porém, ainda estava por vir: as 90+3', Noah Sadiki atirou sem hipótese de defesa para Lucas Paes e sentenciou a reviravolta.
Imperou a lógica, mas o Torreense caiu de pé. Com honra e dignidade. E ainda faltam seis jogos. Há mais capítulos de história por escrever. O Torreense está bem vivo!
Quem marca um golo como o camisola 4 do Torreense marcou... dificilmente não pontifica neste espaço. Só esse momento, assinado ao minuto 37, dava (larga) vantagem para a distinção, mas, não satisfeito, o defesa-central brasileiro demonstrou sempre uma atenção notável nos posicionamentos, uma acutilância de relevo nos duelos, e uma velocidade considerável na exploração da profundidade defensiva e nas dobras aos companheiros de setor. Todos fizeram muito, Volnei ainda mais.
As notas dos jogadores do Torreense:
Lucas Paes (7), Jonathan Mutombo (5), Mohamed Ali Diadie (6), Volnei (8), Javi Vazquez (6), João Marques (6), Amine (6), Alejandro Alfaro (6), Manu Pozo (5), Malik Abubakari (5), Karem Zoabi (5), David Bruno (6), Stopira (5), Dany Jean (6), Luis Quintero (5) e Musa Drammeh (—).
As notas dos jogadores do Sunderland:
Robin Roefs (6), Trai Hume (5), Luke O'Nien (5), Omar Alderete (6), Dayann Methalie (5), Nilson Angulo (6), Jules Ahoka (8), Noah Sadiki (7), Malick Fofana (5), Chris Rigg (6), Timur Tutierov (6), Nordi Mukiele (6), Reinildo (6), Granit Xhaka (7) e Enzo Le Fée.