Iúri Leitão «feliz», «aliviado» e sem meias palavras no regresso a Portugal
Iúri Leitão regressou a Portugal «extremamente feliz e aliviado» depois de conquistar duas medalhas para a Seleção Nacional nos Campeonatos do Mundo de ciclismo de pista, disputados em Xangai, na China. À chegada ao Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, a meio da tarde desta terça-feira, o corredor de 28 anos fez um balanço de uma semana exigente, marcada pelo ouro na prova de omnium e pela prata no madison, conquistada ao lado de Ivo Oliveira.
Acompanhado por Maria Martins, medalha de bronze na prova de scratch, e Diogo Narciso, Iúri Leitão foi a principal figura na chegada de parte da comitiva portuguesa, um dia depois do previsto. Constrangimentos na ligação aérea entre Xangai e Frankfurt obrigaram os atletas a pernoitar na cidade alemã antes de prosseguirem viagem para Lisboa.
«Foi o alívio de todo o trabalho desenvolvido», começou por afirmar o novo campeão mundial de omnium, explicando o significado especial desta conquista, depois de três anos sem conseguir estar na discussão do título mundial.
«Há três anos que eu não tinha hipótese de estar na discussão do campeonato do mundo, em cada ano por circunstâncias diferentes e, claro, por vezes podemos começar a pensar que nunca mais se pode repetir, porque é realmente muito difícil chegar ao topo, especialmente na prova de omnium. Fico extremamente feliz e aliviado por todo o trabalho ter dado resultado», confessou.
Problema muscular chegou a colocar participação em dúvida
A conquista do título mundial teve um grau de dificuldade acrescido devido a um problema físico que condicionou a preparação do corredor português. Depois de, na sequência da vitória, ter admitido que atravessara uma semana difícil, Iúri Leitão esclareceu agora a situação que o preocupou antes de entrar em competição.
«Tive um pequeno problema muscular que acabou por ser complicado debelar. Essa situação acabou por envolver a comitiva, mas acho que toda a gente esteve do meu lado, toda a gente soube lidar com isso psicologicamente», revelou.
O ciclista destacou a união da equipa técnica e o acompanhamento clínico que lhe permitiram recuperar a tempo de competir, admitindo que a sua presença chegou a estar em dúvida.
«Estivemos sempre muito unidos, tanto o professor Gabriel [Mendes, selecionador nacional], como todo o staff. Os nossos terapeutas fizeram tudo para que eu pudesse recuperar a tempo. De facto, houve certas dúvidas de que eu pudesse competir. O nosso médico também foi impecável comigo e, no final das contas, foi possível competir», acrescentou.
A resposta acabou por superar as dificuldades. Na prova de omnium, composta por quatro disciplinas - scratch, corrida de tempo, eliminação e corrida por pontos -, Iúri Leitão conquistou o ouro mundial. No dia seguinte, voltou a subir ao pódio, desta vez para receber a medalha de prata no madison, ao lado de Ivo Oliveira, irmão de Rui Oliveira, com quem conquistara o ouro olímpico em Paris, em 2024.
Los Angeles 2028 sem metas antecipadas
Depois de juntar o título mundial ao ouro olímpico conquistado há dois anos, Iúri Leitão prefere manter os pés assentes no chão quando questionado sobre os próximos Jogos Olímpicos, agendados para 2028, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
O corredor português recusou estabelecer objetivos classificativos antecipados, lembrando que o rendimento depende tanto da preparação individual como da evolução dos adversários.
«Cada preparação é uma preparação, dependemos da nossa e também da preparação alheia. É difícil nós sairmos de casa e dizermos que vamos fazer determinado lugar, porque não sabemos onde nos encontramos na tabela classificativa, comparando com os nossos adversários», explicou.
A cautela não retira dimensão aos feitos alcançados, mas reflete a consciência de que a continuidade ao mais alto nível exige trabalho, capacidade de adaptação e uma preparação rigorosa.
Ciclismo de pista precisa de tempo e investimento
As duas medalhas conquistadas na China voltaram a colocar o ciclismo de pista português em destaque, mas Iúri Leitão reconhece que a modalidade ainda tem caminho a percorrer para alcançar a projeção e a tradição do ciclismo de estrada em Portugal.
«Obviamente, o ciclismo de pista é extremamente recente, comparado com toda a história que nós temos de décadas de mais de um século de ciclismo em Portugal. É difícil, em 15 anos, equiparar o ciclismo de estrada, embora os resultados tenham ajudado a que isso aconteça», observou.
Para o campeão mundial, a evolução depende de um processo gradual, no qual os resultados desportivos podem contribuir para aumentar a visibilidade e consolidar o investimento na modalidade.
Quanto ao futuro, Iúri Leitão deixou uma mensagem clara: o talento existe, mas é necessário continuar a criar condições para o desenvolver.
«O futuro nunca está garantido enquanto não continuarmos a apostar nele. Não basta só dizer que o futuro está garantido, e depois não fazer nada para que isso aconteça. Ciclistas não nos faltam. Falta só continuar a trabalhar, continuar a investir. Se isso acontecer, não vai ser por falta de corredores que o futuro não estará garantido», afirmou.
Condições melhoram, mas ainda estão longe do topo mundial
Questionado sobre se as condições de treino e preparação estão à altura da qualidade dos atletas portugueses, o ciclista reconheceu que ainda existe uma diferença entre a excelência desportiva alcançada e os meios disponíveis.
«É difícil que elas cheguem à nossa qualidade, porque nós estamos no topo do mundo e as nossas condições não são as do topo do mundo», admitiu.
Ainda assim, Iúri Leitão fez questão de reconhecer os progressos registados nos últimos anos, sublinhando o esforço desenvolvido para melhorar as condições de trabalho da seleção.
«Felizmente, elas têm sido melhoradas ano após ano e não nos podemos queixar de falta de esforço. Ano após ano, temos vindo a ter cada vez mais condições. Enquanto isso for assim, não nos podemos queixar», concluiu.