Lionel Messi despediu-se da seleção argentina no Monumental, em Buenos Aires - Foto: IMAGO
Lionel Messi despediu-se da seleção argentina no Monumental, em Buenos Aires - Foto: IMAGO

O Monumental em silêncio.

Na Argentina, um estádio calado parece um erro. Falta qualquer coisa. Um tambor. Uma garganta. Um homem pendurado nas redes. Um pai que ergue o filho recém-nascido nos braços. Mas nesta noite o silêncio tem gente dentro. Tem dor. Tem nostalgia. Tem milhares de lágrimas prontas a saltar da cara, à espera de um gesto que lhes dê licença.

E ali está Messi. Pela última vez.

Há cânticos. Há aplausos. Há um último golo. Quando chega a hora de o ouvir, porém, o Monumental parece uma casa onde alguém acaba de anunciar que vai embora. Ninguém sabe onde pôr as mãos. Ninguém quer ser o primeiro a mexer na cadeira. Basta um ruído para tornar o último tango numa dança demasiado rápida. Acaba quando o árbitro pergunta ao ator principal se pode terminar. É aí que tudo bate mais forte.

Messi segura o microfone. A bola parece-lhe sempre mais fácil. Com a bola pode inventar uma saída. Encontrar uma passagem entre dois corpos. Dar mais um toque. Ali, cada palavra aproxima-se do fim. Diz que gostaria de voltar durante toda a vida. Chama à despedida o dia mais triste da carreira. E admite que não quer deixar o campo.

Um homem que passa a vida a fintar tudo e todos. Um homem que sabe, sente, pensa que este é o momento. E, mesmo assim, naquele instante, esse homem fica preso.

Durante muitos anos, a Argentina é o lugar onde Messi chega e parece faltar sempre alguma coisa. Onde parece que o culpam por ter saído em criança para a Catalunha. Onde o seu distanciamento do país, a sua forma mais introspetiva de estar, choca totalmente com aquilo a que os argentinos se habituaram em relação a Maradona.

Ganha o Mundial de sub-20, em 2005. O ouro olímpico, em 2008. Depois vêm as finais que se transformam em quartos vazios. Brasil, na Copa América de 2007. Alemanha, no Mundial de 2014. Chile, em 2015. Chile, outra vez, em 2016. Quatro finais. Quatro maneiras de regressar a casa com as mãos vazias.

O futebol dá-lhe quase tudo.

Ele dá muito de volta. Mas o seu país continua a pedir-lhe a única coisa que Messi não consegue entregar. Um homem pode ser o melhor do mundo e mesmo assim sentir-se impotente para travar a tristeza e a fúria dos seus.

Nessa final de 2016, falha um penálti e violentamente criticado por parte de uma nação que nesse momento se polariza, com muitos a olharem para ele como um estrangeiro no próprio país. Perante este cenário de extremos, anuncia a saída da seleção. Já não aguenta. Também os génios têm um limite. Também se sentam no chão. Também confundem o fim de uma noite com o fim de tudo.

Regressa ainda nesse ano. E depois, em 2018... Scaloni.

O novo treinador é uma escolha altamente criticada por aqueles que agora o endeusam na Argentina. Mas traz algo diferente. Não começa pela tática, pelo estilo, pela ideia de jogo. Começa pelo coração. E transmite esse sentimento puro a Messi.

Onde havia peso, saturação e frustração, passa a estar um artista de alma leve. A admiração, respeito e carinho que os colegas de equipa passam a sentir por ele só encontram paralelo na forma como ele também retribui.

Nunca se comporta como alguém mais importante. Nunca concorda com quem diz que os colegas não lhe chegam aos calcanhares. A sua maneira de estar recusa essa distância. O talento dá-lhe soluções que os outros não têm. Não lhe dá o direito de os diminuir.

Em 2021, no Maracanã, chega a Copa América. E em 2022, finalmente, o Mundial. Os deuses do futebol a serem justos com um dos seus maiores milagres. Em 2024, outra Copa América. O rapaz das finais perdidas aprende o peso dos troféus. Em 2026, volta à final do Mundial. Com 39 anos. Perde, e perde bem, contra a Espanha. Mas a história está escrita. Sem precisar de nova vitória.

Voltamos ao Monumental. Ao seu silêncio ensurdecedor.

Na despedida, Messi fala dos colegas. Diz que aquele grupo lhe realiza o sonho de criança. Agradece-lhes. Pede que continuem unidos. Pede aos adeptos que estejam com eles quando vierem os dias difíceis. Conhece esses dias. Conhece a facilidade com que o amor das bancadas muda de nome se a bola não entra.

Os colegas ali. Ao lado dele. Alguns, como Enzo Fernández, a chorar como crianças. E Messi está ao lado deles. Nem acima, nem abaixo. Ao lado. Aqueles homens são a sua equipa. Merecem sempre uma palavra. Especialmente nos momentos difíceis. Um abraço quando falham. Messi amadurece também aí. Percebe que a grandeza pode caber numa relação de igualdade. Que um capitão pode ser extraordinário sem obrigar os outros a sentirem-se pequenos.

Por isso choram. Perdem o homem a quem podem entregar a bola quando tudo se fecha. Perdem também uma presença no pequeno mundo do balneário. Alguém que os defende, que os sente. Perdem um líder, sim. E antes de tudo isso, perdem um amigo que por mais que sofra de fora, por mais que mantenha o contacto, deixou de estar ali todos os dias para os ajudar e inspirar.

A despedida de Messi da seleção argentina não é apenas a merecida homenagem a um dos maiores artistas da história do futebol. Mais importante do que isso: é a celebração de alguém que soube amadurecer dentro de campo. Que consegue deixar a imagem de uma pessoa como as outras. Uma boa pessoa. Simples nos gestos. Genial no ofício.

O Monumental continua em silêncio. Como se ficar calado fosse uma forma de lhe guardar o lugar na equipa. Para sempre.

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