«Ganhar a um clube gigante consolidou o Alverca»
— Qual é a memória mais antiga que tem do futebol?
— Tenho muitas memórias de jogar muitas vezes como criança. Fiz futebol de formação no Odivelas Futebol Clube. Tenho de forma muito clara na minha cabeça o meu primeiro golo e o meu primeiro jogo.
— Era avançado?
— Não, era médio defensivo ou central. Quando fui para as captações no Odivelas, no primeiro ano de infantil, cheguei lá e disse que queria ser avançado. Não tinha a qualidade para isso e rapidamente me ajustaram primeiro a defesa central e depois mais tarde a médio defensivo. Eu, até por uma questão familiar, que o banco onde o nosso saldo deve ser maior é o banco das memórias. Sempre fui um amante de futebol desde muito cedo, passava a vida a jogar à bola em casa, parti imensas coisas em casa à minha mãe. Infelizmente não fiz uma carreira de futebol que compensasse o estrago, mas tenho memórias ótimas enquanto praticante e enquanto amante deste jogo.
— Como começou a ligação profissional ao futebol?
— Eu trabalhava num escritório de advogados em Lisboa chamado PLMJ, que não tinha uma equipa estruturada de Direito Desportivo, mas tinha um conjunto de pessoas que eram interessadas por Direito Desportivo e que se foram formando ou especializando nessa área. Eu fui uma delas. Na altura, o CEO da PLMJ na altura, o Dr. Manuel Santos Vítor teve uma conversa comigo porque me via muito interessado nisto, no fundo quase a inclinar-me para eu me especializar na área. E foi assim que fomos começando: a tratar primeiro de pequenas transferências, depois de alguns contratos de patrocínio, depois da própria gestão de toda a vida associada àquilo que é a carreira de um jogador, os seus negócios privados, as suas aquisições de casas. Fomos entrando na esfera privada de um ou outro jogador ou outro agente e depois isto é como um novelo, que começam a vir uns atrás de outros. Fui fazendo o meu caminho até depois saltar para um clube de futebol, onde estive quatro anos como advogado.
— No Sporting.
— Estive quatro anos no Sporting como advogado, entre 2019 e 2023. Aprendi imenso lá, por muitas bases que já tivesse de fora, trabalhar como advogado dentro de um clube ajuda muito nessa especialização em Direito Desportivo, em particular se for um clube grande, porque aí então vai-se acabar por tratar de tudo. E depois saí do Sporting para outro escritório de advogados também muito grande, a TELLES. Fi-lo no contexto da ida de um jogador para a Arábia Saudita, que nos abriu esse mercado e que suscitou à TELLES a necessidade de ter alguém especializado nessa área. E depois vim para o Alverca na sequência da aquisição da maioria de capital pelos novos investidores. Mas no fundo este é o resumo do meu trajeto em Direito Desportivo: quase 10 anos na PLMJ, quatro anos no Sporting e quase dois anos na TELLES.
— Qual foi o jogo do Alverca que lhe deu mais gozo de assistir na última época?
— O meu jogo preferido é a nossa vitória (2-0) sobre o Vitória de Guimarães em casa, que é no dia 28 de setembro, o dia de anos da minha filha. Acho que é o jogo que nos consolida como uma equipa nesses quatro, cinco lugares acima da zona dos aflitos. Mas é uma vitória contra um clube que eu considero gigante. Jogámos muito tempo com menos um, fazemos o 2-0 no último lance do jogo e a casa veio completamente abaixo. O momento foi icónico, foi sofrido, foi tenso, mas é o momento em que o Alverca diz: "Estamos cá e vão e vão ter de contar connosco”. Para efeitos classificativos, ainda assim, eu acho que o verdadeiro pontapé no balde é a sequência de vitórias com o Famalicão na última jornada da primeira volta e a vitória sobre o Moreirense na primeira jornada da segunda volta. Dois jogos seguidos em casa, duas vitórias, que nos colocam no início da segunda volta numa pontuação que não sendo tranquila já nos dava espaço para respirarmos melhor e para pensarmos que dali para a frente pontuando aqui ou ali nós íamos conseguir o nosso objetivo.
— Qual foi a maior lição que já aprendeu neste percurso?
— Não sei dar-lhe uma resposta óbvia a isso. Eu fui aprendendo muita coisa. Nós temos uma estrutura muito aberta dentro do Alverca: não só a comunicação é muito fluida, a troca de ideias existe e, portanto, eu acho que nós vamos todos aprendendo muito uns com os outros. Obviamente a experiência do Pedro Alves, para mim, foi muito útil ao longo da temporada, é uma pessoa que já está no futebol profissional há muitos anos. Aprendi muito com ele, gosto de achar que ele também aprendeu algumas coisas comigo. Mas acima de tudo há esta capacidade de pensarmos em conjunto e se calhar é a maior lição que nós retiramos deste ano é esta abertura que nós tivemos sempre para pensarmos em conjunto, para ouvirmos as opiniões uns dos outros. Eu disse-lhe que trabalhei na PLMJ quase 10 anos. O "J" é de Júdice, do Dr. José Miguel Júdice, ele dizia muitas vezes que, as vezes em que se enganava mais vezes era precisamente naquelas em que achava que sabia. E é uma lição que eu transporto para a vida e que eu vi acontecer no Alverca: nós estivemos sempre abertos para pensar em conjunto, para não irmos no automático achando que já sabíamos. Fizemos isso, o desafio é continuar a fazer e eu acredito que nós vamos estar preparados para mais uma época difícil, para conseguir a manutenção e depois logo se vê.