FC Porto: um dragão bicéfalo sem plano alternativo
Não há forma de escamotear que este dragão de Francesco Farioli tem duas cabeças: uma tem dado mostras de grande autoridade na Liga portuguesa, com oito jornadas realizadas e outras tantas vitórias conquistadas; a outra, surpreendente e à vista desarmada, é de uma equipa francamente antagónica daquela do plano interno e que passou por mais um vexame, desta feita na receção ao PSV, em que teve novamente uma postura ultradefensiva, sem chama, descaracterizada em campo e que faz, de certa forma, soar os alarmes.
O treinador do FC Porto recusa qualquer cenário de crise e puxa mesmo dos galões ao apontar para a liderança isolada no campeonato português, mas, com esse argumento, o técnico italiano parece não perceber muito bem os pergaminhos que o clube por si comandado tem na prova mais mediática sob a égide da UEFA, o que deixa os adeptos à beira de um autêntico ataque de nervos.
Os dragões já tinham evidenciado sinais preocupantes com o Manchester City e o Betis, mas perante o campeão neerlandês deram lugar a um verdadeiro descalabro em pleno relvado, perante o olhar atónito e indignado de milhares de portistas.
O rendimento na Liga dos Campeões tem colocado em evidência as dificuldades na aplicação das ideias de Farioli no patamar europeu, sendo identificados quatro fatores decisivos para essa quebra de eficácia em relação ao contexto nacional. O primeiro ponto prende-se com a dimensão física. Sendo uma das qualidades mais marcantes da equipa, a superioridade atlética acaba por ser neutralizada e significativamente reduzida quando o nível competitivo sobe na prova milionária.
Em segundo lugar, a opção por defender em bloco demasiado baixo à espera do deslize contrário mostra debilidades na Europa. Em Portugal, a estratégia tem sucesso devido aos erros constantes dos adversários e à insistência em cruzamentos para a área, facilmente resolvidos por Bednarek e Kiwior. Contudo, na Champions, os oponentes demonstram qualidade e à-vontade com bola, tornando ineficaz a recuperação sem uma atitude abertamente ativa.
A pressão alta surge como terceiro elemento de análise. Ainda que os posicionamentos e referências estejam bem definidos, a capacidade técnica dos rivais europeus permite-lhes ultrapassar a primeira linha de oposição com facilidade, um cenário raro no campeonato.
Por fim, a precipitação com bola nas fases de organização e transição ofensiva tem condicionado o jogo, com uma constante urgência em chegar à baliza rival. A este nível torna-se imperativo gerir os ritmos e ter paciência para controlar as investidas, doseando o esforço em vez de desgastar energia em vão ao longo dos 90 minutos. O duelo com o PSV espelhou essa realidade, com Froholdt a passar por muitas dificuldades de controlo perante um adversário que vinha de apenas 72 horas de descanso.
Perante a necessidade urgente de corrigir estes aspetos, cabe ao timoneiro portista assumir a liderança desse processo de melhoria, com a exigência imediata virada para a conquista dos três pontos na deslocação a Barcelos...
Igualado o pior arranque
Se Francesco Farioli tem pulverizado vários recordes positivos a nível interno, já no plano europeu as coisas diferem. Com a derrota frente ao PSV, o treinador italiano igualou o pior arranque de sempre do clube numa fase de grupos/liga em provas UEFA, até agora pertencente apenas a António Oliveira em 1997/98, mas com duas diferença a favor do português, pois com as mesmas três derrotas sofreu menos golos (5 vs 6) e perdeu 1/3 jogos em casa (vs 2/3 na campanha em curso). Em 1997/98 com Oliveira registaram-se derrotas com o Olympiacos (1-0), Real Madrid (2-0) e Rosenborg (2-0).
Esta época, no regresso à competição mais desejada de clubes na Europa, Farioli soma derrotas com o Manchester City (2-0), Betis (3-2) e agora com o PSV (1-0). Nada está perdido no que concerne à possibilidade de os campeões portugueses conseguirem marcar presença na fase a eliminar da Champions, mas qualquer resultado que não seja uma vitória sobre o Nápoles deita tudo a perder...