André Villas-Boas assenta a gestão do FC Porto em três fatores fundamentais. Foto Miguel Nunes
André Villas-Boas assenta a gestão do FC Porto em três fatores fundamentais. Foto Miguel Nunes
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FC Porto: sucesso desportivo e estabilidade financeira

#minuto 92 é um espaço de opinião quinzenal da responsabilidade de Ricardo Gonçalves Cerqueira, jurista, gestor de empresas e sócio do FC Porto

A época 2025/26 ficará marcada na história recente do FC Porto por um conjunto de conquistas que confirmam a dimensão desportiva do clube e a capacidade de conciliar ambição competitiva com responsabilidade financeira. A comemoração do 31.º título de campeão nacional de futebol, o pleno de títulos nos escalões de formação e a subida da equipa feminina à primeira divisão constituem marcos relevantes de uma temporada pautada pelo sucesso desportivo e pelo cumprimento integral das regras de sustentabilidade financeira da UEFA.

No plano económico, o exercício financeiro de 2025/26 apresentou indicadores de crescimento significativos. Os proveitos operacionais aumentaram 13%, correspondendo a mais 17,8 milhões de euros, com evolução positiva em todas as principais fontes de receita: prémios da UEFA (+39%), merchandising (+31%), bilhética (+33%), hospitalidade corporativa (+9%) e publicidade (+8%). A estes resultados juntam-se um novo recorde de lugares anuais vendidos e um crescimento expressivo da média de espectadores no Estádio do Dragão, sinais da mobilização e do envolvimento dos adeptos e da capacidade do clube para incrementar as suas receitas operacionais.

O aumento dos custos operacionais deve ser analisado à luz das opções estratégicas assumidas ao longo da época, sendo que o seu crescimento ficou a dever-se, essencialmente, ao forte investimento no plantel da equipa profissional e ao maior número de jogos organizados no Estádio do Dragão, fatores diretamente associados à evolução da atividade desportiva.

Sinal + I - Vítor Matos

Vítor Matos, treinador do Swansea, do Championship inglês, continua a demonstrar que a competência e a capacidade de liderança não têm idade. Com 9 jogos disputados, a equipa do País de Gales, soma 20 pontos em resultado de 6 vitórias, 2 empates e somente 1 derrota, o que lhe vale a liderança do campeonato.

A política de reforço do investimento no plantel principal teve uma expressão particularmente significativa no mercado de verão de 2025/26, período em que o FC Porto colocou cerca de 110 milhões de euros em aquisições, o maior montante de sempre registado numa única janela de transferências. Considerando ainda as operações realizadas no mercado de inverno, o investimento em aquisições definitivas ao longo da temporada aproximou-se dos 120 milhões de euros. Valores que traduzem uma aposta clara no reforço da capacidade competitiva da equipa e a ambição de reunir todas as condições necessárias para devolver os títulos que nos escapavam.

Esta opção de gestão teve igualmente impactos ao nível das transferências de jogadores. O resultado obtido com as cedências de passes fixou-se nos 56 milhões de euros, abaixo da média dos últimos anos. Esta diferença decorre da decisão de preservar os principais ativos desportivos do plantel. Mais do que maximizar receitas imediatas através da saída dos principais protagonistas, o clube privilegiou a continuidade dos atletas considerados fundamentais para manter em alta a competitividade da equipa.

Paralelamente, o exercício beneficiou de operações relevantes no plano empresarial. A alienação da subsidiária Porto Seguro ao grupo MDS gerou uma mais-valia de 9,2 milhões de euros. Acresce o cumprimento integral, em 2025/26, do Earn-Out associado ao EBITDA da bilhética, no valor de 15 milhões de euros, no âmbito da alienação da Porto StadCo, S.A., à Ithaka, concretizada em 2024. Com esta componente, o valor relativo à alienação de 30% da Porto StadCo atingiu os 80 milhões de euros.

O resultado líquido do exercício foi, contudo, negativo em 21,1 milhões de euros, enquanto o resultado atribuível aos detentores de capital da empresa-mãe apresentou um valor negativo de 26,3 milhões de euros, por comparação com os 39,2 milhões de euros positivos registados no exercício anterior. Para compreender estes resultados, importa ter presente a participação na UEFA Europa League, que resulta num impacto financeiro substancialmente inferior ao de competir na UEFA Champions League, e a opção de manter os principais elementos do plantel, num contexto em que os resultados com transações de passes de jogadores se fixaram nos 56 milhões de euros.

Ainda assim, a análise financeira não deve limitar-se a um único exercício. Consideradas em conjunto, as épocas 2024/25 e 2025/26 registaram um resultado líquido acumulado positivo em 12,5 milhões de euros. Este dado assume particular relevância por se tratar de duas temporadas em que o FC Porto não participou na Liga dos Campeões, contexto que reforça a importância de avaliar os resultados numa perspetiva plurianual.

Outro indicador relevante diz respeito à evolução do endividamento. No último exercício, a dívida financeira líquida diminuiu 29 milhões de euros face ao valor apresentado em 30 de junho de 2025. Simultaneamente, a dívida passou a estar estruturada em prazos mais longos e com um custo médio inferior. A redução do endividamento, acompanhada pela melhoria das condições de financiamento, constitui um elemento importante na avaliação da solidez financeira e da capacidade de gestão da SAD.

A estratégia de valorização desportiva manteve-se no mercado de verão de 2026, com o FC Porto a assegurar a continuidade dos principais protagonistas da campanha anterior e a reforçar a aposta para a época 2026/27. Esta decisão refletiu-se também no valor de mercado do plantel principal, que ascendeu a 471 milhões de euros, face aos 392 milhões registados no exercício anterior. Trata-se do valor mais elevado de sempre do plantel portista e do valor mais alto da Liga Portugal.

Sinal + II - Abel e Leonardo

Leonardo Jardim e Abel Ferreira. Separados por um ponto, disputam a liderança da Série A Brasileira. Um dos dois será, muito provavelmente, o próximo campeão em título. Muito trabalho, talento e competência de dois treinadores portugueses que continuam a marcar uma época de sucesso do outro lado do Atlântico.

Os dados apresentados permitem, assim, identificar uma orientação assente em três eixos fundamentais: a ambição desportiva, o crescimento das receitas e a gestão financeira responsável. A manutenção das principais figuras do plantel principal, o reforço do investimento na aquisição de atletas que acrescentam valor à equipa, a evolução positiva das receitas operacionais e a redução da dívida financeira líquida são elementos que devem ser considerados em conjunto na avaliação do percurso do FC Porto.

Num contexto em que o clube procura afirmar a sua competitividade sem comprometer a sustentabilidade financeira, o desafio passa por consolidar os resultados alcançados, continuar a valorizar os seus ativos e assegurar que o investimento desportivo se traduz em condições para manter o FC Porto na liderança do futebol português. A conjugação entre sucesso desportivo, capacidade de gerar receitas e disciplina financeira será determinante para sustentar essa ambição.

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