Espanha reforçou o apoio às mulheres no desporto com €700 mil - Foto: IMAGO
Espanha reforçou o apoio às mulheres no desporto com €700 mil - Foto: IMAGO

Há uma pergunta que me ocorre sempre que vejo anunciar mais uma medida para promover a igualdade das mulheres no desporto: quando é que deixaremos de precisar delas?

Não é uma pergunta contra as medidas. É exatamente o contrário.

Em Espanha, o Conselho Superior do Desporto decidiu reforçar o apoio às mulheres no desporto com 700 mil euros. Há dinheiro para gravidez, pós-parto, recuperação física, acompanhamento psicológico, nutrição, fisioterapia e regresso progressivo à competição. Tudo isto parece óbvio. E talvez seja esse o problema. Porque se uma atleta engravida, dá à luz e precisa de ajuda para regressar ao seu trabalho, por que razão isso ainda é apresentado como uma política especial para mulheres?

Durante décadas, o desporto profissional foi desenhado para um corpo masculino e para uma vida sem interrupções. Treinar. Competir. Recuperar. Voltar a treinar.

A gravidez não cabia no calendário e a maternidade muito menos. As mulheres entraram nesse sistema e foram elas que tiveram de se adaptar. Agora, felizmente, começamos a perceber que talvez estivesse tudo ao contrário. O sistema é que tem de se adaptar.

Mas há aqui uma linha vermelha que não deveríamos pisar. Igualdade não é criar um mundo em que as mulheres precisam eternamente de medidas especiais. É criar um mundo em que essas medidas deixam de ser necessárias. É por isso que também olho com alguma desconfiança para a palavra quota.

As quotas podem ser fundamentais para abrir portas que estiveram fechadas durante demasiado tempo, podem obrigar instituições a olhar para mulheres que nunca chegariam às salas onde se decide. Claro que podem corrigir uma desigualdade que o chamado mérito, sozinho, nunca corrigiu e isso é bom. Mas uma quota não pode ser a solução.

Porque não quero chegar a uma federação e saber que determinada mulher está ali porque era necessário preencher uma percentagem. Quero saber que está ali porque era a pessoa certa. O mesmo acontece com os apoios à maternidade. Precisamos deles, sim, mas o verdadeiro sucesso será o dia em que uma atleta não precise de ser extraordinária por ter sido mãe.

Quando Espanha anunciou apoios à congelação de óvulos para futebolistas, Ana Peleteiro questionou a forma como a medida estava a ser apresentada. Não porque fosse contra ajudar as mulheres, mas porque recusou a ideia de que congelar os óvulos pudesse ser vendido como uma solução feminista.

E tem razão porque há uma diferença entre dar a escolha a uma mulher e dizer-lhe que deve adiar a maternidade para proteger a carreira. Se a solução for essa, estamos apenas a mudar a forma do problema.

Antes dizíamos às mulheres que não podiam ser mães se queriam chegar ao topo. Agora corremos o risco de lhes dizer que podem ser mães, desde que organizem a biologia à volta da carreira.

O desafio é fazer com que uma mulher possa ser atleta e mãe sem que nenhuma das duas palavras precise de uma explicação. Que possa parar. Que possa voltar. Que possa perder rendimento durante algum tempo. Que possa recuperar. E que ninguém lhe pergunte, no regresso, se ainda é a mesma!

As mulheres continuam a ter de provar demasiadas coisas.

Que merecem estar. Que conseguem competir. Que conseguem ser mães. Que conseguem ir. Que conseguem voltar. Que conseguem liderar. Que conseguem conciliar.

Os 700 mil euros espanhóis são uma boa notícia. Mas não podemos ficar satisfeitos. Devíamos querer mais. Não mais dinheiro. Não mais quotas. Não mais programas especiais. Mais normalidade.

O dia em que uma mulher puder ser presidente de uma federação sem que se fale primeiro de igualdade de género será um bom dia.

O dia em que uma atleta regressar depois da maternidade sem que o seu regresso seja tratado como um feito extraordinário será um dia melhor.

E o dia em que já não for necessário criar quotas para garantir que as mulheres estão onde sempre deveriam ter podido estar será, finalmente, o dia em que poderemos dizer que a igualdade deixou de ser uma política. Passou a ser normal e podemos dizer que acabaram as quotas.

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