Porque não está Portugal no top-5? Foto A Bola
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De exportadores de talento a campeonato desvalorizado

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Francisco Batista, vereador do Desporto na Câmara Municipal de Odivelas

Agora que as competições europeias já arrancaram, a Primeira Liga está a todo o vapor e já vivemos um daqueles clássicos em que a paixão tantas vezes fala mais alto do que a razão, talvez seja este o momento certo para olhar para lá do próximo jogo e pensar no futuro do futebol português.

Portugal é uma das maiores potências mundiais na formação e exportação de talento futebolístico. Exportamos jogadores, treinadores, dirigentes e especialistas de scouting para os principais palcos internacionais, mas continuamos sem transformar essa excelência individual numa valorização coletiva da nossa Liga — uma das maiores contradições do futebol português.

Os exemplos são claros. O recente vencedor da UEFA Champions League contava com quatro portugueses: Nuno Mendes, Vitinha, João Neves e Gonçalo Ramos. O Manchester City contava com Bernardo Silva e Rúben Dias como referências, Bruno Fernandes é capitão do Manchester United e recordista em assistências nessa liga, Pedro Neto e Geovany Quenda representam o Chelsea. Cristiano Ronaldo continua a ser um fenómeno global no Al-Nassr e João Félix mantém projeção internacional. Portugal é, de facto, uma fábrica de talento.

Mas não exportamos apenas jogadores. José Mourinho construiu uma carreira histórica nas maiores ligas, Jorge Jesus venceu em Portugal, no Brasil e no Médio Oriente, Abel Ferreira tornou-se símbolo de sucesso no Palmeiras e Carlos Queiroz mantém prestígio no futebol de seleções. Rúben Amorim chegou à Premier League e à Serie A após revolucionar o Sporting e nomes como Paulo Fonseca, Leonardo Jardim, Vítor Pereira, Marco Silva e Nuno Espírito Santo confirmam a qualidade da escola portuguesa de treino.

Também na gestão e no scouting surgem referências: José Boto no Flamengo, Luís Campos com passagens por Lille e PSG, Hugo Viana contratado pelo Manchester City, Pedro Ferreira no Nottingham Forest e Paulo Araújo com percurso entre Barcelona e FC Porto.

Perante este cenário, a questão é inevitável: por que não está Portugal no top-5 do ranking UEFA? A resposta não reside apenas na dimensão económica, mas sobretudo na forma como tratamos o nosso produto.

O futebol português vive num clima constante de suspeição. Jornada após jornada, multiplicam-se comunicados, conferências e debates centrados em arbitragens e alegadas influências. Em vez de promovermos a competitividade da Liga, promovemos a desconfiança. E nenhum produto cresce quando os seus próprios protagonistas insistem em desvalorizá-lo.

As consequências são claras. Uma Liga cuja credibilidade é posta em causa, perde valor junto de investidores, patrocinadores e operadores televisivos. Com menos receitas, os clubes são forçados a vender cedo os seus melhores jogadores. Pelo contrário, uma Liga mais valorizada permitiria reter talento, aumentar a competitividade europeia e somar mais pontos no ranking UEFA.

As principais ligas europeias perceberam que a valorização coletiva é essencial. Em Inglaterra, Espanha ou Alemanha há rivalidade, mas raramente se coloca em causa a legitimidade das competições.

Portugal precisa de mudar esta cultura. Defender o futebol português não é abdicar da rivalidade, é perceber que uma Liga mais forte beneficia todos. Temos talento para estar entre os melhores, mas falta-nos muitas vezes a capacidade de proteger e valorizar aquilo que é nosso. Talvez tenha chegado o momento de Portugal, além de convencer o Mundo, começar também a convencer-se a si próprio.

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