Cristiano Ronaldo: o privilégio maior
Cristiano Ronaldo lá falou, «a seu tempo». Não encarou os jornalistas, como Jorge Jesus, mas fez passar um comunicado, seis dias depois de ter abandonado o estágio da Seleção Nacional. Nos dias anteriores falaram muitas pessoas pelo capitão de Portugal, mas também por JJ, para reforçar aquilo que o selecionador ia dizendo e acrescentar aquilo que o técnico não podia transmitir publicamente.
Já percebemos que a diferença entre as duas versões resume-se a semântica, ou pelo menos ao entendimento daquilo que é (ou não) uma promessa, mas o comunicado de Cristiano, por mais sincero que possa ser, não prestou um bom serviço a quem o assinou.
Depois de ter agravado o primeiro erro com outro bem maior, o capitão da Seleção pediu desculpa, assumiu a agravante de ser o capitão a abandonar a equipa, e mostrou-se disponível para voltar, mas perante a «absoluta quebra de confiança na palavra do Selecionador» é inimaginável que volte a trabalhar com Jesus.
A FPF ainda pode jogar com o tempo, e até ganhar algum com o castigo a aplicar, mas ninguém pode acreditar que seja possível voltar a uma convivência não-ficcionada. Seria continuar a varrer para debaixo de um tapete que já nada esconde. O oposto do que fez Ronaldo, ao revelar as oito notas que aprovou para Jesus abordar em conferência de imprensa.
Entre a contabilidade de selfies e o (auto)elogio na referência a Pelé e Maradona - mas não a Eusébio ou Messi -, Cristiano revelou uma realidade que não estava escondida, mas à qual toda a gente foi fechando os olhos, à medida que a lenda ia crescendo.
É normal que a opinião de Ronaldo tenha mais peso do que a de qualquer outro jogador. Que seja ouvido sobre a sua utilização, e até sobre outras escolhas técnicas, desde que essa opinião seja não-vinculativa. Já não é normal que aprove notas para o treinador ler na conferência de imprensa, que nem sequer foram discutidas com o departamento de comunicação da FPF, ou qualquer elemento da estrutura federativa, mas com o diretor desportivo do seu clube, o Al Nassr, e com o Consultor Estratégico da sua empresa, CR7, S.A.
É normal que a presença de Cristiano Ronaldo justifique maior segurança nos estágios, cuidados redobrados na logística. Já não é normal que sua ausência, mesmo quando não era por abandono, já retirasse outros elementos da comitiva.
Cristiano Ronaldo nunca precisou destes privilégios para chegar ao patamar astronómico que alcançou. Foi apenas com talento e capacidade de trabalho que conquistou o estatuto de lenda do futebol, maior embaixador de Portugal no Mundo. Não sei se alguma vez pediu esses privilégios, mas o comunicado mostra que não os dispensou.
Jesus terá a sua culpa - mais do que não seja por ter participado em reuniões que devia ter evitado -, mas a realidade é que não foi ele que veio mudar as regras do jogo. O rendimento de Ronaldo é que já não é suficiente para nos hipnotizar. Felizmente estivemos focados estes anos todos naquilo que mais interessava. Esse foi o maior privilégio.