Jogador vítima de concussão transportado de maca para fora do relvado (IMAGO) - Foto: IMAGO
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Concussão cerebral continua a ser subvalorizada

Mitou ou Realdiade é uma rubrica mensal da responsabilidade de elementos da Clínica Espregueira Dragão

Choque de cabeças: o jogador cai, hesita alguns segundos, levanta-se e retoma o jogo. Enquanto a bancada aplaude a resiliência, o jogador pode ter sofrido a lesão mais séria dos 90 minutos.

A concussão cerebral resulta de forças biomecânicas transmitidas ao cérebro, por impacto direto ou indireto. Não implica, necessariamente, perda de consciência, podendo manifestar-se por sintomas como confusão, alterações visuais, défices de memória, entre outros. Contudo, engana por não ter o aparato de uma lesão musculoesquelética e, por isso, continua subvalorizada por atletas, treinadores e, muitas vezes, pelos próprios profissionais de saúde.

No futebol de elite, a incidência de concussão ronda 0,85 a 1,63 por cada 1.000 horas de jogo (Sprouse, B. et al., 2025), sendo mais frequente que a rotura do ligamento cruzado anterior (LCA) (cerca de 0,40 por 1.000 horas de jogo) (Ortiz-Sánchez, D. et al., 2026), uma das lesões mais temidas no futebol. A diferença é que a rotura do LCA é óbvia, pois o jogador cai, grita e sai de maca. Na prática, uma equipa de elite pode esperar, em média, uma concussão por época.

No entanto, ainda persiste uma desigualdade entre sexos. No futebol feminino, as recuperações são tipicamente mais lentas, sendo que esta representa 5 a 7% de todas as lesões, o dobro do que se observa no masculino.

A preocupação já mudou as regras no futebol: em Inglaterra, o cabeceamento está proibido até aos 11 anos e, nos EUA, essa proibição existe desde 2015 — sinal de que o risco em cérebros ainda em desenvolvimento deixou de ser um pequeno detalhe.

Mal gerida, a concussão pode evoluir para síndrome do segundo impacto (que pode até, no limite, levar à morte em campo), síndrome pós-concussional eou, a longo prazo, encefalopatia traumática crónica — a mesma condição que ficou associada à morte de Nobby Stiles, campeão do Mundo por Inglaterra em 1966.

Apesar de existirem protocolos internacionais para reconhecer a concussão, afastar o atleta e orientar o seu retorno gradual ao relvado faz com que o seu cumprimento fique, muitas vezes, aquém do necessário. A UEFA registou um tempo mediano de regresso de apenas 5 dias em clubes europeus de elite, menos do que os 7 mínimos recomendados pelo protocolo da FIFA.

A proteção da saúde cerebral dos atletas exige muito mais do que um protocolo. A sua eficácia exige árbitros capazes de interromper o jogo e solicitar a avaliação da equipa médica, a sensibilização de equipas técnicas e a promoção de uma cultura em que a ocultação dos sintomas não seja encarada como sinal de resiliência. A lesão pode ser invisível, mas a sua desvalorização poderá traduzir-se em consequências graves na saúde e no futuro enquanto atleta.

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