Miguel Casemiro é o rosto da CazéTV - Foto: D. R.
Miguel Casemiro é o rosto da CazéTV - Foto: D. R.
Adicione A BOLA às suas preferências do Google

CazéTV e LiveMode: o fenómeno que nasceu de graça e está a mudar o futebol português

Esta Tribuna Livre é da responsabilidade de André Batista, gestor desportivo e ex-presidente da SAD do Torreense

Em junho, o jogo de abertura do Mundial 2026, entre México e África do Sul, chegou a acumular cerca de 4,6 milhões de espectadores simultâneos, de graça, no YouTube. Não foi um canal de televisão tradicional a fazer esse número. Foi a CazéTV, um projeto que nasceu de um streamer brasileiro a comentar jogos para a câmara do telemóvel e que, em poucos anos, se transformou num dos ativos mais valiosos do desporto digital mundial. Em 2026, esse mesmo modelo chegou a Portugal, com nome próprio, patrocínio de Cristiano Ronaldo e a ambição declarada de mudar a forma como vemos futebol.

Vale a pena perceber quem está por trás disto, porque a história explica muito sobre para onde caminha a indústria.

Consideremos os dois nomes que dão título a este texto.

A LiveMode, a empresa que ninguém via mas que decide tudo

A CazéTV tem cara, voz e maneira de estar de Casimiro Miguel. Mas quem controla a operação, a marca e os direitos que sustentam o canal é a LiveMode, uma empresa fundada pelos empresários Edgar Diniz e Sérgio Lopes, dois nomes que já conheciam bem o setor: tinham criado, em 2007, o Esporte Interativo, canal que revolucionou a transmissão desportiva no Brasil antes de o venderem, em 2015, ao grupo Turner, hoje Warner Bros. Discovery.

Depois dessa venda, Diniz e Lopes fundaram a LiveMode com um propósito diferente: deixar de ser apenas dona de um canal e passar a ser intermediária na negociação de direitos de transmissão entre detentores de competições, investidores e emissoras. A grande viragem aconteceu com o Mundial do Qatar, em 2022. A LiveMode era agente da FIFA no Brasil para os direitos digitais, um pacote que a Globo, historicamente detentora de tudo, decidiu não disputar. A LiveMode ficou com esses direitos por cerca de três milhões de dólares, uma fração dos noventa milhões anuais que a Globo pagava à FIFA pelo pacote completo. Só que um direito de transmissão vale pouco sem audiência capaz de o rentabilizar, e foi aí que entrou a CazéTV.

CazéTV, a prova de conceito que se tornou indústria

A CazéTV nasceu formalmente em 2022, com Casimiro Miguel como rosto e apresentador, e investimento direto de Diniz e Lopes. O sucesso foi tal que a Copa de 2022 se tornou, para a LiveMode, uma verdadeira prova de conceito: um canal de YouTube conseguia gerar audiências comparáveis, e por vezes superiores, às de uma emissora tradicional, com uma fração do custo estrutural e uma linguagem completamente diferente, mais próxima do adepto comum do que do estúdio de televisão clássico.

O crescimento seguinte foi vertiginoso. O canal ultrapassou os 23 milhões de subscritores, e a estrutura empresarial por trás dele profissionalizou-se a um ritmo equivalente. Em 2024, entraram como sócios a XP Private Equity II e a gestora norte-americana General Atlantic, num investimento estimado à volta dos 450 milhões de reais por uma participação superior a 20 por cento na operação internacional da marca. A CazéTV passou a negociar patrocínios de peso, chegando a fechar onze cotas de patrocínio só para o Mundial 2026, com receita estimada em dois mil milhões de reais, e a somar direitos de transmissão que incluem a fase final da Copa do Mundo de 2026 completa, a Copa do Mundo Feminina de 2027, os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, através de parceria renovada com a Disney+, e ainda a LaLiga espanhola em exclusivo, com sublicenciamento da Premier League junto da ESPN.

Casimiro deixou, entretanto, de ser sócio direto do canal para passar a integrar a holding internacional do grupo, sedeada nas Ilhas Cayman, mantendo-se como embaixador e principal apresentador, mas já não como dono no sentido tradicional. O negócio, hoje, é maior do que a personalidade que o tornou famoso.

Cristiano Ronaldo entra em jogo

Em maio de 2026, a LiveMode anunciou que Cristiano Ronaldo se tinha tornado acionista da LiveMode Cayman, o braço internacional da holding responsável por negociar direitos de transmissão para todas as operações do grupo fora do Brasil, incluindo a própria CazéTV e a nova LiveModeTV em Portugal. Os valores do investimento e a percentagem adquirida por Ronaldo nunca foram divulgados publicamente, mas o próprio grupo descreveu a entrada do jogador como uma validação estratégica do modelo, numa altura em que a empresa se preparava precisamente para o lançamento internacional que teve em Portugal.

LiveModeTV: o modelo brasileiro a falar português

A LiveModeTV chegou a Portugal em 2026, coincidindo com o arranque do Mundial, e seguiu à risca a fórmula que resultou no Brasil: transmissão gratuita no YouTube, financiada por publicidade e parcerias de marca, com uma equipa que junta ex-jogadores e criadores de conteúdo digital à mesa. A operação portuguesa garantiu os direitos diretamente junto da FIFA para transmitir todos os jogos da Seleção Nacional e ainda o melhor jogo de cada dia do torneio, e reforçou o elenco com nomes como Ricardo Quaresma, Ricardinho, o youtuber Movemind e os comentadores Tomás da Cunha e Mário Cagica.

O objetivo, segundo os próprios responsáveis, nunca foi um projeto de um só torneio. Depois do Mundial, a LiveModeTV fechou parceria com a DAZN para transmitir, também no YouTube e também de graça, um jogo por jornada da Premier League e as partidas da Liga dos Campeões a partir das 17h45, além de manter direitos de outras competições como a Taça Intercontinental, a Libertadores e Mundiais de formação. Os planos da empresa passam agora por replicar este modelo noutros mercados europeus, com Espanha, Itália, França e Alemanha já identificados como próximos alvos.

Porque é que isto interessa ao futebol português

A relevância desta história para quem segue o futebol nacional não está apenas no entretenimento que a CazéTV e a LiveModeTV oferecem. Está no que representam para o modelo de negócio que sustenta a transmissão desportiva em Portugal.

Já defendi anteriormente neste mesmo espaço que o interesse pelo futebol português existe, mas que grande parte dele fica preso atrás de barreiras de acesso, preço e fragmentação de plataformas. A LiveModeTV é a prova prática de que um modelo gratuito, financiado por publicidade e construído à volta de criadores de conteúdo em vez de estúdios tradicionais, consegue gerar audiências massivas mesmo em competições de elite. Se um jogo de abertura de Mundial reúne milhões de espectadores simultâneos de graça, a pergunta que qualquer operador de televisão paga em Portugal deveria estar a fazer é simples: quanto tempo mais aguenta o modelo atual, assente em assinaturas fragmentadas, competir com um concorrente que oferece o mesmo produto sem custo direto ao adepto?

Há aqui lições concretas para o setor nacional. O modelo gratuito financiado por publicidade deixou de ser uma curiosidade digital e passou a disputar diretamente audiências com operadores pagos, mesmo em competições de elite com direitos caros. A credibilidade já não depende apenas do estúdio ou da experiência televisiva clássica, e comentadores e ex-jogadores conseguem construir confiança junto do público em formatos mais informais e digitais. A entrada de figuras como Cristiano Ronaldo no acionariato destas empresas mostra algo importante: os próprios protagonistas do jogo já veem este modelo como o futuro comercial da transmissão desportiva, não como uma alternativa marginal. A fragmentação de direitos entre múltiplas plataformas pagas, o problema identificado noutro texto desta série, cria exatamente o espaço de mercado que operadores como a LiveModeTV exploram com um modelo mais simples e acessível. E Portugal tornou-se, com a chegada da LiveModeTV, um mercado de teste para a expansão europeia deste modelo, o que leva a uma pergunta que vale a pena colocar desde já: a Liga Portugal quer ser espectadora desta transformação ou parceira ativa dela?

No fim, a pergunta é inevitável: se um canal de YouTube gratuito já consegue competir de igual para igual com os grandes operadores pagos num Mundial, quanto tempo falta até esse mesmo modelo bater à porta da própria Liga Portugal?

A iniciar sessão com Google...