Caso Ronaldo: ninguém saiu a ganhar
O abandono de Ronaldo da Seleção Nacional teve um impacto global, fruto do mediatismo do jogador português. Hoje, com mais informação, mantenho a convicção de que não houve um motivo que justificasse uma reação daquela dimensão. A forma como os diferentes intervenientes reagiram aos acontecimentos revela, em grande parte, uma visão pouco clara das suas responsabilidades. A grande pergunta que importa responder é: alguém saiu por cima neste episódio?
FPF, ausência de liderança
Na análise dos três intervenientes, tenho de começar pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF), a instituição que deveria ter liderado todo o processo. A FPF não pode ficar subordinada a qualquer interveniente ou interesse, independentemente da sua dimensão. A forma como geriu este caso revela fragilidades institucionais e falta de liderança.
Com os dados que são públicos, sabemos que existiu uma reunião entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo, intermediada por uma pessoa externa à FPF. Simão Coutinho é diretor desportivo do clube em que Ronaldo é acionista e trabalha diretamente com o jogador. Pedro Proença, líder federativo, não se encontrava na Dinamarca no momento dessa reunião.
Este episódio levanta duas questões. A primeira prende-se com a intervenção de pessoas externas numa matéria que dizia respeito à gestão da Seleção. A segunda tem a ver com o funcionamento interno da FPF. A presença de vice-presidentes e dirigentes com experiência não impediu que a mediação do conflito fosse assegurada por alguém exterior à estrutura. Fica a dúvida sobre o papel e a autonomia de quem tem responsabilidades na gestão da instituição.
Há ainda outra questão importante: o resultado da reunião. Um presidente da FPF não pode permitir que um jogador procure condicionar aquilo que o seu treinador deve dizer numa conferência de imprensa. A liderança de uma equipa pertence ao treinador e deve ser respeitada por todos.
Depois de Ronaldo ter abandonado a Seleção, a ausência de uma reação pública imediata por parte da FPF foi difícil de compreender. Pedro Proença demorou quatro dias a pronunciar-se e, quando o fez, destacou Ronaldo como símbolo da portugalidade e garantiu que a FPF não era uma casa sem regras. Não defendo que devesse ter adotado um tom agressivo, mas esperava uma posição clara sobre as consequências da decisão de Ronaldo.
Ao não esclarecer essa questão, Pedro Proença não assumiu a sua responsabilidade e não afirmou de forma inequívoca a autoridade da instituição nem o princípio de que as regras se aplicam a todos, independentemente da dimensão do jogador.
Ronaldo, fuga para a frente
A saída abrupta de Ronaldo gerou muita discussão. A pergunta que se instalou foi: afinal, o que aconteceu para o jogador tomar aquela atitude? Houve muita especulação ao longo dos dias, mas, à medida que as informações foram surgindo, tornou-se difícil encontrar uma justificação para uma reação daquela dimensão.
A justificação de que Jorge Jesus tinha prometido a Ronaldo jogar 30 minutos contra a Noruega perde força perante as próprias palavras do jogador. No ponto 5 do documento que Ronaldo queria que Jesus lesse na conferência de imprensa, pode ler-se: «Do plano que tracei para ele não constava o jogo da Noruega. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. Cristiano concordou.»
Ou seja, o próprio documento, elaborado por Ronaldo e pelos seus consultores, reconhece que não existia um plano inicial para Ronaldo jogar contra a Noruega e que o jogador concordou com a possibilidade de ser utilizado. Esta versão torna menos convincente a ideia de que existia uma promessa inequívoca de utilização. Perante isto, torna-se difícil compreender a dimensão da reação. Mesmo que tenha existido algum desentendimento entre os dois, nada do que foi tornado público parece justificar o abandono da Seleção a meio do estágio.
Para piorar o cenário, o comunicado divulgado por Ronaldo incluía os oito pontos que queria que Jorge Jesus abordasse publicamente. Ao tentar justificar a sua decisão, o jogador acabou por expor ainda mais o conflito e por dar dimensão mundial a um episódio que dificilmente o beneficia. Desde o início, a estratégia seguida foi uma fuga para a frente, sem argumentos suficientemente fortes para justificar a decisão tomada.
Dolores Aveiro foi uma das pessoas próximas de Ronaldo que mais lucidez demonstrou neste processo, quando afirmou: «O meu filho podia sair pela porta grande e assim saiu na porta pequena, mas não faz mal, Deus vai-se encarregar...»
Acredito que estas palavras refletem o sentimento de muitos portugueses e admiradores do jogador. Depois de uma carreira extraordinária, Ronaldo não precisava de terminar este episódio desta forma.
Jorge Jesus não foi marioneta
Já todos conhecemos a forma de liderar de Jorge Jesus. Não foi surpresa para ninguém. Aqui ou ali, podia e devia ter tido mais sensibilidade, mas a verdade é que não fez nada que justificasse a reação de Ronaldo.
Jesus acabou por ter projeção mundial por estar ligado a todo este processo e por se ter tentado passar a ideia de que foi o responsável pelo que aconteceu. Parece-me que, internamente, reforça a sua liderança perante o grupo. Demonstrou que não é uma marioneta e que coloca a equipa em primeiro lugar.
Não vou dizer que saiu a ganhar com tudo isto, porque, sinceramente, acho que todos saíram a perder.
Regressou a Braga. Entrou num momento em que havia espaço e isso beneficia as suas caraterísticas. Foi determinante nos 20 minutos que esteve em campo e ajudou a desbloquear um jogo que parecia complicado para o Sporting.
É um dos homens-fortes de Ronaldo e esteve envolvido na gestão desta crise, tendo participado nas reuniões com Jorge Jesus e Simão Coutinho. A estratégia escolhida acabou por ter o efeito inverso ao pretendido.