«Bombas», união e «equipas que tentam copiar»: tudo o que disse Farioli
O FC Porto desloca-se este sábado ao reduto do Gil Vicente, em partida da 9.ª jornada da Liga. Esta sexta-feira, no Olival, Francesco Farioli fez o lançamento da partida com o emblema de Barcelos, falando ainda sobre a derrota com PSV Eindhoven e os sinais de contestação daí resultantes.
— O FC Porto está invicto na Liga, algo que, nas ligas de topo, só Barcelona e Manchester City podem dizer. Espera que o Gil Vicente seja um dos adversários mais exigentes até ao momento?
— Em relação à comparação com outras equipas de topo na Europa, não é algo que mude o nosso dia a dia. Temos de estar mesmo focados no jogo de amanhã, num terreno fora, que é muito difícil pelo ambiente, mas também e especialmente pela qualidade que o Gil Vicente apresenta em campo e pelo trabalho que estão a realizar. Neste momento, é provavelmente uma das equipas em melhor forma na Liga e estão a demonstrá-lo dia após dia, em todos os jogos. Portanto, do nosso lado, claro que para defrontá-los temos de estar bem preparados e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, e mais ainda, para ganhar o jogo.
— Sentiu-se, de alguma forma, injustiçado pelas críticas que se seguiram à derrota com o PSV?
— Acho que há duas coisas: uma é o sentimento e o desejo de vencer por parte dos nossos adeptos, e nisso estamos absolutamente com eles: na vontade de ganhar e de fazer mais. Em termos de atitude, é isso que tentamos fazer em todos os jogos do campeonato, mas também em todos os jogos da Liga dos Campeões. Depois, há um mundo externo que tem, naturalmente, o desejo de agarrar cada oportunidade para criar problemas, para colocar uma bomba por perto, tentar abater ou, pelo menos, ver algum sangue, porque é um desejo histórico: quanto mais se tenta dividir, mais fácil é tentar conquistar. Mas creio que a força deste grupo e a força deste clube sempre esteve em torno do conceito de família. Falámos várias vezes na época passada sobre a Famiglia Portista, e este é um momento de união. Não porque seja estritamente necessário, mas porque não há nada que nos deva afastar deste sentimento.
Sobre as minhas palavras após o jogo, que alguns dos seus colegas tentaram escrutinar e justificar como sendo desculpas, estamos apenas a falar de factos. O facto de um clube como o FC Porto ter ficado dois anos seguidos fora da Liga dos Campeões traz claramente um prejuízo financeiro para o clube e foi a primeira vez nos últimos 10 ou 15 anos que o clube não se qualificou durante dois anos consecutivos. E quando conversei com o presidente, há 16 meses, ele não me vendeu propriamente uma situação económica fantástica. Disse que era um momento de grande exigência, no qual o clube queria fazer tudo para superar as dificuldades. Penso que foi isso que aconteceu, com um mercado importante na temporada passada, a tentar reconstruir, a tentar criar as condições num prazo de dois anos sermos campeões. E conseguimos ser campeões logo no primeiro ano e conquistar outro troféu.
Agora estamos numa fase em que, evidentemente, temos o desejo de lutar pelo título e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para vencer o campeonato. Por outro lado, estamos a disputar uma competição mais exigente e desafiante, na qual jogamos contra equipas de topo. O Manchester City, que vinha de uma série de vitórias e leva um percurso 100% vitorioso na Premier League; o Betis, que, se não estou em erro, está em primeiro lugar na tabela da Champions e atravessa provavelmente um dos melhores momentos da sua história; e o PSV, que é tricampeão e participa na Liga dos Campeões há quatro anos consecutivos.
Portanto, aqui não estamos a falar de desculpas, estamos a falar de factos. O facto de termos jogado contra o PSV, que tem 220 jogos de experiência na Champions no onze deles contra 110 no nosso. O Jan [Bednarek], por exemplo, estreou-se, o Oskar e o Samu fizeram a sua estreia a titulares, para além de jogadores que vinham de lesão ou que ainda não estão no topo da condição física. Por isso, juntando tudo, penso que os comentários feitos após o jogo sobre «crise» têm uma intenção dupla e sabemos perfeitamente de onde e como vêm. Da nossa parte, toda essa vontade de gerar ruído tem de ficar bem longe.
— Equaciona lançar o Martim Fernandes como lateral-esquerdo em Barcelos?
— Nessa posição temos diferentes opções. Temos a possibilidade de jogar lá com o Martim, temos o Francisco [Moura], temos o Zaidu, temos o Souza... Claro que estão todos numa fase diferente em termos de condição física, pelo que será muito importante tentar escolher o jogador certo para começar. Mas todas estas são soluções em que confiamos.
— Em termos de condição física, já tem todos os jogadores prontos para atuarem 90 minutos? E, já agora, sente que o Gil Vicente pode colocar mais dificuldades ao FC Porto pela capacidade que tem de ter a bola?
— Quanto à condição física do plantel, estamos a aproximar-nos do ponto ideal. O Samu está agora a chegar mais perto de uma melhor condição do que aquela em que estava antes, mas ainda assim é um processo longo, que exige de nós uma gestão adequada. O mesmo acontece com o Oskar, que está a evoluir a nível físico. Quanto ao Gabriel Mec, pedimos-lhe para jogar 45 minutos na Youth League e esteve muito bem, pelo que é mais um jogador a aproximar-se da melhor forma. O Souza estreou-se, o Chris [Smalling] jogou nos jogos particulares que organizámos nestes dias para tentar dar a todos os minutos necessários. Acredito que a condição geral está a subir. Claro que ainda existem algumas diferenças entre jogadores, mas isso é perfeitamente normal. Espero e acredito que nos próximos 10 a 15 dias tenhamos um plantel mais homogéneo sob esse ponto de vista e, oxalá, consigamos também recuperar o William o mais depressa possível.
Quanto ao Gil Vicente, é uma equipa com muitas variações, diferentes soluções, muito bem orientada e que está num momento de forma muito positivo. E sabemos perfeitamente como é exigente jogar lá. Foi-o na época passada e vai sê-lo, de certeza, este ano.
— Nota alguma diferença na abordagem da equipa aos jogos? Em seis dos últimos sete, o FC Porto sofreu primeiro...
— É verdade que neste último período sofremos um pouco mais do que aquilo a que estávamos habituados no passado, embora continuemos a ser a melhor defesa do campeonato. O facto de termos sofrido golos sucessivos nos últimos jogos é algo que nos deve deixar alerta e aumentar a nossa atenção. Depois, há que colocar as coisas em perspetiva: sofremos golos de bola parada, aspetos que poderíamos ter defendido melhor coletivamente, coisas que temos de fazer melhor individualmente, sem esquecer o mérito dos adversários ao encontrarem os momentos e as soluções individuais para marcar. Tudo isso tem de ser abordado e analisado, mas também não é motivo para pensar em demasia. Por vezes, sofremos um golo num par de oportunidades. Não devia acontecer, mas acontece.
— Pela primeira vez consigo como treinador, o FC Porto perdeu dois jogos consecutivos. É algo que aumenta a pressão?
— O facto de termos averbado estas duas derrotas seguidas é uma realidade. Depois há a minha análise aos dois jogos. Todos os jogos da Liga dos Campeões merecem uma análise conjunta, mas também individualizada. Aquilo que afirmei após o jogo com o PSV posso voltar a dizer agora, depois de rever o encontro quatro ou cinco vezes, tal como após o Betis: os «ses», infelizmente, não nos dão pontos, mas é um facto objetivo que poderíamos ter três ou quatro pontos com relativa facilidade na Liga dos Campeões. Como isso não aconteceu, é algo que temos de levar em consideração, bem como a importância de gerir os momentos, os lances e as emoções no decorrer da partida. É certamente uma lição a reter, não apenas para a Liga dos Campeões, mas também para o campeonato.
— O William Gomes seria um jogador importante nesta fase em que é preciso algo extra para vencer na Champions?
— O William, desde que cheguei, teve uma evolução muito clara. Começou como uma excelente opção a sair do banco, capaz de mudar a dinâmica do jogo em 15 ou 20 minutos; na época passada teve momentos muito bons a titular e, esta época, jogou praticamente todos os jogos de início, dando um contributo enorme tanto no ataque como no momento de pressão. O que ainda não tivemos até agora foi todos os avançados disponíveis ao mesmo tempo: conhecem a história do Samu, sabem o que aconteceu com o Oskar e, quando o Oskar regressou, o William lesionou-se. Até ao momento não tivemos o luxo de poder escolher livremente entre todos eles. As lesões — sobretudo uma como a do William — fazem parte do jogo, especialmente quando se joga com tanta frequência. Ainda assim, ele está com uma atitude muito positiva, a trabalhar no duro e com a energia certa para regressar o quanto antes, mas temos de acompanhar a evolução nos próximos dias e semanas.
— Depois das palavras do Diogo Costa, por onde pode passar o plano B de jogo do FC Porto?
— Se há um jogador nesta equipa que acredita no que fazemos, o Diogo é o melhor exemplo para representar essa ideia. O que ele quis dizer prende-se com o facto de nos começarem a conhecer, a estudar e a ter-nos como referência. Não é por acaso que vemos muitas equipas a tentar copiar várias das coisas que fazemos. Isso mostra que somos uma referência e que olham com muita atenção para o nosso trabalho. Para nós, isso deve servir de estímulo para acelerar o nosso processo de crescimento.
Há coisas que temos de fazer melhor, com certeza. Em relação ao jogo com o PSV, se sinto que devíamos ter mudado muitas coisas... sinceramente, tento ser muito autocrítico, mas foi um jogo com várias fases. Tivemos dez minutos na primeira parte em que não conseguimos fazer o que pretendíamos e não vou entrar em pormenores, mas com dois metros de diferença tudo teria sido diferente... No entanto, o número e a qualidade das oportunidades que criámos foram evidentes. Também se falou muito sobre a equipa não ter tido coragem, quando na realidade houve três ou quatro lances em que o Bednarek foi pressionar um adversário no canto oposto do campo. Em termos de atitude, não há absolutamente nada a apontar à equipa. Em determinadas fases do jogo poderíamos ter feito melhor, mas volto a sublinhar: olhando novamente para o jogo com o PSV, creio que merecíamos claramente um resultado positivo.
— O Luís Godinho já motivou queixas do FC Porto esta época, na 1.ª jornada. Teme que seja um fator que possa desestabilizar a equipa antes do jogo com o Gil Vicente?
— Não, nada.
— Teme que os adversários da liga portuguesa comecem a seguir o modelo utilizado pelo PSV, que tantas dificuldades criou ao FC Porto?
— Na conferência de antevisão desse jogo, mencionei que a forma de jogar do PSV é muito própria e tornou-se ainda mais particular agora que jogam sem um ponta de lança fixo, atuando com três médios-ofensivos com total mobilidade pelo campo. É uma equipa que joga de forma muito aberta: cria perigo, mas também concede muito ao adversário. Se colocarmos na balança o desenrolar do jogo, peço desculpa, mas terei de me repetir: creio que tivemos as melhores oportunidades do jogo em momentos capitais. Logo a abrir tivemos três ou quatro consecutivas. Na segunda parte dispusemos de várias ocasiões, incluindo dois cortes em cima da linha sem o guarda-redes na baliza.
Temos de aceitar o resultado, mas também temos de ser muito frios na análise. Na temporada passada, por exemplo, vencemos o Estoril em casa num jogo em que jogámos bastante pior do que no outro dia frente ao PSV. Como sempre, é uma questão de serenidade e análise a seguir ao jogo e, no desafio seguinte, entrar novamente com tudo, com a energia e o espírito certos. É isso que faremos amanhã, com certeza.
— Com o passar do tempo, será possível o FC Porto apresentar uma estrutura diferente daquela que tem dado resultados até agora?
— Há vários fatores a ter em conta, porque jogamos de três em três dias contra adversários completamente distintos, o que já exige uma capacidade de adaptação muito grande. Mesmo que não queiramos, somos forçados a mudar em função do oponente que temos pela frente. Acredito que a capacidade de adaptação e de reajuste dentro de um determinado sistema é o que faz a diferença, e foi isso que nos trouxe até onde estamos hoje. Sobre a possibilidade de termos cenários diferentes, o meu pensamento é muito claro: sempre que se mexe numa peça, é preciso ter os restantes 18 ou 19 passos muito bem coordenados. Até agora, quer se goste quer não, acredito piamente que estamos no caminho certo. Ao mesmo tempo, temos de continuar a ser quem somos, tornando-nos mais fortes, 100% mais eficazes e mantendo a atenção aos detalhes mínimos, nomeadamente na pressão para recuperar a bola, algo que nos faltou nos últimos jogos.