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Bola que vale o ‘match-point’ regressou ao campo da FPF…

Basicamente, o que Ronaldo disse foi estar disponível para a Seleção, depois de cumprir o inevitável castigo, desde que Jorge Jesus, a quem chamou duas vezes de mentiroso, não estivesse presente. Vai seguir-se a resposta da FPF e, ou Proença e Jesus cerram fileiras, ou a vitória irá para quem tem um grande futuro como futebolista atrás dele…

O que começou na esfera do futebol, transformou-se num jogo de ténis: ora a FPF passa a bola para o campo de Ronaldo, ora o jogador do Al-Nassr devolve a bola à FPF. Na Cidade do Futebol pensou-se que um jogo de fundo de ‘court’ seria a estratégia mais indicada, mas Cristiano Ronaldo decidiu bater uma pancada forte e subir à rede. O próximo movimento cabe à FPF.

COISAS SIMPLES

Há várias coisas simples e outras mais complexas no comunicado de CR, tomando todas elas por verídicas.

As simples:

- Embora não o diga expressamente, Cristiano Ronaldo não estará disponível para regressar à Seleção enquanto Jorge Jesus for selecionador nacional;

- Pelo menos em duas ocasiões Cristiano Ronaldo chama mentiroso a Jorge Jesus, afastando sempre a tese do mal-entendido. A verdade de Cristiano Ronaldo diz que combinaram uma coisa e Jorge Jesus fez outra;

- Ronaldo pediu desculpa aos adeptos por não ter estado com eles em Oslo, e aos colegas e adeptos por ter desertado da Seleção Nacional;

- Cristiano Ronaldo espera uma punição por parte dos órgãos disciplinares da FPF (nos termos dos regulamentos) e entende (e bem) que o seu extraordinário currículo ao serviço de Portugal não deve ser usado, neste caso, como elemento atenuante da pena, mas sim agravador, pelas responsabilidades acrescidas que lhe cabiam.

COISAS COMPLICADAS

As complicadas:

A presença de Simão Coutinho, diretor-desportivo do Al-Nassr, numa reunião entre o treinador e o capitão da Seleção Nacional;

- A participação de Tiago Craveiro, ex-CEO da FPF e atual quadro superior nas organizações de CR, na elaboração do guião que Jorge Jesus devia seguir;

- A insistência com que Ronaldo fala em ‘jogos de despedida’, sendo o atual contexto (e se quisermos, os próximos anos) pouco propício para tal, dado o conflito público e notório, com Jorge Jesus;

- A disponibilidade mostrada por CR para regressar à Seleção Nacional, cumprido o castigo. Deixando de parte o ‘pormaior’ de Jorge Jesus, sem tempo útil para ser integrado na convocatória para os jogos de 14 e 17 de novembro, Cristiano só estaria disponível para os quartos-de-final de final a realizar em março de 2027, aos 42 anos;

- Com este enquadramento, o comunicado de ontem foi essencialmente um ato político, que visou enfraquecer Jorge Jesus (Pedro Proença e os companheiros de equipa foram cirurgicamente poupados) e deixar a FPF na posição delicada de ter de realizar um bom ‘passing shot’ para ganhar o ponto que provavelmente vale o ‘match’.

SÍNTESE

De tudo isto, resulta o quê? 

Depois do que Ronaldo disse, a tese do mal-entendido cai pela base;

- Jorge Jesus deixou de ter condições de, preservando a sua dignidade, encetar qualquer contacto com Cristiano Ronaldo;

- Pedro Proença, por muito que queira que a marca CR7 continue ligada à FPF, não tem qualquer condição para colocar em causa a posição de Jorge Jesus;É altamente improvável que Cristiano Ronaldo volte a jogar pela Seleção Nacional (embora, como uma vez disse, há muitos anos, na RTP, o saudoso árbitro Vítor Correia, «depois de ter visto, no circo, um porco a andar de bicicleta, já acredito em tudo);

- Com este enquadramento, como é possível falar-se em jogo de homenagem? 

QUESTÃO DE FUNDO

Revista a parte essencialmente política decorrente do bate-bola FPF-CR, vamos à questão de fundo: aos 41 anos, na atual condição física e técnica, excelentes para a idade mas insuficientes para o futebol de alta competição, Cristiano Ronaldo não tem lugar na equipa de Portugal. Em condições normais, CR seria o primeiro a percebê-lo e se quisesse ser útil à causa comum continuaria a fazer parte do grupo, como suplente utilizado ou não utilizado, da bancada, até, procurando ajudar os mais experientes e enquadrar os mais novos. Porém, se o fizesse, não seria Cristiano Ronaldo, que no comunicado fez questão de dizer, «aprendi na vida, com fome e às vezes sem nada para comer, que ninguém dá nada a ninguém.»

Vindo de um universo de provações, Ronaldo subiu ao topo do Mundo - mérito dele - e ninguém foi capaz de ajudá-lo a ver que, como futebolista de elite, o tempo fugiu-lhe já, qual areia por entre os dedos. Todas as razões apresentadas de um lado e do outro, boas ou más, verdadeiras ou falsas, sinceras ou hipócritas, valem o que valem perante essa questão que, até agora, tantos quiseram evitar: do ponto de vista desportivo, tal como Messi na Argentina, Cristiano Ronaldo já não tem nada para dar a Portugal. Sem drama, sem choro, sem histeria, sem rasgar de vestes, apenas sendo mais um a ter de submeter-se à inexorável marcha dos ponteiros do relógio.

Direi sempre obrigado a Cristiano Ronaldo por tudo o que fez pelo futebol português, pela Seleção Nacional e, até, pelo reconhecimento internacional tido, graças a ele, nosso País.

Mas, atrás de tempo, tempo vem, e o tempo dele, já foi… 

PRÓXIMOS CAPÍTULOS

Comecemos pela sanção disciplinar que, como diz Ronaldo, tem de acontecer, agravada pelas razões que o capitão do Al-Nassr muito bem explicou. A direção da FPF ou a direção técnica da Seleção Nacional, já notificaram o Conselho de Disciplina, como manda o regulamento? O caso será simples de julgar, consumada a admissão de culpa. Estão à espera de quê (e note-se que quanto mais tempo demorar a deliberação, pior para o jogador)?

Passemos à questão desportiva, com a batata quente, desta feita, nas mãos de Pedro Proença. Aqui chegados, não há meio-termo, nem coelhos a tirar da cartola: ou Jesus ou Ronaldo. Não me parece que Proença, por muito que gostasse, e percebe-se, ter do seu lado, não o futebolista, mas a marca CR7, tenha margem de manobra para fazer outra coisa que não seja colocar-se ao lado de Jesus, reforçando-lhe a autoridade que Ronaldo tentou minar. Depois de duas conferências de imprensa, após a vitória do Dragão, onde pecaram por excesso de ronaldismo, Pedro Proença e Jorge Jesus só podem passar a agir em ordem unida, puxando o grupo que esteve na Escandinávia para o seu lado, sob pena de aquilo que começou por ser um tiro no pé acabe por transformar-se num tiro na cabeça.

Finalmente, a questão política (e não estou a falar da política da FPF, nem de interesses comerciais setoriais): afastem-se, não se metam, deixem que seja o futebol a resolver o que é do futebol, porque, desta vez, não haverá programa de Inteligência Artificial que transforme em boa imagem a fotografia que irá sair deste imbróglio.

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