Bebeu água da mina e tornou-se numa das maiores lendas do Salgueiros
Jaime Graça, Deco, Silvino Louro, Rui França, Cândido Costa… São vários os nomes míticos que vestiram a camisola do Salgueiros nos seus 115 anos de história, mas apenas dois estão eternizados no mural mais mítico da Casa do Salgueiros: Ricardo Sá Pinto e Jorginho.
A BOLA falou com o segundo, que está a dois anos de fazer 50 anos de ligação ininterrupta ao emblema de Paranhos: «Comecei a jogar no clube da minha terra, que é o Foz. Depois fui para o Boavista com 18 anos e mais tarde vim para o Salgueiros [1978/79], onde acabei por ficar. É como se costuma dizer: Bebi a água da mina e fiquei aqui para sempre. Tive oportunidades para sair, mas nunca saí.»
«Estou aqui há tanto tempo... Os meus filhos nasceram e eu casei-me aqui…», recordou, emocionando-se. «Mal começo a falar, é logo isto…», justifica o agora adjunto de Rui Borges na equipa principal.
Retomado o fôlego — que tão bem o caracterizava nos seus tempos de médio-centro —, o eterno número 8 salgueirista sonha com o dia em que o clube voltará à Liga: «Se estivesse vivinho para ver... É como dizer que gostava de ver o estádio novo. Agora dizem que vai ser lá em baixo, em Arca d'Água, mas só acredito quando vir.»
Jorginho terminou a carreira em 1989/90, quando se sagrou campeão da Liga 2 e devolveu o seu Salgueiros à Liga. Desde então, nunca abandonou o clube da sua vida.
Mítico Vidal Pinheiro destruído de vez
Há sítios que não se esquecem. O Estádio Engenheiro Vidal Pinheiro é um deles. Inaugurado em 1932, foi a casa do Salgueiros nas 24 participações (a primeira em 1943/44 e a última em 2001/02) do emblema paranhense no principal escalão.
Em setembro, o pouco que restava das ruínas do antigo complexo desportivo — num terreno que agora pertence à Metro do Porto — na Rua de Augusto Lessa, começou a ser totalmente demolido.
«Nem consigo passar lá… Há uns tempos fomos notificados para tirar o resto das taças e arquivo que tínhamos lá, mas eu disse que não consegui ir. É muito duro. Não é por termos saído. É por termos saído sem sítio para ir e para depois aquilo ficar ali sem nada. Agora dizem que vão fazer um parque de estacionamento…», confessa Lucinda Moreira, que trabalha na secretaria do clube desde 1980.
O Salgueiros passou de ter um dos estádios mais míticos do futebol português, para andar com a casa às costas. Jorginho, antigo capitão do clube em Vidal Pinheiro e atual adjunto entre Fiães, Campanhã e Rio Tinto, sofre: «Precisamos de ter o nosso espaço. Caso contrário, andamos sempre com as casas às costas. Era bom também para os nossos sócios, pois alguns já têm uma certa idade e não têm condições para se deslocarem para longe.»
«Vivo à beira do antigo Vidal Pinheiro. Há uns tempos entrei para para dar uma entrevista e custou-me imenso… Ver tudo abandalhado, as fotografias dos cartões dos meninos todas no chão, tudo de pernas para o ar… Deu muita tristeza ver aquilo. Agora já deitaram a bancada abaixo para obras…», lamentou, com lágrimas nos olhos.
«Ainda falo muitas vezes com a senhora que guardava o campo, a dona Zélia, para ver se está tudo bem. Tinha ali a casinha dela e foi tudo embora… O meu filho nasceu ali, o infantário dele era ali e vinha sempre comigo para os treinos. Tínhamos um grupo muito bom, juntávamo-nos na confeitaria do falecido senhor Matos, que também era salgueirista, e éramos, a bem dizer, uma família», recordou.