A poesia é sempre a melhor forma de derreter corações gelados (crónica)
Quem olhar apenas para o resultado do Portugal-Dinamarca da primeira jornada da fase de qualificação para o Mundial de 2028 de futsal e se deparar com o expressivo 10-3 pensará que o encontro foi fácil. Porém, engana-se — e redondamente —, pois os lusos enfrentaram complicações consideráveis, nomeadamente no primeiro tempo.
Os dinamarqueses são conhecidos, apesar da afabilidade, como um povo frio, pragmático e quase granítico nas tomadas de decisão. No entanto, se fizermos uma analogia com alguém que pretende conquistar outrem — leia-se a qualificação para o Campeonato do Mundo —, chega-se à conclusão de que, por vezes, a melhor forma de atingir o centro dos corações mais gélidos é com poesia.
Foi isso que Portugal fez no Pavilhão Multiusos de Odivelas, com alguns dos golos apontados a roçarem o estatuto de obras de arte. Destaque para os dois de Lúcio Rocha, pelo recorte tático das jogadas, os assinados pelo estreante Rúben Teixeira e o de Tomás Paçó que, com uma classe assinalável já na segunda etapa, fixou o 7-3 num remate sublime à malha lateral.
Altos, loiros e toscos: esta é a caracterização comum dos jogadores escandinavos. Na seleção de Nikolaj Saabye, a maioria cumpre o perfil nórdico e alguns revelam alguma rigidez técnica, mas todos compensam com uma capacidade de remate fantástica. O jogo começou e, com o selecionador Jorge Braz ainda a ajustar a prancheta tática, já os visitantes marcavam, decorridos escassos 30 segundos. A Seleção Nacional reagiu como lhe competia e rapidamente chegou ao 3-1; contudo, a Dinamarca manteve-se viva no marcador até ao 3-2 e ao 4-3, até que, no fecho de uma primeira parte frenética, Portugal dilatou a vantagem para 6-3 ao intervalo.
No segundo tempo, o guarda-redes Rams manteve-se a um nível elevadíssimo, subindo frequentemente na quadra para criar superioridade numérica no ataque. Todavia, tanto desgaste acabou por cobrar a sua fatura física, e após a sua substituição a equipa das quinas aproveitou a quebra adversária para trilhar finalmente o caminho da tranquilidade.
Quarta-feira há novo teste, desta feita na Roménia, e Jorge Braz agradecerá certamente se não tiver de passar por tantos momentos de sufoco como os vividos na etapa inicial.