A inédita festa da Taça no Ribatejo: «O Pinto da Costa é que é o António Botas do FC Porto»
A rotina é sagrada em Fazendas de Almeirim. As responsabilidades laborais diurnas antecedem a reunião noturna com a bola para cozinhar a batalha do fim de semana seguinte. Nem mesmo um encontro inédito com a elite altera o plano.
O Fazendense vai receber o Estrela da Amadora no sábado, a partir das 15h, naquele que será o primeiro duelo de sempre contra equipas da primeira divisão. A história do clube fundado há 48 anos confunde-se com a do presidente, António Botas Moreira, que ocupa o cargo há... 46.
Tudo começou em 1980, quando chegou a um clube «com um campo pelado com umas varolas à volta», como contou em conversa bem-humorada com A BOLA. A longevidade do sargento fuzileiro reformado no cargo precipitou que fosse apelidado de ‘Pinto da Costa do Ribatejo’, em alusão ao histórico presidente do FC Porto. Ou será ao contrário? «O Pinto da Costa é que é o António Botas do FC Porto porque eu já era presidente quando ele entrou [1982]», frisou, com humor à mistura, sem sinal de querer abrandar.
Até porque, aos 80 anos, ainda há estrada desconhecida para percorrer. O Fazendense vai disputar o primeiro duelo da história do clube contra uma equipa do primeiro escalão luso, em casa, no campo n.º 2 do Complexo desportivo Professor José Sousa Gomes.
As intervenções no recinto principal do clube obrigam a que a partida seja disputada num campo relvado sintético adjacente, com capacidade para cerca de mil espectadores. Além dos 500 lugares sentados em filas pintadas a amarelo e preto, há espaço para bancadas ‘formadas’ por adeptos em pé, ao longo das extremidades do campo.
A realização do jogo na vila com cerca de seis mil habitantes abre a porta a uma festa inédita. Os pontos de interesse para curiosos sem coração à prova do duelo de sábado não se esgotam dentro das quatro linhas. «É um sábado, o tempo está bom, vêm comer sopa da pedra e veem o jogo», sugeriu António Botas Moreira.
Não faltam os ingredientes para a festa da taça, mas terá o Fazendense hipóteses de cozinhar uma surpresa? «Há sempre 1% de esperança, às vezes aparece um milagre», avisa António Botas Moreira.
O realismo pauta a preparação do clube, mas há ordem do treinador, José Miguel Dias, para «desfrutar». O timoneiro responsável por guiar os ribatejanos até aos campeonatos nacionais pela primeira vez desde 2008 está na sexta temporada no comando do clube.
A origem da ligação entre as duas partes remonta ao passado do técnico como médio, que inclui a participação na última época do clube nos nacionais até 2026/27. José saiu em 2009, após quatro temporadas, mas voltaria para fazer a diferença no banco de suplentes.
Em cinco temporadas completas, conseguiu guiar o clube no regresso aos nacionais e, pelo caminho, ainda venceu duas Taças da AF Santarém e uma supertaça. O duelo contra o Estrela é, na ótica do técnico, um «reconhecimento divino» do percurso notável trilhado nos últimos cinco anos.
Os ribatejanos defrontam os tricolores com a leveza de quem pouco tem a perder: «A grande responsabilidade está no nosso adversário. O favoritismo não está a 100%, está a 200%. É uma semana fácil para mim enquanto líder porque a motivação está em alta e o foco está nos nossos jogadores. Temos de aproveitar.»
O realismo guia o plano de jogo do Fazendense, que pretende «dificultar a vida ao Estrela», «desfrutar» e «não perder ninguém, seja por castigo, seja por lesão». «Ninguém vai para ali para brincar. Se conseguimos fazer qualquer coisa diferente, perfeito, mas gosto muito de falar de realidades e não de ilusões», avisou, ainda assim.
«Estamos a anos-luz daquilo que é o nosso adversário, pese embora às vezes aconteçam coisas que ninguém consegue explicar. Mais do que sonhar ou rezar a Nossa Senhora para que nos ajude a passar, é desfrutar de um dia histórico e agradecer a sorte que nos calhou», reiterou.
O primeiro duelo da carreira contra a elite emociona José Miguel Dias e é encarado com a máxima gratidão, após um percurso de mais de 35 anos com a bola debaixo do braço: «Não é todos os dias, infelizmente, que jogamos com equipas de primeira divisão. Estou muito agradecido aos deuses do futebol por me terem dado esta oportunidade.»
O sonho do capitão
A aposta do Fazendense na continuidade e longevidade dos elementos do universo do clube reflete-se no percurso do capitão, Rodrigo Neves. O defesa central de 30 anos, que soma mais de 200 jogos ao serviço do clube que representa desde 2019, é o porta-voz da ambição do plantel: «É o jogo mais especial que se calhar todos já disputámos. Vamos tentar lutar com os nosso argumentos para deixar as pessoas da vila orgulhosas.»
Os jogadores ribatejanos estão «motivadíssimos», de olho numa surpresa. «Há sempre esse sonho. Temos noção que é uma realidade completamente diferente da nossa, mas todos os anos ouvimos falar de tomba-gigantes. Porque não? É muito difícil, não estamos numa boa fase no campeonato, mas este é um jogo completamente diferente», apontou.
O capitão, como todo o plantel fora da idade escolar, concilia os turnos na defesa do Fazendense com um emprego. A flexibilidade laboral permite-lhe adaptar a agenda: «O teletrabalho ajudou bastante, permitiu que conseguisse viver em Santarém. Conseguimos conciliar o nossa vida pessoal com a profissional, desde que tudo seja cumprido.»
As 'pedras' no regresso aos nacionais
O Fazendense segura a lanterna vermelha da Série C do Campeonato de Portugal, ao fim de cinco jogos, com apenas um ponto somado. Dores de crescimento para o plantel que transita, em larga escala, da última época e precisa de se adaptar a um nível competitivo superior.
José Miguel Dias destaca as diferenças de poderio entre os conjuntos que militam na mesma divisão: «Estamos num campeonato em que se calhar dois terços são equipas que treinam de manhã, equipas profissionais sem outra ocupação e nós não. No nosso grupo o futebol é a nossa ocupação secundária.»
«Estamos a crescer. As coisas não acontecem com um estalar de dedos, não há aqui uma varinha mágica do Harry Potter. Estamos numa realidade completamente diferente, com muitas equipas profissionais», frisou.
António Botas Moreira reitera esta posição, defendendo que o clube «só joga contra cidades». A estadia no Campeonato Nacional «é um bocado cara» para a realidade do clube, mas o dirigente garante que «quando acabar a época o Fazendense não deve um cêntimo a ninguém».
Sábado é um dia histórico para um clube e uma vila. Resta saber se os ribatejanos têm a receita da surpresa.