Ofori tirou o chapéu mas não pediu licença para o roubo (crónica)
Tirar o chapéu é sempre um sinal de respeito e boa educação quando se entra na casa de alguém. Lawrence Ofori fê-lo já em período de compensação no embate entre o Estrela da Amadora e o Casa Pia, mas esqueceu-se de pedir licença para roubar aos tricolores toda e qualquer réstia de esperança em pontuar. Num duelo entre emblemas cujas sedes distam escassos cinco quilómetros, a turma de Pina Manique revelou-se um vizinho aziago para os homens de Pepa, que assim viram estragada a festa de regresso ao Estádio José Gomes após quase dois meses de interregno devido às deficientes condições do relvado.
Voltando ao golo de Ofori: é verdade que os gansos já lideravam o marcador e a partida caminhava rumo ao final, mas não é menos verdade que os tricolores carregavam com tudo em busca de, pelo menos, resgatar o empate, esbarrando quase sempre nos centrais David Sousa e Khaly, duas muralhas inexpugnáveis.
O médio ganês aproveitou um passe disparatado do guardião amadorense Leo Linck e, ligeiramente adiantado em relação à linha divisória, aplicou um chapéu de abas bem largas. O gesto congelou a bancada anfitriã num clima de desalento profundo e consumou o segundo triunfo dos casapianos no campeonato, que se dão bem com os ares da capital e arredores, já que a vitória anterior acontecera na Amoreira, diante do Estoril (recorde-se que o quartel-general da formação de Filipe Coelho continua a ser o Municipal de Rio Maior).
O filme do encontro conta-se com um Estrela a entrar com forte caudal ofensivo e domínio territorial, mas manifestamente sem Estrela nem clarividência na definição. O Casa Pia manteve-se acantonado numa trincheira, à espreita do momento ideal para desferir um contragolpe letal.
A turma de Pepa subiu as linhas e expôs a retaguarda, mas até foi em organização defensiva que consentiu o golpe inaugural: João Rego conduziu sem oposição, o corredor central tricolor transformou-se numa avenida e o jovem cedido pelo Benfica armou o pé esquerdo para inaugurar o marcador, quase num passe colocado às redes.
A reação da casa foi pronta, com Stoica a fazer estremecer a trave numa cabeçada vigorosa em cima do intervalo.
Após o descanso, o guião manteve-se, mas o ponteiro dos minutos fez disparar a ansiedade amadorense. Logo aos 49’, Rafa Soares cobrou um livre que obrigou Patrick Sequeira a intervenção de recurso. Depois, aos 58’ e aos 70’, Khaly assinou dois cortes imperiais para a posteridade, travando o golo que parecia iminente. O resto é a tal obra-prima de Ofori. Mas sobre essa vénia fatal, já tudo ficou dito.
VEJA O RESUMO DO JOGO
O jovem adulto (19 anos) descoberto pelo Estrela da Amadora no Mafra sabe todos os itens do caderno de encargos que é entregue a qualquer médio. Discreto mas eficiente, sabe lançar a equipa em passes bem medidos e já sente a confiança suficiente para ir progredindo com bola. Falta-lhe só um pouquinho de audácia na hora de visar as balizas contrárias.
AS NOTAS DO E. AMADORA: Leo Linck (4); Max Scholze (5), Luan Patrick (5), Lekovic (4) e Rafa Soares (5); Eddy Doué (5) e Santiago Serra (6); Abraham Marcus (5), Zvonarek (5) e Stoica (6); Leandro Antonetti (4); Lucas Mincarelli (4), Beni Souza (4), Jefferson Encada (5), Tom Moustier (5) e Alisson Souza (—)
O ganês tem um corpo de formiguinha mas uma alma de um imponente leão: 1, 69 m de talento sublimado aos 90+2' quando aplicou um chapéu de abas largas num remate pronto dois ou três passos à frente da linha do meio-campo. A baliza estava deserta, mas estaria à espera que a bola lhe caísse no pé direito? Já terá um episódio muito bom de contar aos filhos, aos netos e, eventualmente aos bisnetos.
AS NOTAS DO CASA PIA: Patrick Sequeira (6); André Geraldes (6), David Sousa (7), Khaly (8) e Pedro Rosas (6); Ofori (8) e Seba Pérez (6); Mohamed Salah (5), João Rego (7) e Pauwels (6); Cassiano (4); Livolant (6), Henrique Araújo (6), Gabi Pereira (5), Selvi Clua (5) e Kevin Prieto (—)