Pau Víctor foi a imagem do desalento bracarense no final da partida (Foto Hugo Delgado/LUSA)
Pau Víctor foi a imagem do desalento bracarense no final da partida (Foto Hugo Delgado/LUSA)

Lenços brancos não foram de adeus à crise bracarense (crónica)

Quatro jogos sem ganhar para os homens de Carlos Vicens e a Lei de Murphy bem ativa para os da casa perante Gil Vicente personalizado

«Crise? Que crise?» Este é o título do mais célebre álbum dos Supertramp, numa alusão ao clima socioeconómico que se vivia na Grã-Bretanha em 1975. A expressão ridicularizava a postura do Primeiro-Ministro britânico da altura, James Callaghan, que teimava em desvalorizar a conjuntura ao regressar de uma cimeira num país tropical — atitude que levou a imprensa a fustigá-lo sem tréguas.

Os responsáveis bracarenses continuam a apontar baterias, em alguns casos com razão, à arbitragem. Contudo, a onda de protestos com que Carlos Vicens e a sua equipa voltaram a ser brindados no final do encontro frente ao Gil Vicente é elucidativa da tensão vivida na Pedreira, fruto de quatro jogos sem vencer e três derrotas consecutivas. Os lenços brancos de despedida voltaram a ser empunhados, oscilando à brisa de um reencontro com os sucessos que continua sem soprar a favor dos arsenalistas. O clube de Barcelos carrega o nome do pai do teatro português, cuja obra mais famosa é o Auto da Barca do Inferno — precisamente a tempestade infernal em que o SC Braga continua a navegar.

Mas vamos por partes. O apito inicial denunciou a evidente intranquilidade dos da casa. A formação de Luís Pinto mostrou-se vivaça no corredor direito ofensivo, enquanto os bracarenses, apesar de deterem o domínio territorial, reincidiram nos defeitos habituais: circulação de bola inócua e gritante falta de agressividade em ambos os sectores. Ainda assim, o golo inaugural surgiu por Pau Víctor perto do intervalo, numa decisão bastante discutível do árbitro Gustavo Correia: após consultar o monitor, o juiz considerou que, embora o espanhol estivesse em posição irregular, Buatu teve a intenção de atrasar a bola para o guardião Lucão, validando o lance.

Esperava-se que o regresso dos balneários trouxesse serenidade ao SC Braga, mas tal não passou de uma ilusão. Logo aos 49 minutos, Murilo trabalhou exemplarmente pela direita e cruzou para Walace França encostar com o peito para a igualdade. Fica, contudo, a dúvida sobre uma eventual infração gilista sobre Pau Víctor no início da jogada.

A partir daí, os fantasmas bracarenses saíram do armário e desencadeou-se a inexorável Lei de Murphy — onde tudo o que pode correr mal, corre ainda pior. Tidjany Touré avançou pela esquerda e rematou em arco; Bernardo Fontes ainda susteve o disparo, mas a bola caprichosa embateu no corpo de Diogo Travassos e deu origem ao autogolo. Num derradeiro assomo de orgulho, a equipa da casa partiu em busca do empate, mas Pau Víctor acertou no poste — a confirmar a praga da dita lei — e, no último lance da partida, ficou por assinalar um penálti sobre Ricardo Horta. Há responsabilidades incontornáveis da arbitragem, sim, mas este SC Braga tem de dar muito mais.

A figura: Pau Víctor (6)

O espanhol começou na esquerda, passou para o meio e o rendimento foi sempre elevado. Marcou um golo e não tem a culpa de um eventual erro do árbitro, colocou uma bola no poste e andou sempre de um lado para o outro a tentar uma outra letra de um triste fado parece ecoar a altos berros nos altifalantes da Pedreira. É dos poucos que demonstra objetividade no ataque bracarense. Valha isso a Vicens...

AS NOTAS DO SC BRAGA: Bernardo Fontes (5); Lagerbielke (5), Vitor Carvalho (5) e Bajrami (6); Diogo Travassos (5), Gorby (4), João Moutinho (5) e Diego Rodrigues (6); Ricardo Horta (6), Jonas Wind (5) e Pau Víctor (6); Victor Goméz (4), Tiknaz (5), Gabriel Silva (5), Huseinbasic (4), Fran Navarro (4).

O melhor em campo: Murilo (7)

A direita em termos políticos é conservadora mas em campo o brasileiro apresentou-se por esta faixa e bem acompanhado por Ricardo Esgaio andou sempre em convulsão, deixando os bracarenses em estado de agitação constante. A jogada do primeiro golo teve laivos de brilhantismo e saiu aplaudido pelos adeptos... da casa, ele que já jogou em Braga. Elucidativo.

CARLOS VICENS (TREINADOR DO SC BRAGA)

Que os adeptos saibam que esta equipa, esta equipa técnica, este clube, este balneário, este staff, toda a organização vai dar a pele para tentar continuar a melhorar todos os processos a todos os níveis para que a primeira vitória chegue já, se possível, na quinta-feira

LUÍS PINTO (TREINADOR DO GIL VICENTE)

Uma equipa que entrou a espaços bem, mas a respeitar em demasia o jogo e, na segunda parte, foi totalmente diferente. Continuamos a respeitar o SC Braga, mas ainda mais o que queremos e a nossa identidade. Fomos audazes. Tivemos mais bola, mais duelos ganhos e ficámos uma equipa mais perigosa e com um domínio do jogo diferente. Na parte final, tivemos de sofrer, mas isso demonstra o que é ser uma equipa

Próximo artigo

A iniciar sessão com Google...