Lenços brancos não foram de adeus à crise bracarense (crónica)
«Crise? Que crise?» Este é o título do mais célebre álbum dos Supertramp, numa alusão ao clima socioeconómico que se vivia na Grã-Bretanha em 1975. A expressão ridicularizava a postura do Primeiro-Ministro britânico da altura, James Callaghan, que teimava em desvalorizar a conjuntura ao regressar de uma cimeira num país tropical — atitude que levou a imprensa a fustigá-lo sem tréguas.
Os responsáveis bracarenses continuam a apontar baterias, em alguns casos com razão, à arbitragem. Contudo, a onda de protestos com que Carlos Vicens e a sua equipa voltaram a ser brindados no final do encontro frente ao Gil Vicente é elucidativa da tensão vivida na Pedreira, fruto de quatro jogos sem vencer e três derrotas consecutivas. Os lenços brancos de despedida voltaram a ser empunhados, oscilando à brisa de um reencontro com os sucessos que continua sem soprar a favor dos arsenalistas. O clube de Barcelos carrega o nome do pai do teatro português, cuja obra mais famosa é o Auto da Barca do Inferno — precisamente a tempestade infernal em que o SC Braga continua a navegar.
Mas vamos por partes. O apito inicial denunciou a evidente intranquilidade dos da casa. A formação de Luís Pinto mostrou-se vivaça no corredor direito ofensivo, enquanto os bracarenses, apesar de deterem o domínio territorial, reincidiram nos defeitos habituais: circulação de bola inócua e gritante falta de agressividade em ambos os sectores. Ainda assim, o golo inaugural surgiu por Pau Víctor perto do intervalo, numa decisão bastante discutível do árbitro Gustavo Correia: após consultar o monitor, o juiz considerou que, embora o espanhol estivesse em posição irregular, Buatu teve a intenção de atrasar a bola para o guardião Lucão, validando o lance.
Esperava-se que o regresso dos balneários trouxesse serenidade ao SC Braga, mas tal não passou de uma ilusão. Logo aos 49 minutos, Murilo trabalhou exemplarmente pela direita e cruzou para Walace França encostar com o peito para a igualdade. Fica, contudo, a dúvida sobre uma eventual infração gilista sobre Pau Víctor no início da jogada.
A partir daí, os fantasmas bracarenses saíram do armário e desencadeou-se a inexorável Lei de Murphy — onde tudo o que pode correr mal, corre ainda pior. Tidjany Touré avançou pela esquerda e rematou em arco; Bernardo Fontes ainda susteve o disparo, mas a bola caprichosa embateu no corpo de Diogo Travassos e deu origem ao autogolo. Num derradeiro assomo de orgulho, a equipa da casa partiu em busca do empate, mas Pau Víctor acertou no poste — a confirmar a praga da dita lei — e, no último lance da partida, ficou por assinalar um penálti sobre Ricardo Horta. Há responsabilidades incontornáveis da arbitragem, sim, mas este SC Braga tem de dar muito mais.
O espanhol começou na esquerda, passou para o meio e o rendimento foi sempre elevado. Marcou um golo e não tem a culpa de um eventual erro do árbitro, colocou uma bola no poste e andou sempre de um lado para o outro a tentar uma outra letra de um triste fado parece ecoar a altos berros nos altifalantes da Pedreira. É dos poucos que demonstra objetividade no ataque bracarense. Valha isso a Vicens...
AS NOTAS DO SC BRAGA: Bernardo Fontes (5); Lagerbielke (5), Vitor Carvalho (5) e Bajrami (6); Diogo Travassos (5), Gorby (4), João Moutinho (5) e Diego Rodrigues (6); Ricardo Horta (6), Jonas Wind (5) e Pau Víctor (6); Victor Goméz (4), Tiknaz (5), Gabriel Silva (5), Huseinbasic (4), Fran Navarro (4).
A direita em termos políticos é conservadora mas em campo o brasileiro apresentou-se por esta faixa e bem acompanhado por Ricardo Esgaio andou sempre em convulsão, deixando os bracarenses em estado de agitação constante. A jogada do primeiro golo teve laivos de brilhantismo e saiu aplaudido pelos adeptos... da casa, ele que já jogou em Braga. Elucidativo.
AS NOTAS DO GIL VICENTE: Lucão (7); Ricardo Esgaio (7), Buatu (6), Elimbi (6) e David Moreira (6); Diogo Prioste (6), Lausen (7) e Santi García (7); Murilo (7), Kaba (5) e Gil Martins (5); Walace França (7), Zé Carlos (6), Tidjany Touré (7), Joelson Fernandes (5) e Gonçalo Maia (—)