72 clubes à deriva

Campeonato Portugal 09:16
Por Pedro Cadima
O Campeonato de Portugal avança para curva final, numa aceleração contida. Feitas as últimas contas da fase regular em cinco zonas, seguem-se os decisivos duelos num play-off já devidamente calendarizado (ver quadro). Passado um pano sobre as interrogações classificativas, são mais evidentes as inquietações orgânicas, que levam esta conversa por fortíssimos reparos ao modelo escolhido para a competição. Há um desconsolo à vista, uma estrada impedida a meio da viagem, já em plena febre por um destino incrível, cravando um tremendo sabor amargo para 72 clubes e, sobretudo, para 1656 jogadores, fazendo média a um plantel de 23 elementos...

A esmagadora maioria de clubes enfrentou uma prolongada, estranha e insólita despedida da época, perdendo no final de abril o compromisso do treino e o brinquedo do jogo. A FPF reformulou os moldes da competição e só oito equipas vão prolongar atividade num play-off pela subida à Liga 2, que envolverá os cinco vencedores de série (Vizela, Felgueiras, União de Leiria, Mafra e Farense) e os três melhores segundos classificados (Vilaverdense, Lusitano Vildemoinhos e Vilafranquense), ficando traçada já, sem uma esperançosa tábua de salvação, a descida dos seis últimos em cada série com o sossego do meio da tabela a contemplar oito. Imperou uma ideia de redução e muitos projetos ambiciosos morreram na praia.

Desvantagem brutal

O Campeonato de Portugal, constantemente repensado, tem semeado discórdia de ano para ano, insatisfação manifestada por várias vozes e infindáveis cores, não tendo recolhido, nunca, tamanha reprovação como em 2017/2018. E são os protagonistas do jogo, jogadores e treinadores, que traçam o panorama mais crítico, disparando a sua absoluta incompreensão pelo modelo definido, identificando profundas feridas e um rasto hemorrágico na própria competitividade. Os custos duma competição encerrada em abril deixam jogadores votados a uma paragem superior a três meses, a dificuldades de enquadramento em novos clubes, confinados, em muitos casos, a nove e dez meses de obrigações salariais das respetivas entidades patronais, ou mesmo a prematuras dispensas por nada haver para ganhar ou qualquer posição a discutir.

Sintomas duma competição em crise, amplamente questionada, promovendo apelos a uma maior sensibilidade federativa para atacar o problema.

«A maioria dos clubes nesta divisão não faz atempada preparação da época. Com três meses de paragem esse problema agudiza-se. E para os jogadores, num campeonato que devia ser de oportunidades, fica muito complicado. Qualquer jogador que saia para se apresentar num campeonato profissional, ou se treina muito bem, faz investimento sério nisso com um preparador físico para chegar à pré-época em condições, ou então está numa desvantagem brutal. Perde-se a prática diária. Quem manda tem de repensar rapidamente este modelo», alerta o treinador do Merelinense, André Cunha, em início de carreira e antigo jogador do Gil Vicente, que se notabilizou por subir a pulso e jogar em todas as divisões.

«Os jogos são a magia do futebol, não se devem tirar jogos, é mau para o negócio. Quem decide não deve ser propriamente do futebol, deve estar numa secretaria», critica André Cunha, incisivo a desfiar defeitos da estrutura montada.

«O problema desta divisão é ser uma prova amadora e a maioria destes clubes não está protegida, qualquer um acima consegue vir buscar jogadores sem custos. Devia pensar-se em como acautelar estes clubes, recompensá-los de algum modo», invoca André Cunha, ajeitando o esférico para um ataque do treinador do Anadia, Nuno Pedro.

«O do ano passado já pecava porque não premiava a regularidade. Mas este tem problemas mais evidentes. Permitir contratações livres até fevereiro num campeonato que acaba em abril é um perfeito absurdo. Temos de analisar adversários até final do campeonato e podem-se mudar intervenientes. Descerem tantas equipas é bastante desconfortável e difícil. Há equipas despromovidas a meio do campeonato e outras que jogam mais dum mês sem nada a ganhar», elucida, dando conta de outras situações danosas. «Neste contexto há equipas que descem cedo e mandam jogadores embora ou deixam de pagar. É mau em todos os aspetos, não há rigor e rouba o foco aos intervenientes no jogo», analisa.

Não é fácil para um treinador

Sem pontapé para a frente, a gestão da conversa e a discussão da problemática segue para o treinador do São Martinho, Agostinho Bento, que reclama diálogo da FPF com todas as partes diretamente ligadas a jogo e à prova.

«Estamos perante um campeonato desigual, muito injusto, com grande perda de competitividade. São moldes determinados por dirigentes fechados em gabinetes. Os campeonatos não profissionais deviam ser organizados por uma comissão de treinadores, que pensem o futebol», frisa, procurando evidenciar a origem do mal.

«Acho que em Portugal há uma grande preocupação com a Seleção, com os clubes da Liga, com as equipas B. Esquecem-se de quem anda no Campeonato de Portugal, que muitas vezes são as equipas formadoras de jogadores que chegam à Liga», releva Agostinho Bento.

Chovem alertas, queixas mais ponderadas e outras mais iradas, num mar de críticas que se adensa a vários protagonistas, que partilham a insatisfação misturada com a incredulidade. Também José Rachão, vencedor duma Taça de Portugal com o V. Setúbal, que se mantém em atividade, orientando o Águeda, aponta à complexidade gerada com uma competição contraproducente na forma no que respeita à adrenalina tão desejada na perseguição duma meta.

«É muito difícil gerir um balneário nestas condições, a partir do momento que se deixa de ter objetivos, nem para um lado, nem para outro. Até na questão dos compromissos do clube há muita dificuldade. Olhar para um campeonato com 80 equipas e perceber que só vão subir duas equipas e mais nada, sabe realmente a pouco. Isto não é fácil para nenhum treinador, seja novo ou mais experiente», defende.
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