A Inteligência Competitiva e o Espectáculo Desportivo (artigo Manuel Sérgio 17)

Ética no Desporto 22:28
Por Manuel Sérgio
1. A Inteligência Competitiva (IC) resulta de uma resposta cultural e operacional à globalização da sociedade pós-capitalista e às transformações individuais e sociais que este fenómeno originou. A IC pode mesmo definir-se como um sistema cultural e operacional de recolha, tratamento, análise e encaminhamento da informação, visando o processo de tomada de decisões. A IC deve fornecer a informação certa, no momento certo, de forma certa, à pessoa certa, para que, finalmente, se possa tomar a decisão certa.

No futebol (refiro-me principalmente ao futebol brasileiro e ao português), a esmagadora maioria dos seus dirigentes, se há coisa de que não beneficiam é da informação certa, no momento certo, visando a decisão certa. Não digo que não os ilumine um saber económico-financeiro e jurídico de indiscutíveis méritos (que eu não tenho, por exemplo) - do desporto, numa sociedade pós-capitalista, nem sempre se lhes descobre uma informação atualizada. E lá ficam os clubes nas mãos de pessoas que não têm em conta o paradigma por que se rege o desporto, designadamente o desporto de alta competição! E assim não é a vida do clube que se subordina à ciência actual, mas a ciência que se subordina à retórica de alguns “agentes do desporto” bem intencionados, generosos, mas, repito-me, de reduzida informação. O que me surpreende é a confiança inconcussa de alguns jornalistas nas generalizações ousadas, arbitrárias de pessoas declaradamente impreparadas à gestão do desporto...

A informação e a cultura são, hoje, os grandes fatores de desenvolvimento. A multidimensionalidade da Sociedade da Informação, que é a nossa, exige, também dos fazedores do espectáculo desportivo (e portanto do futebol) mais informação e, por extensão, mais conhecimento. No futebol, há dois campos bem estremados em liça: o dos que se fundamentam, discreteando sobre o futebol, na sua vida de ex-profissionais e o dos que, sem as necessárias vivências e sem o apoio de habilitações académicas específicas, falam de futebol, até à exaustão – escasseando, tanto num lado como noutro, a informação e o conhecimento. Trata-se de uma lacuna tão evidente... que ninguém vê! Ocorre-me o conto de Poe, “The Purloined Letter”. A polícia parisiense procura, em vão, na casa de um suspeito, uma carta politicamente comprometedora. A polícia investiga os pontos mais escondidos e... nada! Em desespero de causa, o chefe da polícia solicitou a colaboração de Dupin, precursor de todos os detetives da literatura policial, que rapidamente encontrou a carta procurada. De facto, a carta não se encontrava em nenhum esconderijo de difícil acesso, mas à vista de toda a gente. E nisto consistia a astúcia: o seu ocultamento era a sua fácil visibilidade. Acontece o mesmo com o futebol. É tão evidente a incultura e a desinformação, que, por vezes, o fragilizam, que se torna difícil descobri-las e entendê-las.

Daí que eu ouse propor a criação de um departamento de inteligência competitiva (DIC), nos principais clubes de futebol, ou de desporto altamente competitivo. Com que objectivos? A criação de uma nova mentalidade, onde se reconheça que o recurso económico básico é o conhecimento. A mais necessária revolução a fazer, no futebol, é a que há-de ser levada a cabo pelos trabalhadores do conhecimento, os quais não podem ser vistos como uma das soluções, mas como a solução. Quando invoco a necessidade dos trabalhadores do conhecimento, não me refiro aos retóricos que falam de tudo, mas de nada sabem, isto é, não me refiro aos generalistas “bem falantes”. Hoje, conhecimento é informação com eficácia, é teoria que a prática confirma a sua utilidade. Estaremos entre os melhores do mundo, no que ao futebol (e ao desporto) diz respeito, no dia em que assumirmos a revolução do conhecimento... que está por fazer, no futebol, declaradamente (e não só em Portugal)!

2. Assim, o DIC criará e dinamizará dispositivos de recolha, tratamento e disseminação da informação, de acordo com os mais modernos princípios da informação e da comunicação e os interesses do departamento de futebol (e os departamentos das demais modalidades). Semanalmente, este departamento encontrar-se-á com o treinador principal das principais modalidades, em que o Clube compete, apresentando-lhe a informação julgada necessária aos seus processos de decisão, como técnicos desportivos. Também, todas as semanas, o DIC fará, só com os elementos que o integram e sob a presidência de um membro da direção do Clube, uma reflexão crítica sobre o papel da inteligência competitiva, nos desempenhos dos atletas . Rubens Minelli, treinador brasileiro, à pergunta de um jornalista: “Qual o seu tipo de literatura preferido?” - respondeu: “A vida dos grandes generais que fizeram a 2ª grande guerra mundial”. Se a guerra, conforme a célebre definição de Carl von Clasewitz, “é a continuação da política, por outros meios”, o desporto de alta competição pode considerar-se a continuação da guerra por outros meios, entre os quais regras nítidas. Durante o Mundial de 2002, em que o Brasil se sagrou campeão, o livro de cabeceira de Luiz Felipe Scolari era A arte da guerra de Sun Tzu. Quem, como eu, por dever de ofício, foi forçado a ler e a consultar, dezenas de vezes, o Homo Ludens, de Huizinga, depressa concluiu que o futebol-espetáculo é simultaneamente alta competição e jogo...

O DIC encorpora-se perfeitamente no património moral de um clube. Um protesto visceral, contra a ignorância, contra a rotina é sempre um acto moral e cabe inteiramente na história de um grande clube. No meio do confusionismo aturdidor, muitas vezes habitual no espectáculo desportivo, o DIC pode transformar-se numa reserva de lucidez, onde é possível escutar-se a palavra insubmissa e resistente. É que se aproximam a sociedade pós-capitalista ou a sociedade do conhecimento da sociedade da informação. Na linha de Thomas Kuhn, expressa nos seus três livros, The Stucture of Scientific Revolutions, The Essential Tension e The Road Since Structure, todos editados, por The University of Chicago Press, respetivamente em 1970, em 1977 e 2002 – na linha de Thomas Kuhn, importa que saibamos qual é o paradigma científico, que melhor pode servir o desporto, mormente o futebol. Kuhn termina assim o Posfácio à Estrutura das Revoluções Científicas: “O conhecimento científico, tal como a linguagem, é intrinsecamente propriedade comum de um grupo, ou então não é nada”. Ora, porque, hoje, o recurso económico básico é o conhecimento, importa criar, num clube de futebol, uma comunidade científica e o paradigma que a informa. Proponho para paradigma o Desporto, como uma das valências da Ciência da Motricidade Humana (CMH), uma nova ciência hermenêutico-humana. Adiante apresento os motivos desta minha exposição.

Voltemos a Thomas Khun e à Estrutura: “Se este livro fosse reescrito, ele começaria com uma discussão sobre a estrutura comunitária da ciência” (p.176). Na página 180 do mesmo livro, Kuhn adianta, sem margem para dúvidas, que é um paradigma que deverá nortear, dirigir uma comunidade científica. Assente na fenomenologia, entendo a motricidade humana como o movimento intencional e em equipa da transcendência e, na sequência do que venho dizendo, há mais de 30 anos, recusando a educação física e a preparação física tradicionais. Não há educação de físicos, mas de pessoas em movimento intencional. No desporto, por seu turno, o método a empregar é o que decorre do pensamento complexo, onde o físico, o técnico, o tático, o psicológico, o moral, ou ainda o quantitativo e o qualitativo, se treinam, simultaneamente. Na equipa técnica, no lugar do “preparador físico”, prefiro um “metodólogo do treino”, ou seja, um profissional que saiba quais as características dominantes do treino, hoje e ao longo da História, designadamente a partir de Gerschler e Reindell e do seu “interval-training”. E que saiba ainda que um atleta se avalia no laboratório, na competição, nos treinos e no convívio diário.

3, Assim, no GIC, a informação é o seu elemento vital. Recolhê-la, estudá-la e divulgá-la, assentando a competitividade, em modelos científicos: eis o seu objetivo primeiro! Ora, porque no Desporto, como ciência, se estudam e se investigam seres humanos – é à luz das ciências hermenêutico-humanas (abertas a um trabalho interdisciplinar com as demais ciências) que passará a estudar-se, a pesquisar-se o Desporto e os seus praticantes. É evidente que, em pleno século XXI, não se descamba no erro do positivismo, que separa as ciências da natureza da sociedade e da cultura e as ciências sociais humanas do seu enraizamentlo físico e biológico. A CMH, longe de qualquer reducionismo, apresenta um método “que procura e não oculta as ligações, as articulações, as solidariedades, as interdependências, as implicações, as complexidades” (Edgar Morin, Méthode 1, p. 15). A CMH reconhece a multidimensionalidade de tudo e de todas as coisas, rejeita a hiperespecialização dos saberes e faz seu o método da complexidade. Que o mesmo é dizer: para a CMH, tudo o que é cultura comporta uma dimensão físico-biológica e tudo o que é físico-biológico comporta uma dimensão cultural. De pouco vale um atleta, com boa, ou mesmo ótima, condição física, sem a vontade nunca enfraquecida de ganhar! Já não sei quem foi que me disse que o Cruyff, poucos momentos antes dos jogos, dizia sempre aos seus jogadores: “Tenham vontade de ganhar e não de não perder”.

Do que venho de escrever se infere a proposta que tenho a ousadia de apresentar aos meus simpáticos leitores:

- Que o Desporto se considere um subsistema do sistema motricidade humana, onde o jogo e a competição pareçam as dimensões dominantes.
- Determinado e aceite o paradigma científico, a CMH, uma nova ciência hermenêuticlo-humana, poderá ainda o clube que aceitar esta proposta transformar-se também num produtor de conhecimento, através da prática dos seus atletas e das lições dos seus professores e treinadores.
- Que a gestão e a vigilância da aplicação deste paradigma e da sua informação se processe no Gabinete de Inteligência Competitiva (GIC), composto por seis elementos: um responsável, um documentalista, dois tradutores e dois técnicos de boa cultura desportiva.
- Os profissionais que trabalhem no GIC deverão compor uma equipa pluridisciplinar e possuir a capacidade bastante, para uma abordagem interdisciplinar do Desporto, visando sempre a implementação da IC.
- E, conhecido o paradigma científico e identificadas as necessidades do Clube, deverão eles investigar, recolher, estudar e divulgar a informação necessária e saber depois transformá-la, após diálogo com os treinadores do Clube, em conhecimentos operacionais, capazes de apontar objetivos ambiciosos, entre os quais a criação da IC e a manifestação de eficiência, inovação e competitividade.
- Um paradigma científico assumido por um clube de futebol supõe uma cada vez mais rigorosa qualificação dos seus quadros técnicos e administrativos. Não há verdadeira interdisciplinaridade, sem a sabedoria, a ciência e a reflexão crítica dos que a praticam.

Findo este artigo, com a convicção que do trabalho do GIC também o médico especialista de Medicina Desportiva poderia beneficiar. O dr. Jorge Araújo adianta, no seu livro, Gerir é Treinar: “O líder nato não existe” (p. 29). O estudo (que não basta) é absolutamente necessário. As divergências, em todas as áreas do conhecimento (o Desporto é uma delas) hão-de processar-se entre quem pratica e estuda (estuda para praticar melhor). Termino com uma frase que escrevi, pela vez primeira, em 1977, no meu livrinho A Prática e a Educação Física; “A prática é mais importante do que a teoria e a teoria só tem valor, se for a teoria de uma determinada prática”. Mas a teoria (o estudo) é indispensável porque quem só pratica, repete! E, no que à teoria diz respeito, será bom lembrar que o futebol é um fenómeno social, isto é, reproduz e multiplica, por vezes, as taras da sociedade capitalista e ultraliberal em que vivemos. Digo isto, para que não nos deixemos adormecer, entre o entusiasmo que o espetáculo desportivo desperta, à recusa da sociedade injusta... que é a nossa! No estudo que o GIC pode proporcionar, depressa concluiremos que, para ultrapassarmos a crise que nos aflige, há coisas bem mais importantes do que o futebol altamente competitivo...
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