A alquimia dos corpos (artigo de José Antunes de Sousa, 62)

Espaço Universidade 08-10-2016 16:30
Por José Antunes de Sousa
Terminaram, com júbilo e emoção, há poucos dias, na Barra da Tijuca, no Rio, as Paralímpiadas (Paraolímpiadas, sem qualquer amputação fonética!) durante as quais a Pedra da Gávea assumiu a forma e a vida da mítica Olímpia, e confesso que me espantou e comoveu o genuíno entusiasmo dos incontáveis espectadores rigorosamente em todas as modalidades – mesmo as mais exóticas. Para mim, um sinal mais da sensibilidade e afectividade do povo brasileiro a quem o nosso (e deles, também) Agostinho da Silva reconhece a capacidade e atribui mesmo o profético desígnio de «liderar o futuro humano» (1971).

Permitam-me os meus amigos que, com rendida humildade, traduza o meu espanto pelas maravilhosas «perfomances» de tantos homens e mulheres, aparentemente na sala-de-espera da vida, com um punhado de perguntas que se me impôem com a força e inevitabilidade de um soluço. Aqui vão:
Que corpo outro haverá para além desse pobre corpo que exibem?, ou, por outras palavras, que corpo mais, para além deste, mutilado e inviável? Que força para lá da mera concatenação biomecânica – certamente deficitária, quando não mesmo inexistente, de músculos e articulações? Onde e qual a origem de uma imprevista harmonia e que o desconchavo físico simplesmente desmente ou flagrantemente infringe?

Donde essa imprevista e admirável coordenação motora para lá do que naquilo que parece apenas um esfarrapado arremedo de corpo é gritante falta dela? Enfim, que corpo mais para lá deste corpo a menos? Onde, pois, a fonte: num mero e precário sistema de alavancas vacilantes e não raro mutiladas, reduzidas a uns cotos encarquilhados, ou numa Consciência, um campo expressivo de Inteligência, que, através da «operante intencionalidade», inventa acção e beleza lá onde só a inércia e a inanição pareciam ditar a sua lei? Que fizeram estes homens e estas mulheres perante a fatalidade do severo condicionamento físico? Resistiram ou se entregaram e, nessa entrega, operaram a miraculosa integração, pacificada e redentora, do próprio défice físico?

Deixem-me, queridos amigos, que remate e ilustre esta minha perplexidade, com uma impressionante história contada na primeira pessoa pelo Eckhart Tolle, um dos mais influentes mestres espirituais da actualidade (2003):

«Nos finais dos anos de 70, eu almoçava todos os dias com um ou dois amigos na cantina do centro de estudos da Universidade de Cambridge, onde andava a estudar. Por vezes, um homem, que estava confinado a uma cadeira de rodas, sentava-se a uma mesa perto da minha, geralmente acompanhado de três ou quatro pessoas. Um dia, ele estava a uma mesa mesmo à minha frente e eu não pude deixar de olhar para ele com mais atenção, e fiquei chocado com o que vi.

Ele parecia quase totalmente paralisado. O corpo dele era macilento e a cabeça estava permanentemente caída para a frente. Uma das pessoas que o acompanhavam estava cuidadosamente a introduzir comida na sua boca, sendo que grande parte da mesma caía de novo para um pequeno prato que outro homem segurava por debaixo do seu queixo. De vez em quando, o homem da cadeira de rodas produzia alguns sons ininteligíveis, alguém se aproximava da sua boca e, para minha surpresa, conseguia interpretar o que ele estava a tentar dizer.

Mais tarde, perguntei a um dos meus amigos se sabia quem era aquele homem. “Claro”, respondeu ele, “é professor de Matemática e as pessoas que estão com ele são seus alunos. Ele tem uma doença do neurónio motor que vai paralisando progressivamente todas as partes do seu corpo. Deram-lhe uma esperança de vida de cinco anos, no máximo...”

Algumas semanas mais tarde, ao sair do edifício, ele estava a entrar e, quando segurei a porta para ele entrar na sua cadeira de rodas eléctrica, os nossos olhos cruzaram-se. Foi com espanto que reparei no brilho dos seus olhos. Não havia nele qualquer indício de infelicidade. Percebi imediatamente que ele tinha abandonado a resistência: estava a viver na entrega.

Passados alguns anos, ao comprar um jornal num quiosque, fiquei surpreendido ao vê-lo na capa de uma famosa revista de notícias. Não só continuava vivo, como se tinha convertido no físico teórico mais famoso do mundo naquela altura – o seu nome era Stephen Hawking.»
E, volvidos mais de vinte e cinco anos, eis que, para nosso proveito e espanto, continua vivo e activo!

Amigo que me lê, se tem um problema – e quem os não tem? - só tem, acredite, uma boa maneira de transcendê-lo: aceite-o. Winston Leonard Spencer Churchill, que passou por grandes provações – e, olhe, que não foi apenas a do estreito de Dardanelos -, aconselhava do alto da sua experiência pessoal: «se está a atravessar o inferno, continue». Era já de um a coisa actualmente tão em voga no prontuário psicológico que ele falava – de resiliência: um problema percepcionado não como uma entidade autónoma, exterior e ameaçadora, que nos pode derrubar, mas como um desafio que nos cumpre criativamente integrar!

Sim, porque, ao contrário da ilusória e generalizada crença, a felicidade não é algo que nos acontece, mas uma decisão que tomamos. Como fizeram estes maravilhosos exemplos de humanidade, os paralímpicos.
Mais que um grande espectáculo desportivo, tivemos na Barra da Tijuca, uma planetária escola com incríveis e inspiradoras lições de vida.
Para nós todos!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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