Fiel ao Belenenses e... aos amigos! (artigo de Manuel Sérgio, 41)

Ética no Desporto 28-08-2014 14:57
Por Manuel Sérgio
Não sou, nem benfiquista, nem portista, nem sportinguista. Sou belenenses! Bebi o amor ao Belenenses com o leite da minha querida Mãe. Aos domingos (bem me lembro) cumprido o preceito da missa dominical, almoçava e, com o meu, também querido, Pai, rumava depois às Salésias, ou à Tapadinha, quando o Belenenses “jogava fora”. Aplaudir, acompanhar o Belenenses era, para mim, um comportamento básico, um dever.

Assim o pensava, logo em criança. Não é, por isso, toldado pelo nevoeiro de um clubismo patológico, que escrevo, hoje, que gostei do F.C.Porto, no primeiro jogo do play-off, com o Lille. Lopetegui apresentou uma equipa onde se fundiam as virtualidades dos mais novos, com um Rúben Neves maravilhoso (nasceu um jogador que vai surpreender o mundo do futebol) e a experiência e argúcia dos menos jovens, mas todos com o “quantum satis” de valor, capazes de constituir uma equipa forte, sólida, madura.

A cultura de vitória (algo que se respira num departamento de futebol, como o incenso nas igrejas) há muitos anos foi semeada por José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa. Fiz amizade com José Maria Pedroto e posso testemunhar o que lhe ouvi, frequentemente: “Onde o Jorge Nuno estiver, eu estou também”. Estes dois homens ergueram uma obra, no campo da gestão do desporto, que não tem par no nosso país. Demais, José Maria Pedroto foi também um homem de infatigável curiosidade, por tudo o que se referisse à cientificação do treino e da competição, no futebol. Com Jorge Nuno Pinto da Costa, felizmente vivo e a presença permanente do espírito de Pedroto, o F.C.Porto (não tenho receio em adiantar, num cursivo rápido) não vai repetir a mediocridade da época passada.

Jorge Jesus, como José Maria Pedroto, também de mim se aproximou, para me questionar (acompanhava-me, nesse dia, o meu inesquecível amigo Homero Serpa): “Gostava que me tirasse algumas dúvidas acerca do que escreve”. E acentuou: “Gostava de compreendê-lo melhor”. Em Jorge Jesus, há nele, como treinador de futebol, uma confluência de qualidades, das quais eu distingo: uma rápida e segura leitura de jogo; uma inteligência específica, que lhe possibilita um amplo e minucioso conhecimento do que se passa em campo; uma vivência do treino e da competição, uma vivacidade de espírito, que o fazem presente, em todos os momentos da prática profissional do jogador. De facto, a sua personalidade caudalosa dá ao treino que lidera um ritmo e uma intensidade invulgares. Eu posso acrescentar ainda, como qualidade que não quero (não devo) ocultar, a curiosidade constante pelos mais diversos aspetos em que o futebol se desentranha e até por um trabalho interdisciplinar com outras áreas do conhecimento.

No futebol, são poucos os treinadores que sabem integrar-se na vida intelectual e, o que é de lastimar, não sentiram ainda a necessidade da leitura de alguns autores, de alguns jornais e revistas, do convívio com especialistas noutras áreas do saber, para melhor compreensão e atuação, no seu trabalho. É evidente que o meu conceito de intelectual não se confunde com a jactância de algumas pessoas que se julgam pertencentes a uma espécie superior, a uma aristocracia que tivesse substituído a cor do sangue, ou o volume do dinheiro amealhado, pelo saber, como elemento de discriminação social. Para mim, o intelectual é o que sabe interpretar, porque o vive, o real com um pensamento mais elaborado do que a maioria das pessoas, no sentido de concorrer, à sua maneira, a um mundo outro, mais fraterno e mais justo. Por que será que um treinador de futebol não pode ser uma pessoa, com fecunda e superior disponibilidade à vida intelectual? E, sobre o mais não reconhece que dela tem absoluta necessidade?
O F.C.Porto tem hoje um “plantel” sabiamente escolhido. O trabalho de Pinto da Costa, como presidente, nunca se transformou numa rotina. Descobre-se, nele, ano após ano, o entusiasmo da primeira vez. E o Benfica? O Benfica depende, quase unica e exclusivamente, de Jorge Jesus! É que a falência do BES levou também à falência, salvo melhor opinião, de uma direçâo e gestão do futebol, assente, quase unica e exclusivamente, no crédito bancário. O Sr. Luís Filipe Vieira, o insatisfeito criador de um Benfica novo, há 10 anos atrás - devidamente acompanhado de uma equipa de especialistas, tem de repensar o que fez, com admirável sageza e transbordante de calor humano, e... fazer o que ainda não foi feito! O fim do BES do dr. Ricardo Salgado representa o fim de um futebol, hoje, decrépito e famélico.

Por isso, se o Jorge Jesus, uma vez mais pela dádiva total do seu ser impetuoso e ardente, chegar à vitória, lado-a-lado com os seus adjuntos e os seus jogadores, do Nacional de Futebol 2014/2015, terá conseguido um dos êxitos de maior significado, na vida do S.L.Benfica e do próprio desporto português. É que, em tempo recorde e pela sua liderança esclarecida, pensou, projetou, motivou uma equipa de campeões. Porque julgo ser uma das pessoas que melhor conhecem o Jorge Jesus (tirante a família, logicamente), estou convicto que o Benfica, embora com um “plantel” inferior ao do F.C.Porto, é candidato ao título de campeão nacional. Isto, repito-me, ao mesmo tempo que o presidente do Benfica, repensa o que fez (e com êxito indiscutível) e estuda caminhos novos de direção e gestão. Se no Benfica se implantar a incapacidade de ver, para além do que é conhecido – nem a liderança do Jorge Jesus fará o “milagre” que dele se espera.
Mas eu só queria dizer que fui amigo do José Maria Pedroto e sou amigo do Jorge Jesus. E sou do Belenenses...
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