Mário Moniz Pereira: puramente desportista! (artigo de Manuel Sérgio, 155)

Ética no Desporto 05-08-2016 15:32
Por Manuel Sérgio
Desportista, puramente desportista, Mário Moniz Pereira, licenciado e doutor em Desporto; professor do INEF das disciplinas de voleibol e atletismo; dirigente, treinador e atleta do Sporting Clube de Portugal; presente, como dirigente e treinador, em 12 Jogos Olímpicos (e muito mais havia a lembrar, mas o seu currículo é de todos conhecido) – Mário Moniz Pereira, há poucos dias falecido, fechou o ciclo vivo dos grandes pioneiros do desporto, em Portugal. E até da vivência, quase mística, do ideal desportivo, considerando portanto insubsistente, na vida, tudo o que não fosse alcançado com trabalho, com disciplina, com solidariedade e uma competição fraterna (nunca uma competição hostil e fraudulenta).

E a sobredoirar tudo isto, como uma apoteose de luz, como forte e imperecível exaltação: um grande amor à família, em primeiro lugar, e depois ao Sporting Clube de Portugal. Quando as Salésias e o Restelo eram a minha segunda casa, conheci o Tomás Paquete, o António Faria, o Matos Fernandes, o Joaquim Branco, o Rui Ramos, o Espírito Santo, a Georgete Duarte (minha boa amiga), o Pedro de Almeida, o Manuel da Silva, o Manuel Faria, os treinadores Moniz Pereira, Fernando Ferreira, Alberto Freitas, Eduardo Cunha, etc., etc. No entanto, quando em manhã chuvosa e sonolenta (bem me lembro) de Outubro de 1968, ingressei nos quadros técnicos do Fundo de Fomento do Desporto e entrei de lecionar, na Escola de Educação Física de Lisboa, as disciplinas de “Introdução à Educação Física” e “Educação Física Comparada”, não poderia antecipar quanto uma nova ideia de desporto nasceria em mim, em contacto diário com os alunos e professores daquela Escola e do Instituto Nacional de Educação Física (INEF). De facto, eu, no INEF, mais aprendi do que ensinei. Uma virtude, para além dos meus inúmeros defeitos: aprendia com gosto as impressivas e vibrantes lições dos mestres que em sorte me couberam...
Eu já esboçara, em respeitosa distância, algumas conversas, sobre o tema “desporto”, com o Acácio Rosa (que ficou meu amigo e da minha família até ao fim dos seus dias) com o jornalista Homero Serpa (companheiro inseparável de uma boa parte da minha vida) e com o Dr. Eduardo Monteiro (que, então, era jogador de basquetebol do Belenenses e colaborador do jornal do Clube da Cruz de Cristo). Mas nunca me ocupara do desporto, com a vastidão e a profundidade das palavras dos Doutores Leal d’Oliveira e Celestino Marques-Pereira e do Dr. Mário Moniz Pereira, que me procuravam na biblioteca do INEF, ou que encontrava, por mero acaso, nos corredores, mormente depois dos horários das aulas. Este com uma vantagem sobre Leal d’Oliveira e Celestino-Marques (que José María Cagigal, diretor do INEF de Madrid, escutava com grande curiosidade intelectual): conhecia, até ao pormenor, a vida do clubismo desportivo português. Simultaneamente dirigente e atleta, professor e estudioso e um treinador como a História do Atletismo outro não conhece – não tenho qualquer receio de adiantar que vejo, nele, o desportista mais autenticamente desportista, que eu conheci, ao longo da minha vida. A Leal d’Oliveira e a Celestino Marques-Pereira e mesmo ao Dr. Salazar Carreira não escasseava teorização do desporto mas nenhum deles apresentava, como Mário Moniz Pereira, a mordedura do sol e do ar livre, a espontaneidade na prática de várias modalidades desportivas, o movimento, o colorido, a fantasia, a sensibilidade, a graça, a transparência de quem encontrou no desporto o seu espaço privilegiado de transcendência, de superação. Mário Moniz Pereira fazia, dirigia, ensinava, estudava desporto porque, sem desporto, não sabia viver.

E, além do mais, todo ele era um artista: um músico e um poeta de espontânea, doce e cristalina inspiração. “Ninguém explicou por que razão somos não só uma cultura de poetas, mas de bons poetas. O que noutras culturas é excepção, na nossa é devoção. A ideia justa de que os homens são naturalmente poetas não basta para explicar o que entre nós é, ao mesmo tempo, um jogo, um prazer refinado e uma mística. Mas o mais estranho é o seu papel mítico, o reconhecimento do poeta e da poesia, no meio de uma Cidade tão aparentemente, ou realmente prosaica, como a nossa. Será para compensar? Tudo se passa como se, na nossa cultura, tão estruturalmente adorante, os poetas tivessem tomado o lugar dos santos. Quem se queixará? Ou quem o estranha?” (Eduardo Lourenço, Crónicas Quase Marcianas, Gradiva, Lisboa, 2016, p.47). Mas, no meu entender, porque era um amante do desporto, um líder nato, um homem de altíssimo prestígio moral e um artista de constante seiva criadora – porque era tudo isto, era inevitavelmente um treinador de excelência, de tamanha excelência que não há outro, como ele, no atletismo português ou no atletismo de qualquer outro país. Segundo o José Carvalho (que foi também meu antigo aluno e um atleta de invulgares recursos): “O professor Moniz Pereira tinha uma ideia que era mostrar aos portugueses que podiam ser tão bons como os outros”. E, de facto, conseguiu que a sua ideia triunfasse, por força so seu querer, do seu saber e... da sua arte! Da sua arte? É que o treinador de atletismo compôs melodias que o tempo não poderá apagar. Perguntem ao meu amigo Carlos do Carmo quem foi Mário Moniz Pereira. E terão a resposta seguinte: “Um dos nomes inesquecíveis da História do Fado”.
Faleceu o Prof. Mário Moniz Pereira (1921-2016). Morreu nele e com ele um dos mais cultos, expressivos, fecundos e deslumbrantes desportistas que Portugal algum dia produziu. Como treinador, designadamente no atletismo, inigualável, único. Em Portugal e no Mundo!
Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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