Em 2016, Colin Kaepernick, ‘quarterback’ dos San Francisco 49ers, decidiu protestar contra a violência policial contra os afro-americanos e começou a ajoelhar-se cada vez que era tocado o hino dos Estados Unidos, antes dos jogos da NFL. Em fim de contrato, com o último jogo da época, uma derrota nos playoffs contra os Seattle Seahawks, chegou o fim da carreira de Kaepernick, boicotado pelos clubes, sob pressão dos setores conservadores, poderosos economicamente, da sociedade norte-americana.
Quatro anos volvidos o mundo mudou, a aceitação global do movimento ‘Black Livers Matter’ é uma realidade que traduz uma perceção diferente da sociedade, e ontem o comissário da NFL, Roger Goodell, encorajou os clubes a contratarem o ‘quarterback’ proscrito: «Se Kaepernick quer retomar a carreira na NFL, é preciso que algum clube dê um passo em frente e o contrate. Pessoalmente, ficaria muito feliz, apoio o clube que o faça e encorajo todos os clubes a fazê-lo.»
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Há quase três meses que, diariamente, tenho publicado em Abola.pt, estes textos a que chamei «Crónicas de Um Mundo Novo». E é essa a realidade que estamos a experienciar, a reboque da pandemia, feita de fim de dogmas e de vontade de mudança. A Covid-19 – que mais cedo ou mais tarde será erradicada – foi um ‘game changer’ para o mundo, da economia às relações de trabalho, colocou a nu as mais escabrosas diferenças sociais e não deixará de ter efeitos profundos em todas as áreas, e na maneira como o desporto se relaciona com a sociedade, também.

No primeiro jogo do Borussia Dormund depois da morte de George Floyd em Mineápolis, o avançado inglês Jadon Sancho marcou um golo e exibiu uma mensagem, na camisola interior, que dizia «Justiça para George Floyd.» A primeira reação da Bundesliga foi de ver se havia ali matéria disciplinar, se Sancho tinha pisado a linha vermelha que impede a politização do desporto. Porém, o que se viu foi que, um pouco segundo a ideia «if you can´t beat them, join them», no mais recente jogo do Bayern com o Borussia M’gladbach uma enorme tarja, que ocupava uma grande porção das bancadas da Allianz Arena, dizia «Black Liver Matter», enquanto que para o regresso da Premier League são esperados atos públicos no mesmo sentido.

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A pergunta que deixo, neste contexto de «Mundo Novo», é esta: Qual vai ser, a partir de agora, o critério para lidar com as mensagens «privadas» dos jogadores? Longe vão os tempos em que Mário Jardel, então no Sporting, cada vez que marcava um golo mostrava a camisola interior onde se lia «Por que será?»; gerou-se grande especulação em torno da mensagem do goleador brasileiro que foi desfeita, semanas depois, quando a mensagem mudou para «Será do Guaraná?». Tudo não tinha passado, aproveitando uma lacuna da lei, de uma campanha de marketing gizada por Ana Matias…
Depois vieram os beijinhos e parabéns, às mulheres, aos filhos, às primas, e a FIFA só começou a ficar irritada quando começaram a surgir mensagens de ordem social ou mesmo política.
E agora, depois de George Floyd e do «Black Lives Matter», em plena recuperação do símbolo que é Colin Koepernick, o que vai mudar? E quem vai desenhar uma nova linha que impeça as misturas entre desporto e política? Ou será que não deve haver linha nenhuma?
Ficam aqui algumas pistas para reflexão sobre um tema que está na primeira linha da atualidade…