O Ajax mostra ao Benfica como se faz
O Sport Lisboa e Benfica é, em termos estruturais, um dos clubes com maior potencial da Europa fora dos cinco principais campeonatos. Tem um estádio próprio de qualidade superior, um centro de treinos de excelência, uma das academias mais reconhecidas do continente e uma base de apoio significativa. A SAD do clube tem apresentado receitas operacionais que, em épocas recentes, se aproximaram dos 200 milhões de euros, valores comparáveis aos de clubes como o Ajax, nos Países Baixos.
No entanto, ao contrário do clube neerlandês, o Benfica não tem conseguido traduzir essa base estrutural e financeira em sucesso desportivo consistente nem num modelo económico sustentável a longo prazo. Apesar de alguns títulos nacionais nos últimos anos, a instabilidade no projeto desportivo tem impedido a afirmação sustentada do clube, tanto a nível interno como na Europa.
Compare-se com o Ajax. Com uma dimensão semelhante em termos de orçamento e mercado, o clube de Amesterdão consolidou nos últimos 10 anos uma política desportiva muito clara: aposta contínua na formação, um treinador com visão de longo prazo, integração progressiva de talento e vendas em tempo útil, maximizando o retorno financeiro. O resultado não tem sido apenas a conquista de campeonatos nacionais, mas também presenças regulares nas fases finais da UEFA Champions League, incluindo uma meia-final em 2018/2019, e lucros operacionais expressivos.
O Benfica, por outro lado, tem oscilado entre modelos estrategicamente desconectados. Entre 2019 e 2023 contratou mais de 40 jogadores para o plantel principal. Vários deles não chegaram a cumprir uma época completa. As mudanças constantes de treinador, com seis em menos de cinco anos, não permitem estabilidade nem valorização eficiente dos ativos. As contratações, muitas vezes elevadas (com várias épocas a ultrapassarem os 30 milhões de euros em reforços), resultaram numa taxa de retorno baixa em termos de rendimento desportivo e valorização de mercado.
Do ponto de vista da gestão, o Ajax estabeleceu uma estrutura técnica blindada à política interna do clube, com figuras de referência no futebol a liderarem a área desportiva. No Benfica, as escolhas para cargos-chave na estrutura têm variado com os ciclos eleitorais ou com critérios pouco claros no quadro estratégico. Essa instabilidade é uma das razões pelas quais, apesar de um orçamento comparável ao do Ajax, os resultados desportivos e financeiros não têm acompanhado os do clube neerlandês.
O Benfica tem potencial para mais. Tem recursos humanos, base social e ativos que permitem construir um projeto ganhador. Mas, para isso, precisa de estabilidade, plano estratégico desportivo de médio prazo e profissionalização das decisões ao mais alto nível. A comparação com clubes de dimensão semelhante que conseguiram construir um modelo bem-sucedido mostra que é possível, mas que exige clareza de objetivos, continuidade e responsabilidade na gestão.