Mohamed Salah em duas revistas
Não será fácil a Mohamed Salah aturar o Mundo. Em abril deste ano o avançado do Liverpool integrou a lista das 100 pessoas mais influentes do planeta para a revista Time, que o enquadrou num quadro de veneração extensível a adeptos do Liverpool, a egípcios e, em plano ainda mais amplo, a muçulmanos, esclarecendo que Salah era «uma pessoa ainda melhor do que um jogador», aplaudiu a publicação. A comprová-lo pode lembrar-se a doação de 3 milhões de euros feita, em agosto, ao Instituto Nacional para o Cancro, no Cairo, no país dele, dias depois de ataque terrorista que matou 20 pessoas e feriu 47 à porta daquele hospital. Não obstante, Salah chegou a escutar uma canção de torcedores rivais do Chelsea que dizia «Salah is a bomber [homem-bomba]», uma imbecil e dolorosa conotação, deplorada e punida pelo próprio Chelsea.
Agora, por ter posado para a edição do Médio Oriente da revista GQ ao lado da modelo Alessandra Ambrósio, Salah foi vítima de injúrias online por parte quem julgou a participação na sessão fotográfica, na qual aparece abraçado pela referida mulher, um indecente comportamento à luz de aceções religiosas extremadas. Salah nem respondeu.
Não será fácil a Salah aturar o Mundo, repete-se, não deve ser fácil viver entre adorações repentinas e ódios fáceis. Salah está bem, parece-me, o Mundo é que está de gatilho fácil, como todos sabemos. Resta-nos a arte, ainda, para repousar os pensamentos e a este respeito recomendo a pintura Football terrorist, de Banksy - o tal génio ou vândalo que tem estado exposto na Cordoaria Nacional; dê lá um salto, se puder, porque termina amanhã: é um homem de balaclava e metralhadora a dar um pontapé de bicicleta numa bola. Só isso. É a arte que nos oferece, de cada vez, a exata medida de absurdo que nos faz falta. O resto é sempre absurdo de mais.