Imagens da festa privada (Instagram/Lamine Yamal)

Lamine e as influencers virtuais: estupidez artificial  

'Para lá da linha' é uma opinião semanal

Não me lembro do dia em que fiz 18 anos. Mas sei que não tive uma festa ao almoço com os meus pais como se tivesse acabado de fazer 10, e outra à noite como se tivesse mais de 30, como aconteceu há dias com Lamine Yamal.

O jogador do Barcelona passou dos beijinhos à avó num restaurante para uma festa temática de máfia italiana, que o levou a oscilar entre um fato branco com bengala e o tronco nu, pescoço adornado com uma corrente, avaliada, por quem fez, em 400 mil euros. Mas eu aos 18 anos não era campeã da Europa, nem do meu país. É evidente que perante uma festa para a qual é pedida a restrição de telemóveis todos querem saber o que aconteceu, e o que passou para fora foi melhor do que se poderia imaginar: senhoras com certo número de peito convidadas, anões contratados para abrilhantar a festa com imagens de jogo e armas de fogo. Associações a queixar-se da presença dos anões, estes a pedir que os deixem trabalhar. Tenho até um colega que viu o bolo, uma torre de pistolas, fichas de casino, notas, balas, copos de espumante, correntes e até a mensagem «i love milfs», e pensou que fosse inteligência artificial, tal era o mau gosto. Não era. 

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E assim anda a fina linha entre esta inteligência que faz de nós desconfiados, descrentes, tontos, tudo agravado pela tendência crescente para as influenciadoras virtuais, como revelado pela conta da ‘fantasma’ Mia Zelu, que passei a conhecer este domingo. Uma influenciadora virtual, ou seja uma pessoa que não existe, que come, viaja, vive a vida que muitos desejariam. Não custa tanto dinheiro e pode promover qualquer produto em qualquer lado, até no Espaço.

Estes olhos cansados já têm alguma dificuldade em distinguir, por isso aquela sensação passada pela série Black Mirror, de um futuro tecnológico que ainda não chegou, mas está muito próximo, está cada vez mais presente. Este dilema é também abordado no filme Mountainhead – em que uma aplicação IA permite criar vídeos falsos tão bons que estalam guerras civis em vários pontos do planeta. Como a população tem como fonte de informação as redes sociais e não os jornais, tudo fica perdido. 

Perdidas ficaram também na semana passada duas pessoas que, num concerto dos Coldplay, viram toda a vida virada do avesso. Mas aposto que preferiam que aquela kisscam fosse apenas virtual.