Ronaldo e mais 10 ou Ronaldo e mais 25?

Portugal 06.12.2022 10:12
Por Rogério Azevedo, enviado-especial ao Catar

Aconteça o que acontecer à Seleção Nacional nesta fase final do Campeonato do Mundo, seja hoje eliminada pela Suíça ou se consagre como sucessora da França a 18 de dezembro, algo já é certo: a conferência de imprensa dada ontem por Fernando Santos, na antevisão do jogo de hoje, marcará para sempre a passagem de Portugal pelo Catar, bem como a parte final da carreira de Cristiano Ronaldo. O selecionador precisou de apenas sete palavras para expressar o que sentiu quando viu e ouviu a frase de Ronaldo durante a sua substituição frente ao Uruguai: «Não gostei nada, não gostei mesmo nada…» Nem gostou o selecionador nem gostou a maioria dos 26 jogadores que estão no Catar em representação de Portugal. Se há uns tempos era Ronaldo e mais dez dentro do campo, agora poderá passar a ser Ronaldo e mais 25.


As birras
Até há alguns meses, quem criticava o capitão da Seleção Nacional eram apenas os fãs do argentino Messi e alguma franja dos portugueses que, benfiquistas ou portistas, não gostavam que o sucesso do madeirense fosse tão marcante no futebol mundial. Porém, Ronaldo continuava a marcar golos em catadupa, quer no clube, quer na Seleção, por isso todas as birras ou faltas de educação que, aqui e ali, lhe eram apontadas, umas com razão, outras nem por isso, depressa ficavam esquecidas.


Erik Ten Hag
Seguiu-se o regresso igualmente polémico ao Manchester United, clube onde passou seis dos melhores anos da sua carreira. Ronaldo aterrou como um extraterrestre e se é verdade que continuou a marcar golos como poucos, chegou a uma altura em que pareceu começar a arranjar conflitos com o mundo inteiro. Até que, em abril deste ano, os red devils contrataram o holandês Erik Ten Hag para seu treinador. Ao mesmo tempo, Cristiano Ronaldo passava por momentos complicados, sobretudo na sua vida pessoal, com a morte de um filho durante o parto.


A entrevista
Meses depois, em agosto, começou a época e cedo se percebeu que CR7 queria sair de Manchester. Porém, não lhe chegou qualquer proposta interessante e teve de continuar no clube, apesar dos múltiplos bluffs que foi fazendo. Ten Hag não gostou e foi colocando a personalidade de Ronaldo à prova, não lhe dando a titularidade ou fazendo-o entrar perto do final dos jogos. CR7 não aguentou a pressão, recusou-se a entrar contra o Tottenham a dois minutos do fim, abandonando o estádio ainda antes que a equipa chegasse ao balneário, e, mais tarde, antes do início deste Mundial, deu a entrevista polémica que os amantes do futebol mundial ouviram.


O pedido
Na Seleção Nacional, ao fim de três dias, compareceu em conferência de imprensa e falou aos jornalistas. Entre outras coisas, fez um pedido aos jornalistas: «Peço-vos que não façam perguntas sobre mim aos jogadores que vierem aqui falar com vocês. Falem sobre o Mundial, sobre a carreira deles, sobre os clubes deles. Eu estou blindado, não há problema e acho chato só fazerem perguntas sobre mim. O meu caso está encerrado.»


O golo
O assunto em torno do ego de CR7 não estava, porém, encerrado, como se viu nos polémicos festejos do primeiro golo de Portugal ao Uruguai. Ronaldo sabia que não tocara na bola, mas, obcecado por ultrapassar o recorde de golos de Eusébio em Campeonatos do Mundo, insinuou que o golo era dele. Não era, como a FIFA, através da Adidas, confirmaria.


As palavras
Finalmente, chegou a Coreia do Sul e as polémicas palavras dirigidas a Fernando Santos. Qualquer coisa como isto: «Estás com uma pressa do c…… para me tirar, f…-..». Ronaldo, aos 37 anos, com 20 de altíssima competição e 15 como figura hipermediática a nível mundial, sabe que tem câmaras de televisão focadas durante os 90 minutos apenas nele próprio e, por isso, não podia nem devia ter vindo, minutos após o jogo, dizer que aquelas palavras eram para um jogador coreano. Não eram. As posteriores, sim, eram para um coreano, mas as primeiras eram para Fernando Santos. O selecionador nacional, quando comentou as controversas palavras, não conhecia a frase polémica que lhe era dirigida, pois não se apercebeu, tal como os elementos ligados à comitiva portuguesa, da frase. Só bem mais tarde, quando as televisões começaram a passar as imagens com a frase forte e bem percetível, Fernando Santos se incomodou.


Esclarecimento
E ontem, em conferência de imprensa, reagiu quando lhe foi perguntado o que achava daquelas palavras: «Vamos dividir em duas partes. Primeiro fui à flash depois à conferência. O que disse é que lá no campo não ouvi nada, estava longe, só o vi a discutir com o jogador da Coreia. Depois já vi na TV e não gostei nada, não gostei mesmo nada». Podia ter-se escondido, mas esclareceu o que sentia perante as palavras do capitão. Depois acrescentou: «A partir daí estes assuntos resolvem-se dentro de casa, estão resolvidos, estão todos focados e disponíveis para o jogo [com a Suíça]». Vai ser titular? «Só dou a equipa no estádio, no balneário, sempre foi assim. De resto o assunto está terminado, resolve-se sempre dentro de casa, repito.»


Muito dificilmente, porém, o assunto estará terminado. Será uma pedra colocada na relação entre ambos, como será uma pedra na relação entre Ronaldo e Carlos Queiroz a frase proferida após a eliminação de Portugal no Mundial-2010, após derrota com a Espanha nos oitavos de final: «Perguntem ao Carlos o que se passou…»

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